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LIVRO ON LINE: A LUZ DE MACHU PICCHU

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    quinta-feira, abril 13, 2006
    interrompe Anamaya com impaciência. - Preveni Manco pessoalmente, pois achava que sua expedição seria inútil. Ele não deveria procurar um confronto com Paullu! - Não é Paullu quem mais quer mal a Manco - murmura Curi Ocllo, desviando os olhos. - É meu irmão, Guaypar. Anamaya se retrai enquanto Curi Ocllo, com a voz abafada, prossegue: - Há muito tempo Guaypar reuniu um grande número de guerreiros do Norte e desde então os põe a serviço de Paullu. Não lhe interessa que Paullu se submeta aos estrangeiros como uma mulher se submete sem amor a um homem. Já há muitos anos ele tem por Manco tanto ódio quanto eu tenho amor. Não pensa em mais nada exceto isso: destruir Manco. E não sei nem mesmo por quê. Anamaya estremece e fecha os olhos. Sua mão busca o ombro de Curi Ocllo e seus dedos se fecham ali com afeição. - Mas eu sei - murmura. Como se as palavras de Curi Ocllo a tivessem transportado totalmente para o passado, ela revê aqueles dias frios e luminosos do huarachiku de Tumebamba. Eles eram crianças. Todos: Manco, Pauliu, Guaypar. E ela também, ainda recém-saída de seu aprendizado com o Sábio Villa Oma, mas já protegida por Atahualpa. Ela se lembra daquela terrível corrida. Do medo de Manco diante da serpente, da grande amizade de Paullu por seu irmão. E já, naquela época, da violência e do ódio de Guaypar. Ela se lembra do combate entre Manco e Guaypar em volta do fogo, dois garotos devorados pela raiva e pelo gosto do sangue, bêbados de chicha e rasgando a noite com a vontade de matar, até que um tio de Manco interrompesse o combate. "A lição está dada e ninguém vai esquecer", dissera ele. Ao que Guaypar, louco de vergonha e de ódio, havia respondido: "Você está amaldiçoado, Manco! Vai arder antes de chegar ao Outro Mundo. A sua alma nunca será livre!" Anamaya, por sua vez, sente as lágrimas lhe subirem aos olhos e sua respiração se acelerar. O verdadeiro motivo de todo aquele ódio, sim, ela conhece. É ela! Também se recorda de outra coisa: Guaypar em Huamachuco pedindo- lhe para ser sua esposa, quando os estrangeiros se aproximavam de Cajamarca. Guaypar lhe dizendo: "Minha alma aqui neste mundo só respira por você, Anamaya! Minhas entranhas queimam só de pensar em você." - Sim - repete -, eu sei o que os separa. - E eu, eu quero impedir que eles se matem, Anamaya. Manco é meu esposo bem-amado! Jamais desejei outro homem em meu coração. Mas Guaypar é meu irmão. Eu também o amo. Anamaya se cala, sem ousar sustentar o olhar horrorizado de Curi Ocllo. - Coya Camaquen, ajude-me - suplica a jovem rainha. - Como posso ajudá-la? Como posso me opor ao que é? - Deixe que eu vá ao encontro de Manco. Ele precisa de mim e quero estar perto dele quando Guaypar quiser desafiá-lo para um confronto. Eu me porei entre eles se for necessário. - Não, Curi Ocllo - declara Anamaya docemente - não permitirei que você faça tamanha tolice. O que opõe Manco e seu irmão é muitíssimo mais antigo e forte demais para que você possa impedir que eles se enfrentem se isto tiver de acontecer. - Não! Eu nunca poderei abandoná-los! - protesta Curi Ocllo gritando. - Irei sem escolta até Vitcos se for necessário. Que vergonha para você que abandonou seu Único Senhor... - Curi Ocllo! Mas Anamaya não é rápida o bastante para segurar a jovem mulher que corre, chorando e gritando de angústia, em direção ao centro de Vilcabamba. É com dificuldade que ela esboça alguns passos para segui-la. "Ó Inti!", reflete Anamaya, por sua vez dominada pelas lágrimas. "Este dia começou com tanta esperança e felicidade, e o que vem já será um fardo mais pesado para carregar que as nuvens que fazem tremer as montanhas."

    Capítulo 23
    Cuzco, junho de 1539.

    Ao se aproximar de Sacsayhuaman, Gabriel toma um choque. Os combates furiosos e os incêndios arruinaram parcialmente as muralhas da fortaleza pela qual tantos homens morreram e na qual ele conquistou sua lenda. As torres estão derrubadas e os exércitos de guerreiros que lançavam flechas e pedras desapareceram. Mas os blocos ciclópicos se erguem com a mesma imponência, não protegendo nada além de um mistério e o vento. Bartolomé freia seu cavalo e estende a mão. - Você viu? Na pedreira alta que se eleva atrás da fortaleza, podem-se distinguir silhuetas de crianças que brincam, correm umas atrás das outras, tentam se agarrar para rolar pelo chão e lutar. Seus gritos estridentes ecoam através das colinas. Gabriel sorri. - É uma guerra sem vítimas esta que é feita pelas crianças. - Elas crescem depressa. Infelizmente, não há nada mais simples que aprender a matar. Gabriel concorda em silêncio. Eles passam por campos onde agora são cultivados, além da quinua e do milho, trigo, cevada e aveia. Ao aproximar-se da cidade, ele avista com surpresa até mesmo pequenos jardins cercados com plantações de couve. Na base das muralhas nas quais a relva cresce, estende-se a Cidade do Puma. Gabriel recorda-se de seu deslumbramento quando a descobriu pela primeira vez, e revê o semblante subitamente tão distante de Anamaya ao lado de Manco, o triunfo de Pizarro. De um alforje, Bartolomé tira algumas roupas e estende para ele. - Somos mais ou menos da mesma estatura - diz timidamente -, e pensei que... - Não preciso disso. Gabriel falou em tom delicado, mas com firmeza. Sente o olhar de Bartolomé fitando-o: não está mais disfarçado de índio como na ocasião de seu retorno a Cuzco para tentar matar Gonzalo. Adotou um traje simples e que ressalta sua aliança com aquela nova terra: um unku de cor creme no qual as mulheres do Titicaca, a seu pedido, teceram um puma negro. - Levei muito tempo para me tornar o que sou, frei Bartolomé. Não vou me disfarçar do que não sou mais. Bartolomé se cala, respeitoso e intrigado. Depois faz uma última tentativa: - Você sabe o que vão dizer, não é? Gabriel não se dá ao trabalho de responder. - Vamos andando - diz, encorajando o cavalo com uma leve pressão dos calcanhares. Está alegre como um homem que vai fazer o que deve. Ao entrar na cidade, Gabriel repara imediatamente nas mudanças ocorridas desde sua última passagem. A mais espetacular é a sujeira. As canalizações centrais das ruas. onde corria uma água clara, estão obstruídas por detritos de toda natureza, dentre os quais se reconhecem cascas de batatas e espigas de milho comidas pela metade. O odor que sobe da água estagnada é nauseabundo e também é nauseabundo o cheiro de bosta de cavalo misturado com excrementos de porcos... - A contribuição da civilização - ironiza Bartolomé ao ver a expressão de Gabriel. Ele levanta os olhos para o céu. Depois do incêndio de Cuzco, os tetos de colmo foram consumidos pelo fogo e, em sua grande maioria, foram reconstruídos com telhas: causa uma impressão curiosa ver aqueles nobres palácios incas cobertos de telhas espanholas. Ao mesmo tempo, Gabriel vê que certas entradas de forma trapezoidal foram fechadas na base para permitir o encaixe de portas de madeira, munidas de um grande ferrolho. - Eles não conheciam o roubo - diz Bartolomé -, e barravam as entradas apenas com um simples bastão para assinalar que estavam ausentes. Mais um de nossos presentes... Um coelho perseguido por dois porcos passa correndo entre as patas do cavalo de Gabriel, que se desvia. Ele percebe os olhares cravados nele: aquele estrangeiro vestido à moda dos indígenas provoca mais comentários que os numerosos índios que passaram a usar, além de suas roupas tradicionais, acessórios espanhóis: um usa luvas, outro um cinturão de couro, um terceiro calções... Somente os incas continuam vestindo orgulhosamente os trajes de sempre. Quando eles entram na praça de Aucaypata, as imagens começam a desfilar novamente diante dos olhos de Gabriel: a entrada das múmias, a coroação de Manco... Mas sua viagem ao passado é interrompida pelo repicar de um sino, O som familiar e tão antigo o faz parar onde está. Ele olha para Bartolomé com estupefação. O padre lhe indica o local onde ficava o Sunturhuasi, aquele prédio misterioso que dominava a praça. Ali, onde se erguia a torre coberta por um telhado cônico, há apenas um canteiro de obras. Nenhuma pedra foi colocada, mas o vigamento de um edifício já se eleva. Numa viga de ferro, os trabalhadores penduraram um único sino cujo repicar enche a praça, fazendo com que todos os índios se virem. - El Triunfo!- declara Bartolomé. - Eles já o estão construindo em memória da vitória e do cerco. Dizem que virá um pintor da Espanha para nele pintar um quadro dos milagres que aconteceram aqui... - Que milagres? - O da Virgem Maria apagando o incêndio, acompanhada por um cavaleiro montado num cavalo branco e que parece invulnerável a todos os golpes. - Tenho uma vaga lembrança desse milagre - diz Gabriel. - Poucos são os homens que não precisam acreditar em milagres para ter a força de viver. - Estou começando a me dar conta disso. Num prolongamento da praça, Gabriel conduz Bartolomé até a rua do Hatun Cancha. Eles param diante de um palácio de pequenas dimensões, cuja porta está coberta por uma pele de guanaco. Gabriel desmonta do cavalo e entrega as rédeas a um velho que se tornou especialista nesse oficio. - O que você está fazendo? - pergunta Bartolomé. - Uma pessoa me espera - diz Gabriel tranqüilamente. - Quando este encontro foi marcado? - Numa outra vida. Afinal, não é você quem vive me incitando a acreditar em milagres?... Quer vir comigo? Com um enigmático movimento da mão em que os dedos são colados, Bartolomé faz sinal que não e se afasta depois de um último sorriso. Atravessar aquele palácio é toda uma encenação, como os preparativos para a representação de uma peça. Antecâmara, corredores, criados índios de libré, jovens criadas - Gabriel tem a impressão cômica de ter sido brutalmente transportado para uma peça de teatro na qual desempenha um papel cujo texto esqueceram de lhe dar. Quando começa a se impacientar num salão cheio de tapeçarias, vira-se ao ouvir a explosão de uma enorme gargalhada. - Sebastian! - Não está reconhecendo os lugares? É bem verdade que estavam notavelmente em pior estado... Depois de um esforço, Gabriel evoca a lembrança de paredes enegrecidas pelo fogo, telhados queimados desse palácio para onde, ao sair da prisão, Sebastian o levou para reequipá-lo. Os dois amigos se abraçam sem constrangimento. Por maior que seja a compreensão que tem de frei Bartolomé, Gabriel jamais terá com ele esta intimidade de aventuras compartilhadas. Quando eles se afastam, depois de mais risadas e palmadas nas costas, Gabriel finalmente pode observar seu amigo. Seus trajes são absolutamente extraordinários, dos calções multicoloridos até a larga gola, de fina renda branca plissada, imitando a de Pizarro. Ele finge não perceber que Sebastian o observa com o mesmo espanto. - Ora, mas que roupas engraçadas! - dizem os dois quase que ao mesmo tempo, antes de caírem na gargalhada novamente. - Tenho de me esforçar muito para me distinguir dos escravos negros que chegam do Panamá - diz Sebastian. - E você, virou inca? - Eu serei inca no dia em que você for governador. - Por que não? Faríamos uma bela aliança e, depois de ter festejado nossa vitória com um assado de Gonzalo, prepararíamos a paz... não sem antes termos enchido bem os bolsos, como precaução para dias mais difíceis! - Você me parece já ter-se preparado bem para isso. Sebastian faz uma careta amuada. - Você não imagina o que é - diz ele - uma luta cotidiana... é muito cansativo. Ele estala os dedos e imediatamente duas jovens criadas aparecem. Sem que precise dizer uma palavra, elas trazem sobre uma bandeja de prata uma garrafa de vidro branco cheia de um líquido que brilha com um vermelho profundo sob a luz das tochas e dois copos de prata. O paladar de Gabriel se desabituou ao sabor do vinho e seu rosto fica rubro depois do primeiro grande gole. - Não é nada mal - comenta, estalando a língua. - Mas não chega aos pés daquele do... Como se chamava mesmo a estalagem? - Ao Pichel Livre!- exclama Sebastian. - Ah, aquele adorável escroque e seu inesquecível vinhozinho... Você tem razão, nada nos trará de volta aquele gosto. Há uma súbita nostalgia na voz de Sebastian, e Gabriel deixa que se passe um momento de silêncio entre eles. - Conte-me como anda sua vida - diz Sebastian finalmente. - Correm boatos de que você se tornou um senhor muito importante por lá, nas margens do Titicaca... - Eu lhe contarei depois, Sebastian. Preciso que você complemente as últimas notícias que obtive por intermédio de Bartolomé... e quero que comece por me dizer como anda a sua fortuna. - Eu sou rico, como você pode ver, mas sinto-me quase tão ameaçado como se fosse o infeliz escravo que você conheceu, protegido apenas pela amizade do bom Candia... - E por que isso? - Depois da morte de Almagro, que era meu protetor apesar de tudo (ele tinha defeitos, aquele homem, mas não conseguia esquecer que eu lhe salvei a vida!), sinto o círculo do desprezo e do ciúme se fechar ao meu redor... E depois, eu já lhe disse, todos os dias chegam escurinhos que andam por aí seminus, e um bom espanhol que me vê com meus trajes esplêndidos, meu bom vinho da Espanha, minhas três concubinas e outras coisas mais diz a si mesmo que sou um insulto à natureza das coisas e à ordem divina. Brevemente, ele arranjará alguém para me matar numa ruela escura e aproveitará meu corpo para dar de comer a seus inúmeros porcos, sempre famintos... - Você não poderia ser mais.., discreto? Guardar tudo sob aquela laje, no fundo daquela caverna onde antigamente os tesouros se acumulavam? Sebastian explode numa gostosa gargalhada. - E é logo você quem me diz isso! - Mas não é a mesma coisa. O Negro se contém e sorri. - Você tem razão. Não é a mesma coisa. Não sei quais são seus motivos para perguntar, mas não me esqueço nunca do que eu lhe disse uma vez: existe um mar entre nós e nenhum piloto, nem mesmo o mais hábil, saberia atravessá-lo. As coisas são assim. Ele bebe longamente e com prazer. Estende seu copo para uma das mocinhas e sorri com gentileza. Ela torna a encher o copo. - Eu não quero mudar, mesmo se tiver de morrer. Precisei fazer esforços demais, passar por demasiados enganos, sofrer humilhações demais para ter o que tenho. Não trocaria isto por uma sobrevivência incerta e miserável. Se tiver de morrer amanhã, que seja com minha espada de aço de Toledo na mão, e que o sangue escorra sobre minha gola de renda. - Compreendo. Sebastian afasta com um gesto largo o que suas palavras podem ter de demasiado pessimistas. - Você não veio aqui para ouvir falar das incertezas de meu destino. Veio por causa dela, não é? Gabriel imediatamente fica alarmado. - Ela, a princesa de olhos azuis - explica Sebastian, como se fosse necessário. - Você sabe, é claro... O coração de Gabriel bate como o sino do Triunfo. - Não sei de nada, não, frei Bartolomé não me contou nada. Que está havendo? - A expedição, pelo sangue de Cristo! Você não ouviu falar da expedição? Gabriel levanta-se da cadeira, derrubando o copo que derrama o resto de vinho sobre um grosso tapete de lã. - Ande, conte logo! - diz quase gritando. - Diga-me o que está acontecendo! - Já faz bem uns dois meses que eles partiram, cumprindo ordens do Governador - diz Sebastian sombriamente. - Trezentos homens comandados por Gonzalo, mais um bom número de índios comandados por Paullu e outros comandantes incas hostis a Manco. Eles se embrenharam na floresta numa perseguição que tinha um objetivo muito preciso: capturar Anamaya e aquela grande estátua de ouro que sabem que ela leva consigo aonde quer que vá, por ser de alguma forma casada com ela.
    O silêncio se faz de novo. - Por que ela? - Eles acreditam que Manco esteja enfraquecido, separado de seus principais generais, e que a captura de Anamaya seria para ele um golpe fatal. Depois disso, terão apenas que fazer o cerco final. E depois eles estão furiosamente obcecados por essa estátua de ouro. Você deve ter ouvido falar da desgraça que houve com Candia... Gabriel se impacienta. - Você me contará numa outra ocasião, tenho certeza de que deve ser divertido. Sabe se conseguiram atingir seus objetivos? - Certamente não conseguiram, caso contrário as notícias do triunfo teriam chegado a nós. E Paullu não teria voltado agora, neste exato momento, para solicitar reforços a dom Francisco. Gabriel abraça rapidamente Sebastian. - Preciso ir vê-los. Onde estão? - Sem dúvida na casa do Governador, em La Cassana. A menos que estejam em casa de Paullu, no palácio de Colcampata, que ele ocupa desde sua coroação. Gabriel dirige-se para a porta de saída, precedido pelas jovens criadas que ele afasta sem brutalidade. - Sebastian, talvez eu possa lhe pedir uma coisa... -Eo que é? - Não quero falar disso agora. Mas se eu lhe pedir um favor você me ajudará? Ele escuta apenas o suspiro de seu amigo e rapidamente se emenda. - Eu não disse nada, perdoe-me. - Eu não posso fazer de conta que não ouvi. Não sei qual é a loucura que você tem na cabeça, mas, infelizmente para mim, sim, é claro que ajudarei. Gabriel retira-se rapidamente depois de um breve abraço de despedida, escapando dos criados de libré e das criadas que parecem ser concubinas. Bartolomé o espera na saída do palácio. Sem dizer uma palavra, de um salto Gabriel monta no cavalo. - Para onde vamos tão depressa? - pergunta Bartolomé. - Para Colcampata. Por que você não me contou nada? - Eu não... - Não venha me dizer isso, frei Bartolomé, não você! Não venha me dizer que não sabia da expedição de Gonzalo! - Você não poderá fazer nada sozinho, Gabriel, sabe muito bem disso. - Deixe que eu julgue o que posso e não posso fazer. Enquanto os cascos dos cavalos ressoam sobre as pedras do calçamento, Gabriel obriga sua cólera a se calar e tenta dominar a angústia terrível e profunda que se apoderou dele.





    Capítulo 24
    Cuzco, Colcampata, junho de 1539.

    Há uma multidão na esplanada de Colcampata. Ao chegar, ainda que sua atenção esteja fixada na silhueta de Francisco Pizarro, que ele avista imediatamente, Gabriel lança um olhar rápido para o cofre dentro do qual repousa a Cidade do Puma, no coração das montanhas. Ele compreende melhor que nunca sua força eterna - longe dos odores dos porcos e das ignomínias trazidas pelos conquistadores. Percebe seu hálito poderoso, sonolento, mas pronto para saltar e para rugir de novo. Nos nichos abertos no meio do perfeito trabalho de alvenaria do palácio estão instaladas as múmias. Gabriel reconhece a do Inca Huayna Capac, não sem alguma emoção. - Foi Paullu quem pediu que fossem trazidas - sussurra Bartolomé em seu ouvido. - Não convinha que o Inca "legítimo" estivesse separado de seus Ancestrais. Gabriel inclina imperceptivelmente a cabeça ao mesmo tempo em que volta o olhar para seu antigo protetor, dom Francisco Pizarro. O governador está mais magro e ossudo que nunca; com o passar do tempo, parece se enrugar sem perder nada da força que se desprende dele. Tudo é preto em seus trajes, exceto o chapéu e as meias brancas. O único sinal de sua imensa riqueza é a fineza da renda da gola plissada que esconde seu pescoço. Seu olhar negro está fixado com intensidade e atenção no personagem que tem diante de si, sentado sobre a tiana como senta o Inca e em quem Gabriel reconhece Paullu. O novo Inca de Cuzco tem a mesma idade e a mesma estatura de seu meio-irmão Manco. Mas onde o rebelde tem as feições talhadas pelo cinzel do escultor de pedra, é todo arredondado. Sem ser gordo, seu rosto evoca uma espécie de flacidez, uma entrega ao prazer de viver; só os olhos manifestam uma vontade firme, sem falhas, e uma inteligência desperta. Os dois homens falam sem a ajuda de intérpretes, pois Paullu domina perfeitamente o espanhol. No momento em que Gabriel e Bartolomé se juntam ao círculo de senhores índios e de fidalgos reunidos, o rosto de Pizarro vira-se na direção deles. Ao reencontrar os olhos negros, muito fundos nas órbitas, do velho Capitão, Gabriel sente-se sacudido por uma onda de antigas emoções. Ele se reteem se esforça para dar um sorriso acompanhado de uma ligeira inclinação de cabeça. - O que preciso compreender antes de ajudá-lo, senhor Paullu - prossegue Pizarro , é quais são as chances de sucesso da expedição. - São muito grandes, Governador, quase garantidas... A voz de Paullu é carregada de entonações roucas típicas do quíchua. Às suas costas, Gabriel ouve um fidalgo cuspir e murmurar: "Este cachorro nos levará todos à morte nessa selva maldita..." - Eu voltei apressadamente, por insistência de seu irmão Gonzalo, para conseguir reforços, pois as tropas de Manco são fortes e bem organizadas. Ao ouvir o nome de Manco, os olhos de Pizarro soltaram faíscas. - Tem certeza de que podemos destruir esse cão? - Não posso chamar de cão a meu proprio irmão - diz Paullu polidamente -, mesmo que eu acredite que ele cometeu um erro lamentável ao prosseguir com sua rebelião além dos limites do que seria razoável. Para responder à sua pergunta: sim, nós podemos vencer seu exército. Mas há uma condição... Paullu, seguro de ter causado o efeito desejado, faz um momento de pausa. - Qual? - pergunta dom Francisco com impaciência. - O Governador sabe a que ponto seus homens precisam dos meus para guiá-los através da floresta. Ele sabe - e o olhar de Paullu varre com uma expressão de desafio toda a assembléia dos espanhóis - que em numerosas ocasiões, de que seus irmãos Hernando e Gonzalo poderiam ser testemunhas se estivessem presentes, minha lealdade com relação ao senhor foi decisiva nos combates... - Eu não duvido disso, senhor Paullu. Sabemos o quanto devemos ao senhor. E o senhor sabe o que nos deve... O olhar de Pizarro fixou-se sobre a franja real que orna a fronte de Paullu. - Uma bela amizade é feita de um belo equilíbrio - comenta o temível Paullu, como que emocionado. - O que eu queria lhe dizer, Governador, é que é imprescindível que eu retorne com minhas tropas e os reforços para retomar o caminho da floresta de modo a ir ao encontro de seu irmão Gonzalo e assegurar o sucesso de todos os objetivos da expedição. - Quando quer partir? - Amanhã ou na noite seguinte... O tempo é curto! Mas, lembre-se, Governador: tão logo a vitória esteja assegurada, o senhor poderá tornar a dedicar atenção ao projeto de desenvolver Lima, sua bela Cidade dos Reis... - E o senhor, ao de reinar sobre sua caríssima cidade de Cuzco. - Não posso ser indiferente à cidade de meus Ancestrais - responde Paullu, indicando com um gesto discreto a fila de múmias que os observa de seus nichos. - Então vá, senhor Paullu. Pode anunciar que, por ordem do Governador, está encarregado de recrutar as tropas que julgar necessárias. - Eu preciso de yungas, Governador, mais que de homens das montanhas. Esses vêm da costa e o clima úmido... Pizarro faz mais um gesto de impaciência: - Faça como achar melhor, meu caro Sapa Inca, o senhor conhece os seus índios. Faça isso e vença. Pizarro é o primeiro a se levantar de sua cadeira e a esboçar uma ligeira reverência diante de um Paullu impávido. Nesse movimento, reflete Gabriel, está presente toda a ambigüidade que rege a relação entre os dois homens. Depois os dignitários incas se afastam. Imediatamente, os rumores se elevam entre as fileiras espanholas. "Confiar neste traidor.., amigo de Almagro..." Pizarro lhes impõe silêncio com um sinal da mão. Sua autoridade nunca é contestada, sobretudo na sua frente. - Paz - diz ele. - Nós precisamos dele, mas ele precisa de nós. Há duplicidade inteligente demais nele para que nos traia agora. Ele quer se livrar de seu irmão tanto quanto nós... Ao dizer as últimas palavras, sua voz adquire um tom de divertida ironia. - Agora, saiam todos. Quero ficar sozinho com... Ele se virou na direção de Gabriel. Novos murmúrios se elevam entre os ouvintes. Nem todos conhecem o espanhol que veste a túnica de índio, mas todos conhecem a lenda desse orgulhoso combatente protegido de Santiago e que, sozinho, tomou a fortaleza. O velho conquistador e aquele que foi seu filho finalmente ficam a sós na esplanada. - E então - começa Pizarro -, o que é esta sua roupa estranha? Gabriel não saberia dizer quantas horas eles passaram juntos. O meio-dia chega e se vai no azul quente do céu, o ouro desliza sobre as montanhas, a sombra do anoitecer se alonga - e eles continuam conversando. O Governador visivelmente tem grande prazer em reencontrar seu companheiro. Ele o interroga sobre a vida às margens do lago Titicaca e o espicaça em tom brincalhão sobre as mulheres indígenas; Gabriel o faz falar de sua querida cidade de Lima, cuja fundação tanto o ocupou. Sobretudo, por insistência de Pizarro, eles recordam o passado, Sevilha, Toledo, a audiência real e os sofrimentos da viagem. Na intimidade que assim se estabelece, o Governador se descontrai e agita seu chapéu branco, dependendo da história que relata, como se fosse um lenço, uma bandeira ou uma vela. - Eu com freqüência me faço uma pergunta, dom Francisco. - Diga qual é, meu rapaz. - Dizem que, por ocasião de uma de suas primeiras expedições, seus companheiros estavam a ponto de abandoná-lo, quando o senhor riscou uma linha sobre a areia para mostrar a todos eles onde ficava o limite entre a miséria e a fortuna, o passado e a glória... - Na ilha de Gallo - murmura Pizarro, com ar sonhador. - Dizem também que foram doze a atravessar essa linha para se colocar a seu lado. - Muito bem, e o que você quer saber? - Eu queria saber se é verdade. Se as coisas de fato aconteceram assim. Pizarro permanece em silêncio por um instante. Seu semblante severo se abriu num sorriso. - Mas você não é amigo de alguns dentre eles? - pergunta. - Já fez esta pergunta a Candia? - Ele só faz rir a mais não poder! E eu queria ouvir do senhor. Mas Pizarro não se deixa convencer - ou então a conversa o está divertindo demais para que ceda agora. - Pois a mim disseram - retruca ele - que um cavaleiro com as suas feições, mas não vestindo esses trajes estranhos, montado num cavalo branco, galopava no meio das flechas dos índios, atravessava os incêndios e, protegido pela Virgem Maria que aparecia a seu lado, partiu sozinho para um ataque e tomou três torres da fortaleza. É verdade? Gabriel por sua vez sorri. - O senhor também tem muitos amigos dom Francisco. Não perguntou a eles? - Por Cristo, todos eles juram que isso aconteceu, é verdade que com a notável exceção de meu irmão Gonzalo. Gabriel começa a rir e o velho conquistador o acompanha. - Essas lendas - murmura Pizarro -, quem dentre nós sabe o que é verdade... Eu me lembro de tantos episódios de minha vida como se os visse através de uma bruma. Por vezes, desperto de manhã e me parece que passei a noite numa aldeia de minha boa Estremadura construindo um campanário e que desse modo passou-se a minha vida inteira. Depois me lembro de onde estou, do que passei, e me torno velho. - E no entanto está aqui. Com um gesto, Gabriel abarca toda a paisagem aos pés deles, com as luzes das tochas que começam a se acender na noite que cai. Durante um momento os dois homens mantêm-se em silêncio, cada um perdido em suas reflexões, cada um prolongando a evocação do passado que os reaproximou. Depois Gabriel ouve a voz do Governador que quase cochicha. - Preciso de você, meu filho. Seu corpo se crispa como se ele tivesse acabado de levar um tabefe. A despeito da afeição que o liga a dom Francisco, a despeito do respeito que ainda nutre por ele, percebe uma ameaça terrível, insuportável, nessas palavras. - Mais uma vez estou sozinho, como você já deve saber. Hernando assassinou o Zarolho e, agora, lá se foi de volta para a Espanha para se justificar diante do Rei... Só Deus sabe o que será feito dele. Não ignoro que você o detesta, mas ele é o único que tem alguma cabeça acima dos colhões, se me perdoa a expressão... Os outros, já sabe muito bem qual é minha opinião a respeito deles. - Então, por que confiou Cuzco a Gonzalo? A voz de Gabriel está calma, mas é impossível não sentir a censura contida - Apesar de todos os seus defeitos, é um de meus irmãos, o único em quem posso confiar... E todos esses capitães que nos chegam da Espanha com dez cavalos e cinqüenta soldados de infantaria armados, eles acreditam que tudo lhes é permitido e esperam que todos os tesouros do Peru lhes sejam oferecidos... - É preciso construir um país, e o senhor só pensa em fazer a guerra, sempre a guerra... - Como agir de outra maneira? Creia-me, Gabriel, aspiro à paz tanto quanto você. Deixe-me lhe contar... Pizarro põe seu chapéu sobre uma pequena mureta que circunda a cidade e segura Gabriel pelo braço, inclinando-se para junto de sua orelha, numa atitude de confiança. - Você sabe que vivo em concubinato com uma princesa indígena que nós batizamos de dona Angelina... Pois muito bem, tenho a maior dificuldade do mundo em esconder quanto a amo! E a filha que tive com dona Inés Quispe Sisa, a maravilhosa pequenina Francisca, você não imagina como tenho vontade de correr a cada instante do dia para tomá-la em meus braços. Faz semanas que não a vejo e tenho saudades dela, se você soubesse como tenho saudades dela... Os olhos de dom Francisco estão brilhantes de lágrimas. - Não quero outra coisa: viver com elas, comer minha refeição simples acompanhada de um copo de vinho misturado com água, manter meu velho corpo em boa forma para os jogos simples do campo, como os que eu jogava quando era criança, o jogo de malha, o jogo da péla... Você acha que eu tenho algum prazer em cavalgar desde a aurora por essas estradas impossíveis, em comandar esses exércitos, em seduzir esses caciques, em torturar minha consciência para saber se devo acreditar ou não em Paullu... - Então faça a paz! A palavra ecoa no silêncio. Pizarro pega de volta seu chapéu branco e o faz rolar como se fosse um torrão de terra. - A paz! Você agora emprega muito as grandes palavras, meu filho. - Mas o senhor não está vendo, dom Francisco? - O que eu vejo é uma espécie de diabo, meu filho, um espanhol disfarçado de índio e que vem me dizer frases que estão muito acima de sua condição... Agora, uma cólera fria faz vibrar as feições do velho que, um instante antes, desempenhava com sinceridade o papel de um pai encantado. Mas pergunta. Gabriel se sente dominado por uma força que jamais sentiu diante dele, e uma doce euforia invade todo seu corpo. Sua voz está firme quando responde. - Já ouviu as palavras daqueles que não tremem diante do senhor? O senhor sabe que seus soldados não respeitam nenhuma das leis e que persistem em viver pilhando assassinando e reduzindo os índios à escravidão? Acredita que é assim que obterá a paz com os índios? - Primeiro eu preciso ganhar a guerra contra esse infeliz Manco. Restabeleceremos a paz e a concórdia depois... - Mas não, dom Francisco, o senhor não está vendo a realidade das coisas! O espírito da guerra se instalou por toda parte, mesmo entre nossas fileiras. O senhor permitiu que Almagro fosse morto... - Eu não sabia... - Ora vamos, o senhor não sabia... do mesmo modo que não sabia que Atahualpa foi executado. O senhor sabia e virou a cabeça e fechou os olhos o tempo necessário para que a perversidade fosse cometida. E agora a vingança está por toda parte no ar: cada um odeia seu irmão e sonha apenas em tomar- lhe o que ele tem, todos vêem a injustiça e acreditam que a força da injustiça, se for bem sustentada, é seu direito, é seu pleno direito, é o único direito que existe! Pois muito bem, apesar de o senhor ser diferente deles, o senhor faz exatamente o que eles fazem! E agora o senhor não vê entre os olhos dóceis de seus próprios companheiros aqueles que o trairão e que talvez já estejam tramando para tirar-lhe a vida... Pizarro se agitou várias vezes para responder, mas a eloqüência apaixonada de Gabriel o fez emudecer. Ao ouvir as últimas palavras, ele zomba: - Ora vamos, filho. Eles não ousariam! Gabriel não se cala diante dessa exclamação. - O senhor tinha, o senhor ainda tem a oportunidade de passar para a história como o homem que conquistou uma terra e que dela fez um país! O senhor a está destruindo. - Gabriel, eu não posso! A frase soa como um grito de desespero. - Conheço sua generosidade e sua coragem e estou disposto a ouvir tudo de você. Não nego a verdade de muito do que você me diz e por vezes, durante a noite, quando eu rezo à Santíssima Virgem com o Menino, derramo lágrimas pelos crimes que são cometidos. Não creia que eu me julgue com menos severidade que você. Ninguém exceto meu Juiz Supremo sabe o que eu sei! Mas o que você diz é impossível compreende, impossível... - É verdade que a expedição de Gonzalo e de Paullu tem como missão principal capturar Anamaya e a estátua de ouro? - É, e Manco também. Mas Gonzalo convenceu-me que ele seria mais facilmente capturado se a sacerdotisa estivesse em nossas mãos e também essa estátua de ouro pela qual ele detém não sei que poderes mágicos... - E depois disso, o senhor diz que haverá paz. A ironia e o sofrimento sibilam nessas palavras que Gabriel diz entre dentes. - O senhor pensa que, pura e simplesmente destruindo o que existe de mais precioso para eles, se aproxima da paz? É o contrário, dom Francisco: o senhor acrescenta guerra à guerra! Quando tiver acabado com Manco, se conseguir fazer isso, ainda terá de enfrentar Villa Oma, o Sábio que se transformou em guerreiro, e depois Tila Topa. E quando esses dois estiverem mortos, outros surgirão... e quando tiver acabado com eles, ainda terá de enfrentar os homens que lutam com o senhor, em suas próprias fileiras, terá de se proteger de todos os lados sem poder confiar em ninguém. O senhor não vê que agindo desta maneira deixa a todos, espanhóis e índios, o espírito da guerra como uma herança da qual eles nunca poderão se desfazer! - Você não compreende, Gabriel, ainda é jovem demais. Eu sei de tudo isso. Mas também sei de coisas que você desconhece. Por lá - diz ele, apontando para o oeste - eles andam agitados e chegam-me notícias de que estão planejando enviar um vice-rei. Se eu não tiver capturado Manco antes e pacificado a rebelião, será o fim. - Será o fim de quê? De seu poder. das cobranças e dos assassinatos? - Será o fim de meu sonho... As últimas palavras escapam como um sussurro dos lábios pálidos e finos de dom Francisco, e Gabriel interrompe seu discurso exaltado. Não pode dizer nada a respeito da consistência do sonho desse velho, vindo de tão longe: é o segredo de cada ser, desprezível e magnífico. Os dois homens respiram suavemente. Toda a cólera que por vezes tingiu suas palavras se retira, escapa para a noite, enterra-se nas pedras, talvez absorvida pela sabedoria das múmias que não cessaram de observá-los. - Permita que eu vá com eles - pede Gabriel -, com ordens para negociar a paz imediata com Manco. Eu o conheço bem, o senhor sabe, sou o único espanhol com quem, talvez, ele aceite falar. - Não. Gabriel se levanta, dá alguns passos pela esplanada. Todas as suas emoções se transformaram numa enorme exaustão - o cansaço de todos aqueles anos acumulado, a tristeza de não poder convencer o homem que ele tanto admirou, tanto detestou. Seu olhar mergulha na escuridão em direção à múmia de nariz quebrado de Huayna Capac. Uma onda de sensações antiqüíssimas o trespassa e ele estremece como se, na noite estrelada, tivesse sido subitamente transportado para os terraços poderosos de Ollantaytambo. Ele se vira de volta. Francisco Pizarro não se moveu. - Adeus, dom Francisco. O Governador ainda assim não faz nenhum movimento, e Gabriel se prepara para descer em direção à cidade. De repente, a voz do velho ressoa às suas costas. - O que você vai fazer? Gabriel faz meia-volta para ficar de frente para ele, mas na escuridão não consegue ver nada além de sua silhueta que já se afasta e se apaga. - Dom Francisco, eu refleti a respeito da história da ilha do Gallo e vou lhe dizer o que penso: o senhor realmente riscou aquela linha na areia com a ponta de sua espada. E todos tiveram de tomar uma decisão: de que lado queriam ficar. Ele faz uma pausa e respira fundo, várias vezes enchendo os pulmões com o ar fresco da noite. - Creio que na vida de todo homem chega um momento em que, como o senhor fez, ele pode puxar a espada e riscar uma linha na areia. Creio que todo homem escolhe. - O que você vai fazer? - O que devo. Gabriel desaparece na noite.

    Capítulo 25
    Cuzco, junho de 1539.

    - Você está louco! - urra Sebastian. Gabriel se cala e levanta as mãos para acalmar seu amigo. Nunca o viu tomado de tamanha raiva. - Acalme-se. - Você está dizendo para eu me acalmar. - Deixe-me explicar mais uma vez... - E o que você acha que sou, um negro cretino? Gabriel baixa os braços em sinal de impotência. - Acho que você é meu amigo. Os olhos de Sebastian ainda lançam faíscas. Na noite que banha todos os aposentos de seu palácio, restam apenas uma tocha acesa e algumas velas sobre a pequena mesa de marchetaria delicada à qual os dois homens estão sentados. Os criados e as mulheres foram se deitar, e os dois homens falam quase que em voz baixa. - E por acaso um amigo - prossegue Sebastian, mais calmamente - pode desejar a morte de seu amigo? E se suicidar com ele? - Peço simplesmente que você... - Simplesmente que eu me arruíne para ajudar você a financiar uma expedição em plena floresta para ir salvar uma índia, quando posso encontrar cinqüenta outras, mais bonitas, apenas com um estalar de dedos, e para salvar uma paz que, de qualquer maneira, ninguém quer. Ah, e eu esquecia: e proteger a fuga de um ídolo de ouro que, mais cedo ou mais tarde, acabará fundido em Cassana ou no palácio de um desses nobres fidalgos. Eu repito, meu amigo: você está louco. E se eu ainda estou ouvindo o que você diz, estou tão louco quanto você. - E eu também - diz uma terceira voz vinda das sombras. - Tomado pela mesma loucura ou por uma semelhante. Mas tenho vontade de acreditar nela. - O senhor, frei Bartolomé? O monge saiu das sombras onde se mantinha, com os olhos aparentemente perdidos num quadro de estilo simples que retrata a fortaleza de Sacsayhuaman. - Será - pergunta Sebastian - que depois do retorno do bispo Valverde o senhor não faz mais parte das mais altas autoridades desta bela cidade de Cuzco? - O que você quer dizer? - Seu cargo não faz do senhor... um aliado deles? - Meu amigo, este cargo e seu peso fizeram de mim uma testemunha e há muito tempo um cúmplice do que apenas já durou tempo demais. Eu não vim para cá para permitir que se fizessem massacres em nome de Deus. E este homem, seu amigo, é minha única chance para que isso cesse. Há dois anos, quando Sua Santidade o Papa Paulo III publicou sua bula, pensei que havíamos obtido uma vitória decisiva. Mas isto não se verificou. Eu queria que Gabriel partisse para a Espanha para prestar um depoimento e exigir a ajuda do Rei a serviço da lei de Deus. Mas compreendo o que você chama de sua loucura e, se eu pudesse, o acompanharia... Sebastian olha de um homem para o outro. - E pode-se saber, é uma simples curiosidade, como você vai fazer para arranjar homens? - Tenho alguns amigos - diz Gabriel sorrindo. - Quem? Nosso velho companheiro Candia já está semi-arruinado por causa de suas tentativas de penetrar nessa maldita floresta! Se você quer fazer falar o meu dinheiro, será que eu poderia pelo menos saber o nome desses amigos? - Não seria melhor, para permitir que você possa gozar o que vai restar de sua prosperidade, que você não soubesse? - Que maravilha, Vossa Graça! Ele me autoriza a gozar o resto de minha prosperidade. É uma generosidade que me comove... - Sebastian... - Que Sebastian, que nada! Você me depena, me mata e quer que eu agradeça? Gabriel e Bartolomé se calam. Na noite não há mais tempo para convencer, para bajular, para argumentar, para fazer piadas e brincadeiras. Eles podem apenas escrutar o semblante do antigo escravo, ver passar ali expressões de cólera e de dúvida, de tentação e de recusa... - E se eu disser não? Gabriel e Bartolomé andam rapidamente pela escuridão que, na noite sem lua, ganhou as ruelas de Cuzco. Eles atravessam a praça Aucaypata e descem em direção ao Templo do Sol. Ao se aproximar do Templo, Gabriel tem uma surpresa de tirar o fôlego. As muralhas foram derrubadas, as paredes estão semi-arruinadas. Restam apenas as pedras das bases maciças sobre as fundações que os conquistadores não tiveram coragem de destruir - ou que talvez tenham a intenção de reutilizar para construir sobre elas. "O jardim de ouro", sussurra Gabriel para consigo mesmo, "o que fizeram com ele? Uma gamela para seus porcos?" Envolto pela noite, ele permite que voltem a ecoar em seu íntimo as palavras da profecia do Inca, aquelas que Anamaya lhe revelou na última noite que passaram juntos e cujo sentido continua tão misterioso. É por causa de sua fé nessas palavras tanto quanto pelo amor que bate em seu coração que está disposto a enfrentar qualquer coisa. Quando eles chegam às canchas de Pumachupan, silenciosamente, Gabriel põe a mão sobre o ombro de Bartolomé. O monge vira-se para ele e sorri; a cicatriz banha de sombras seu rosto. Sem hesitar, ele se dirige para uma abertura cuidadosamente feita numa parede de construção modesta. - É aqui - diz o monge. O pátio está deserto e mergulhado na escuridão. Com a chegada deles, alguns porcos-da-índia acordam e correm guinchando entre suas pernas. Depois, uma tocha se aproxima na direção deles, na altura do peito. ofuscado pela luz, Gabriel põe a mão diante dos olhos. Uma voz rouca e familiar dirige-se a ele em bom castelhano. - Bem-vindo, senhor. Gabriel afinal consegue distinguir no halo a silhueta característica do Anão. Ele o segue sem receio, com a impressão de reencontrar um velho amigo. Eles sempre se encontraram durante a noite, nunca trocaram mais que algumas palavras, mas o Anão sempre esteve presente para reaproximá-lo de Anamaya. Mais uma vez, vai ajudá-lo. Atrás da modesta tapeçaria do aposento para onde o Anão os conduziu abre-se um pequeno palácio cujo luxo surpreende e encanta Gabriel. É como se o Anão tivesse se tornado o Inca de um minúsculo reino criado por ele, para ser governado por ele - e destinado a jamais ser conhecido exceto por ele. Tudo no aposento é de raro valor: ouro, prata e jóias ornam as taças, as jarras, as travessas. Os tapetes no chão são de lã de vicunha e a mesa rodeada por um banco e duas cadeiras é de madeira preciosa, incrustada de esmeraldas. Nos nichos estão dispostas as estatuetas familiares de lhamas e de condores, mas também as estatuetas mais assustadoras que Gabriel jamais viu entre os incas. Mais surpreendente, há uma espécie de ícone da Virgem. E tudo é pequeno, como se tivesse sido feito de acordo com o tamanho do Anão e unicamente para seu prazer, por artistas trabalhando em sua corte. A convite do homenzinho, eles se acomodam como podem. Já vai longe o tempo em que vestia sua túnica vermelha demasiado comprida cujas franjas recolhiam a poeira. Ele veste calções de linho amarelo e um gibão da mesma cor; na cabeça tem um barrete de quatro pontas empinadas que faz Gabriel recordar os dos kollas que conheceu na margem do lago Titicaca. - Esta residência é mais modesta que minha casa de Yucay - diz o Anão -, mas estou contente de recebê-los aqui. - Parece que seu destino lhe trouxe a fortuna - replica Gabriel sorrindo. - Escravo fui encontrado, escravo permanecerei. Mas, enquanto isso, gozo discretamente o que o destino me deu e vejo crescerem meus filhos que, com cinco e sete anos, já são mais altos que eu. Isto prova que o destino sabe se deixar acariciar. Mas vocês não vieram aqui para escutar a história de minha vida. - Nós viemos pedir sua ajuda. O Anão explode em gostosas gargalhadas, batendo com as mãos grandalhonas nas coxas. - Quem diria! Quem diria! - exclama e repete sem parar. Depois que ele se farta de rir e que sua última exclamação "Quem diria!" se afogou num soluço, Gabriel explica: precisa de um guia e de uma dezena de homens para ir até Ollantaytambo e, a partir de lá, seguir pelas florestas impenetráveis onde Gonzalo está à procura de Anamaya e Manco. O Anão não faz nenhuma pergunta. Ele contempla Gabriel longa e seriamente. - Desde o início, sempre conduzi você para junto dela. Gabriel inclina a cabeça. - Quando você quer partir? - Ainda esta noite, se for possível. O Anão assobia por entre dentes. - Iremos até minha casa, em Yucay, e eu reunirei os homens de que vai precisar. Mas você tem o ouro necessário? - Ele tem. A tapeçaria foi levantada para deixar passar a silhueta do gigante negro. - Ele tem - repete Sebastian baixando a cabeça, como se a pequenez de tudo o que o cerca o obrigasse a se encolher. - Ele não quer perder tempo, não é mesmo? O espanto imobilizou a expressão de Gabriel num trejeito que faz Sebastian dar uma gargalhada. - Só para ver esta sua cara, Vossa Graça, vale a pena me submeter à tortura. Vamos, tratemos de andar logo, estou com dor no pescoço só de ficar aqui. Os quatro homens tornam a sair. Gabriel segura o braço de Bartolomé e o aperta num gesto emocionado. Diante deles, os dois antigos escravos caminham sem dizer uma palavra, lado a lado: o Anão corre, enquanto o gigante reduz seus passos. Eles passam por canchas silenciosas antes de desembocar na estrada calçada de pedras de Collasuyu. Quando estão na altura das últimas casas, e diante deles se desenham apenas os campos de cereais e o contorno sombrio do desfiladeiro atrás do qual se esconde Yucay, Bartolomé e Sebastian se imobilizam. Sebastian dá um ligeiro assobio por entre dentes. Dois índios aparecem - e uma sombra branca na noite. - Itza! - exclama Gabriel. - Eu disse que a guardaria para você! - Itza! - A variedade de suas exclamações me deixa confuso. Vai nos dizer isso uma terceira vez? Sem dar atenção aos comentários sarcásticos, Gabriel dá palmadinhas afetuosas no focinho da égua. Depois, com os olhos brilhantes, vira-se para seus amigos. O monge levanta a mão de dedos colados para Gabriel. - Você vai me permitir abençoá-lo - diz com um sorriso. - Que o Verdadeiro Deus esteja consigo! - E não vá se esquecer de seus grandes colhões - diz Sebastian sombriamente. - Trate de guardá-los bem entre as pernas. Gabriel contempla seus dois amigos e os abraça rapidamente. Abre a boca para agradecer. - Fique calado - resmunga Sebastian -, pois já está me aborrecendo. Você vai chorar como uma mulher, vai gemer "Itza! Itza!", e eu detesto isso. Trate de se apressar. Depois de uma última hesitação, Gabriel finalmente lhes dá as costas antes de montar na sela com um movimento ágil e desaparecer na noite.

    Capítulo 26
    Vilcabamba, Vitcos, julho de 1539.

    Antes de se aproximar, Anamaya observa por um instante a ruidosa faina de homens e mulheres sobre os terraços, isolados na parte baixa de Vilcabamba, que se estendem na margem do rio. Sob o olhar atento de Katari, as mulheres amassam e moldam a argila para colocá-la com cuidado no interior de molduras de madeira. Em seguida, os homens pegam as espessas placas de greda reluzente que são obtidas desse modo. Sentados, eles as curvam sobre suas coxas antes de colocá-las com cuidado ao sol, sobre um tapete de folhagem, para que sequem. Um pouco mais adiante, outros homens transportam as placas já secas, de uma cor cinza mais clara, para o centro de um forno redondo cujo braseiro está sendo preparado. Quando vai ao encontro de Katari, Anamaya o vê chamar de longe um dos trabalhadores e pedir-lhe que traga a placa de argila que ele acabou de recurvar. Com a ajuda de um estilete de cana, em alguns gestos rápidos, o Mestre das Pedras desenha no material ainda macio uma pequena serpente. - O que você está fazendo? - espanta-se Anamaya. - Para que servirão estas placas de greda? - Para cobrir seu teto, Coya Camaquen, e para mantê-la seca e bem abrigada durante as próximas chuvas! Anamaya franze as sobrancelhas e olha para ele sem compreender. Katari de novo desenha uma serpente sobre uma outra placa. Seu gesto é tão simples e tão natural que a imagem da serpente parece surgir com a celeridade de um verdadeiro réptil. - É o que os estrangeiros chamam de telhas - explica Katari, os olhos brilhando de excitação. - Uma vez cozidas essas placas de greda, bastará recobrir com elas o madeiramento de nossos tetos para que se tornem absolutamente impermeáveis. Decidi cobrir primeiro o seu teto, Coya Camaquen, para lhe prestar uma homenagem. Depois, poremos telhas sobre todas as canchas de Vilcabamba. Isto acabará de embelezar a nova cidade real de nosso Único Senhor. Em parte preocupado, mas também em parte se divertindo, Katari mostra a telha que acabou de desenhar e acrescenta: - Minha única preocupação é que as coxas de um homem dos nossos são menores que as de um estrangeiro. Também as telhas que moldamos são menores que as que vi serem feitas em Cuzco. Vamos ter de trabalhar o madeiramento de nossos telhados para resolver este problema. - Você me surpreende, Mestre das Pedras - sorri Anamaya. - Você, o guardião do saber de nossos Ancestrais, o depositário de nossas tradições, quer suprimir as coberturas de tetos incas e substituí-las por uma invenção dos estrangeiros? - E por que não? Não devemos aprender com os outros povos o que a vida lhes ensinou? Nós não aprendemos a ourivesaria com as lições dos artesãos chimus, a cerâmica com seus ancestrais mochicas e a tecelagem com os antigos habitantes de Paracas? Estas telhas são uma invenção soberba. Com elas estarão acabadas os cansativos cortes do ichu e essas coberturas de teto que apodrecem e têm de ser trocadas a cada quatro estações! Deveríamos ignorar este saber somente porque os deuses não tiveram tempo de nos ensiná-lo? Isto não roubará em nada as belezas dos prédios e das paredes que nós, os incas, sabemos construir melhor que qualquer outro povo criado por Viracocha. O semblante e a voz de Katari manifestam um raro entusiasmo. Emocionada, Anamaya observa o intenso balé das operárias e dos operários. - Fico contente com o que você diz, Katari. Pois significa que, para você, nosso povo ainda deve se desenvolver e ter esperanças para o futuro a despeito da guerra, da fraqueza de Manco e dos sombrios presságios do Único Senhor Huayna Capac. - O que você acaba de me fazer são duas perguntas numa só, Coya Camaquen - replica o Mestre das Pedras, assumindo uma expressão mais séria. - Vou precisar lhe dar duas respostas. Primeiro para lhe dizer que me parece pernicioso dispor inutilmente de conhecimentos e de poderes. Isto só pode desagradar aos Poderosos Ancestrais que quiseram que cada coisa existisse neste Mundo para assinalar a presença deles. Katari levanta o braço e mostra, mais além do terraço enlameado onde eles se encontram, um campo onde pastam tranqüilamente alguns cavalos que as crianças agachadas admiram. - Manco capturou esses animais durante a batalha de Ollantaytambo. Com orgulho, os conduziu até aqui. Mas para fazer o quê? Somente ele sabe montar em seus lombos. Infelizmente, na selva que se tornou nosso único território, esses animais são incapazes de se deslocar. Além disso, eles precisam de uma espécie de sola de sapato de metal nos pés que ainda não temos condições de fabricar. Desse modo, de que nos servem esses cavalos, senão para arregalar os olhos das crianças? - Eles servem ao orgulho de Manco - diz Anamaya com ternura. - Esses cavalos mostram a todos que o Único Senhor nem sempre se submete ao poder dos estrangeiros! Não longe deles, uma fumaça espessa e de odor forte agora escapa dos fornos redondos. Com o semblante grave, Anamaya contempla os homens e mulheres que os rodeiam e que parecem não ter visto nada no estranho jogo de Katari com as telhas. - Estou muito lisonjeada que você queira decorar primeiro o meu telhado - declara. - Mas levarei algum tempo até poder ver seu trabalho. Concordei que Curi Ocllo vá ao encontro de Manco e decidi acompanhá-la. Como Katari a observa com surpresa e inquietação, Anamaya responde à sua pergunta antes mesmo que ele a formule. - Já faz quase uma lua que me recuso a deixá-la partir de Vilcabamba. Mas ela está definhando, chora com mais freqüência do que come. E talvez ela tenha razão: sua presença poderia reconfortar Manco. - Mas por que acompanhá-la? Anamaya hesita alguns segundos. Mais adiante, os homens gritam, enquanto rapidamente recobrem o forno com uma quantidade de novas ramagens para manter uma temperatura regular sobre as telhas. - Prometi a Manco que estaria a seu lado e faz muito tempo que eu também o deixei sozinho. Além disso, Curi Ocllo receia que desta vez seja seu irmão Guaypar a enfrentar Manco. Entre eles existe um ódio antigo pelo qual me sinto um pouco responsável. Quem sabe eu não possa ser útil ao nosso Unico Senhor? Katari sacode a cabeça, com a expressão duvidosa. - Este não é seu lugar, Coya Cama quen. Os ódios de Manco são como os tetos cobertos de ichu desta cidade: são hábitos antigos que não impedem nem a chuva de umedecer os leitos nem os estrangeiros de ganhar as batalhas! Além disso, atravessar a floresta quando os estrangeiros se aproximam é perigoso para você! - Nós teremos uma boa escolta - interrompe Anamaya, pondo a mão afetuosamente sobre o punho do Mestre das Pedras. - Katari, confio a você o Irmão Duplo. Cuide bem dele. Estarei de volta o mais depressa que puder. Sinto que se aproxima o momento em que deveremos conduzi-lo para lá, você sabe onde. É no terceiro dia de prudente marcha que o pequeno grupo delas, acompanhando o curso do rio, alcança o ponto de onde se pode avistar o esporão rochoso que sustenta o palácio fortificado de Vitcos. Contrariando as inquietações de Katari, o progresso pela selva se fez sem qualquer dificuldade exceto penetrar a desordenada massa vegetal tão vigorosa que não cessa de querer devorar e apagar o caminho traçado a cada passagem. Curi Ocllo também se mostrou corajosa, nunca hesitando em deixar sua liteira quando o estreitamento das trilhas o exigia. Agora, quando os muros de Vitcos surgem projetados sobre o vale, sua impaciência é tão grande que suas mãos tremem. Ao longo de todo o dia, seu rosto perdeu as sombras que o enfeavam para tornar-se de novo aquele tão belo rosto amado e desejado por Manco. Cintilantes e alegrados pela exaltação, seus olhos e boca são ao mesmo tempo os de uma mocinha muito jovem a que nenhuma das provações do mundo saberia afligir e, vibrantes de promessa, os de uma mulher que sabe que muito brevemente o amado a tocará com o olhar e as pontas dos dedos. Enquanto isso, quando eles alcançam os primeiros degraus de uma encosta bastante íngreme que se liga à fortaleza pelo flanco norte, a coluna se imobiliza bruscamente. Antes que o oficial no comando dos quinze guerreiros da escolta se aproxime da liteira, Curi Ocllo já reclama: - Oficial, por que ordenou esta parada? Estamos quase chegando... Com respeito, o oficial inclina-se diante dela e, com a habilidade de um homem habituado a este tipo de cerimonial, por meio de uma torção do busto, consegue fazer com que sua saudação seja ao mesmo tempo dirigida a Anamaya. - É verdade, Coya que estamos muito próximos de Vitcos. Mas, exatamente, quero pedir permissão à Coya Cama quen para enviar dois soldados até a fortaleza para prevenir o Único Senhor de sua chegada. - É inútil! - exclama Curi Oco. - As sentinelas o avisarão. E além disso, se eu pudesse lhe fazer a surpresa com minha chegada, seria maravilhoso! Com uma ligeira gargalhada ela se vira para Anamaya e suplica: É inútil perder tempo, não é? - Oficial - pergunta Anamaya -, acredita que seja realmente necessário enviar previamente soldados? A Coya tem razão, o Unico Senhor será avisado de nossa chegada pelas sentinelas. O constrangimento reprime por um breve instante a resposta do comandante da escolta. Finalmente, ele se inclina ainda mais baixo para declarar: - Na verdade, Coya Cama quen, eu queria me assegurar de que o Único Senhor Manco de fato esteja na fortaleza. Por que ele não haveria de estar? - indaga Curi Ocllo. - Se ele tivesse partido, nós já saberíamos. Ele nos teria enviado um mensageiro. Ah, Anamaya, por favor, estamos tão perto! - Seria estúpido ser imprudente - responde Anamaya docemente. Imediatamente, as lágrimas sobem como pérolas aos olhos negros de Curi Ocllo. Anamaya não pode conter um sorriso diante desse capricho. - Oficial - suspira -, envie um soldado para anunciar nossa chegada, mas retomemos o caminho sem esperar que ele volte. Sem nenhuma moderação, com uma espontaneidade de criança mimada, Curi Ocllo lança os braços em volta do pescoço de Anamaya e a abraça. - Obrigada, Anamaya! Obrigada... Você não pode saber como estou feliz por finalmente reencontrar Manco! o A coluna não está a mais de dois lançamentos de funda da fortaleza quando o soldado que havia sido enviado vem se juntar a eles correndo. De novo, o comandante da escolta interrompe a marcha. - Coya Cama quen - anuncia -, não há ninguém. Victos está vazia... - Vazia? O grito de espanto de Curi Ocllo é um grito de dor. - O Único Senhor e seus soldados parecem ter deixado o palácio há vários dias... - Mas por quê? - Pode ser que haja estrangeiros por essas paragens, Coya. - Neste caso, oficial - ordena Anamaya rapidamente -, é inútil nos demorarmos aqui neste caminho. Apressemo-nos para alcançar a fortaleza. Uma vez que está vazia, poderemos nos abrigar nela e nos proteger se for necessário. De fato, assim que eles atravessam as muralhas que cercam a fortaleza, encontram os prédios e pátios abandonados. Inquietas, Anamaya e Curi Ocllo saltam da liteira e cruzam o primeiro dos pátios, cercado de construções baixas dispostas num grande e perfeito quadrado. Acompanhadas pelos soldados, elas se dirigem para os aposentos do lado oposto à entrada do palácio. Formando um corredor estreito e defensivo, uma espécie de ruela em ângulo reto permite a passagem até a parte mais avançada da fortaleza. Ali, nada além de uma vista esplêndida se oferece a elas. Construído bem na ponta de uma protuberância de rocha, como uma proa, projetando-se sobre uma encosta vertiginosa que acaba no rio, um prédio longo e imponente, com quinze magníficas portas ornadas com vergas de granito branco, encerra um pátio num nível mais alto. Ao redor elevam-se as encostas nevadas dos mais altos Apus; tudo parece indestrutível e estranhamente pacífico. Eu não compreendo! - repete Curi Ocllo com uma voz abalada. - Por que Manco partiu sem nem sequer enviar um chaski ao nosso encontro? - Isso é apenas um contratempo - tranqüiliza Anamaya, escrutando a floresta sobre as encostas ao redor. - Ele deve ter recuado para o pequeno forte de Machu Pucara. - Por quê? Sem nos avisar... - O oficial talvez tenha razão: os estrangeiros estão mais próximos do que imaginamos. Devemos ser prudentes. Vou enviar um mensageiro a Machu Pucara para que Manco possa... Ela não tem tempo de concluir sua frase; gritos espantosos rasgam o ar e lhes gelam o sangue. De início, elas não vêem nada. Parece que os gritos não vêm de lugar algum. E então eles aparecem. Cem ou duzentos guerreiros índios do Norte. De n'micas com as cores de Quito, capacetes de couro e escudos erguidos à frente, eles saltam do vazio, jorrando num fluxo contínuo de trás do prédio comprido onde estavam escondidos. As maças de bronze e as fundas giram. As lanças estão apontadas e os machados erguidos! O comandante da escolta começa a gritar ordens. De lança em punho, seus soldados cercam Anamaya e Curi Ocllo formando uma barreira irrisória. Mas mal assumiram suas posições quando as pedras de funda começam a voar sibilantes, matando de uma vez dois deles. Mais alto que todos os outros, o grito de Curi Ocllo enche o ar e parece desencadear o ataque. Um ataque tão breve e tão violento que Anamaya quase não tem tempo de compreender e muito menos de fugir. O último a ser morto, com a cabeça aberta por uma maça estrelada, é o comandante da escolta. De repente, faz-se o silêncio. Os soldados do Norte formam um círculo compacto ao redor delas. Curi Ocllo cai de joelhos. Sob os olhares inexpressivos dos guerreiros, ela se abraça a Anamaya. Em meio a um roçar de escudos que se entrechocam, um caminho se abre na massa de homens. Um oficial inca de alta linhagem, usando magníficos brincos muito grossos e uma capa em que correm fios de prata, o capacete coroado por um curto leque de plumas azuis e douradas, avança. Seu rosto é duro e anguloso, os olhos parecem estranhamente pequenos em suas órbitas. Anamaya o reconhece no instante em que Curi Ocllo se levanta de um salto e corre para ele: - Guaypar! Ah, Guaypar, meu irmão! Com emoção, ela se prosterna no solo. Guaypar a evita, sem nem sequer baixar um olhar para seus ombros trêmubos. Um sorriso estica seus lábios bem desenhados. Ele se aproxima, chegando bem junto de Anamaya, que ostenta uma máscara de desprezo absoluto. - Nós a esperávamos, Coya Cama quen. Para dizer a verdade, viemos aqui apenas por sua causa. - Nesse caso, que maneira curiosa de nos receber, Guaypar. O sorriso de Guaypar se alarga enquanto, às suas costas, os homens retêm Curi Ocllo, que chora soluçando violentamente e cujas mãos já estão sendo amarradas. - Eu não dou importância aos laços de sangue, Anamaya. Minha irmã me renegou há muito tempo ao se casar com Manco, o traidor, o usurpador... - Saiba que o destino dela e o meu estão ligados, Guaypar! - É a mim que caberá decidir, Coya Camaquen. Mas é preciso compreender minha impaciência. Faz tanto tempo que sonho com este momento! Seu olhar está tão vibrante de confiança e de ódio que, pela primeira vez em muito tempo, o veneno da dúvida e do medo se infiltra nas veias de Anamaya. - Você se lembra daquela noite em Huamachuco? Foi antes da chegada dos estrangeiros, o Único Senhor Atahualpa conduzia a guerra contra Huascar, o Louco... Guaypar sorri ao fazer esta pergunta. Mas seu sorriso é gelado, assim como sua voz. Anamaya sorri por sua vez antes de responder. - Sim, eu me lembro. Ela está sentada, quase agachada no chão de uma das pequenas salas da fortaleza para onde os guerreiros de Guaypar a conduziram. Sem brutalidades inúteis, mas também sem nenhum respeito por sua posição, seus braços e panturrilhas foram amarrados a uma grossa tora de madeira colocada às suas costas, obrigando-a a se manter numa postura contorcida que lhe machuca os quadris. Uma dor lancinante já começa a se estender ao longo de sua coluna vertebral e se irradia para os ombros. Contudo, ela segue sorrindo e repete: - Eu me lembro. Você acabava de ser nomeado capitão por ter capturado os generais de Huascar na batalha de Angoyacu. Os olhos sombrios de Guaypar revelam espanto. Anamaya o vê respirar fundo, enchendo o peito. Depois ele desvia o rosto para o pátio onde suas tropas se instalam ruidosamente. Mil perguntas se precipitam no espírito de Anamaya mas ela as contém, obrigando-se a deixar Guaypar vomitar seus rancores tão antigos: - Naquela noite, eu tinha dito que você era a mais bonita das mulheres do Tahuantinsuyu. Que nenhuma outra possuía a metade de sua beleza, que nenhum olhar e nenhuma boca podiam ser comparados com os seus... Apesar de ele estar de pé, numa postura provocante, e, com toda a sua altura, dominar Anamaya submetida ao suplício da tora de madeira, Guaypar dá a impressão de estar mais em guarda do que em posição de dominador. O machado cerimonial, de prata e ouro, treme um pouco em sua mão. Como se o veneno das lembranças que o assaltam lhe poluísse a carne, a pele de seu rosto se torna acinzentada enquanto ele acrescenta: - Eu fiz mais: naquela noite, eu pedi a você que se tornasse minha esposa e você recusou. - Pois então você se lembra também por quê - replica Anamaya docemente. Uma gargalhada zombeteira, carregada de fúria, escapa dos lábios de Guaypar. - O Irmão Duplo! Você disse: "Não posso por causa do Irmão Duplo!" Desde então, não existe um único Poderoso Senhor deste país que ignore como a Coya Coma quen exerceu sua fidelidade ao Irmão Duplo do Único Senhor Huayna Capac escancarando suas coxas para um estrangeiro! Um estrangeiro que se disfarça de índio e que é tão desprezado por seus companheiros como deve ser detestado pelos nossos. Se ele não tivesse sua proteção... Guaypar não conclui a frase. Mas o movimento cortante de sua mão revela muito bem a sorte que reserva para Gabriel. A dor nos rins dá um nó no ventre de Anamaya e a obriga a fechar os olhos, por um instante, para respirar melhor. Do lado de fora, o barulho e os gritos anunciam a chegada de novas tropas. Quando torna a abrir as pálpebras, Anamaya distingue, no limiar do aposento, oficiais que esperam as ordens de Guaypar sem que nenhum deles ouse perturbá-lo. - O que você quer de mim? - pergunta ela, tentando mascarar seu sofrimento. Como se não tivesse ouvido a pergunta, Guaypar atravessa a sala duas vezes diante dela. Bruscamente, ele pára de andar, observa, sem ver, a agitação do lado de fora e declara numa voz surda: - Eu também disse a você uma outra coisa nessa época distante. Você não se lembra? - Você sempre disse muito, Guaypar. Se estiver me perguntando quais são minhas recordações de você, eu poderia resumi-las facilmente: palavras de ódio e de violência! E isto desde a primeira vez. - Não! A raiva desfigura o rosto de Guaypar e seu grito faz os oficiais do lado de fora se sobressaltarem. - Não! - ruge, agachando-se para ficar na altura de Anamaya. - Desde o primeiro dia, em mim só houve amor por você. Mas você, Anamaya, você que não era nada, nem mesmo uma princesa de sangue inca, você, a menina da floresta, não deixou de me repelir sem cessar, primeiro para melhor seduzir Atahualpa, depois Manco! - Tantos anos de ciúme! - suspira Anamaya sacudindo a cabeça. - Pobre Guaypar! Como é possível viver tanto tempo sendo atormentado desse modo? - Eu lhe disse há muito tempo, Anamaya! Quis muito esquecer você, mas isso me foi impossível. Não se passou uma estação, nem um combate sem que eu pensasse em você! Não levei uma mulher para meu leito sem pensar em você. Não lutei contra os estrangeiros sem pensar em você. E sempre, sempre soube que haveria um dia como este, em que finalmente chegaria a minha vez de fazer com que você passasse pelos sofrimentos que seu desprezo me fez suportar! Cada parcela do rosto de Guaypar está endurecida pela violência, que torna suas palavras pesadas como pedras. Com uma lentidão próxima da loucura, seu olhar fixa os lábios trêmulos, e ele levanta a mão para tocar a face de Anamaya. Mas não a toca. Fascinado, detém as pontas dos dedos antes do contato e se contenta em esboçar uma carícia de seus cabelos até o centro de seu peito. - O que você quer de mim? - sussurra Anamaya com esforço. - Primeiro, vou usar você para destruir Manco. Depois, será sua vez. E um dia, eu ocuparei o lugar de Paullu e por minha vez me tornarei o Unico Senhor! - Você é louco e estúpido - murmura Anamaya tornando a fechar os olhos. - Você ignora tudo do amanhã. Sua raiva o conduz para o Mundo de Baixo, você jamais reencontrará seus Poderosos Ancestrais! - Frivolidades de Coya Cama quen! Nunca fui daqueles que se impressionam com suas palavras, Anamaya. Não acredito em sua magia. O Huayna Capac estava demasiado doente e demasiado velho para poder lhe transmitir o menor poder! Tudo isso nunca foi mais que uma manobra de Atahualpa para se impor aos clãs de Cuzco. E você, você bem soube se aproveitar disso. - Que importa o que você pensa de mim, Guaypar. Você pode me matar. Pode enfraquecer Manco e mesmo vencê-lo. Mas não creia que vai mudar seu futuro e menos ainda o futuro do Império. Você jamais será um Unico Senhor. Inti já decidiu o caminho de seus filhos. Como se não sentisse mais os braços, as costas e os ombros martirizados, Anamaya mergulha seu olhar azul bem fundo dos olhos de Guaypar. Desconcertado por sua calma, ele torna a se levantar e se afasta, o rosto ainda mais pálido, os olhos mais fundos nas órbitas. - O que você fez com sua irmã Curi Ocllo? Quer matá-la também? Curi Ocllo ama você quase tanto quanto ama Manco e você a ignora com desprezo. Com um gesto, Guaypar varre para longe a censura de Anamaya, mas não tem tempo de responder. Grandes gargalhadas ressoam do lado de fora, acompanhadas de um retinir de espadas e do bater de botas. - Ora muito bem, já está pondo mãos à obra, senhor Guaypar! Anamaya reconhece tudo ao mesmo tempo: a voz, os longos cabelos louros e as feições delicadas. Além disso, com o passar do tempo, as rugas sublinharam os olhos e uma marca de expressão amarga repuxou a boca para baixo. Também falta-lhe um dente do lado, quando Gonzalo dá uma gargalhada zombeteira observando-a com a arrogância de um caçador diante da caça finalmente vencida. Atrás dele estão uns dez espanhóis, com capacetes de metal e botas de cano alto, os calções imundos pela travessia da selva e a mão cerrada sobre o punho das espadas. Num instante a pequena sala está cheia. Enquanto os olhares pesam, todos cravados nela, Anamaya se obriga a conservar o rosto virado para a frente, o semblante impassível, o olhar na altura das botas que a cercam de muito perto. - Devo felicitá-lo, senhor Guaypar - prossegue a voz de Gonzalo no mesmo tom brincalhão. - Realmente soube resolver esta questão! Imaginava que teríamos mais dificuldade para desentocar esta preciosa princesa nesta maldita selva. O semblante de Guaypar tornou a se fechar, insensível à bajulação do espanhol que, subitamente, se inclina. Com os dedos enluvados, ele agarra o queixo de Anamaya e o levanta brutalmente. - Vejo que não consegue esconder a felicidade por me rever, bela princesa! Anamaya não responde nada. Mas os olhos azuis mergulham sem nenhum traço de temor nos do irmão do Governador, com tamanha intensidade que Gonzalo finalmente é obrigado a desviar o olhar com uma gargalhada zombeteira de constrangimento. - Esta mulher sempre foi assim - explica aos companheiros, empertigando-se orgulhosamente. - Provocante, segura de si. Vai ser um verdadeiro prazer interrogá-la! Senhor Guaypar, já perguntou onde ela escondeu a estátua de ouro? Os rins doloridos de Anamaya se congelam. De súbito, ela compreende. É o Irmão Duplo que Guaypar e os estrangeiros estão procurando. Sua captura não foi absolutamente fruto do acaso! O olhar carregado de ódio de Guaypar pesa sobre ela e o que vê em seu olhar confirma seu temor. - Quando Manco não tiver mais nem o Irmão Duplo de seu Pai nem você - murmura em quíchua -, ele ficará tão enfraquecido quanto uma criança. - Pensei que você desprezasse minha influência sobre Manco - zomba Anamaya. - Que importância tem o que penso! É ele, Manco, quem acredita em seus poderes. Se bem que, até o dia de hoje, esses poderes não tenham lhe sido muito úteis. A sua captura vai assustá-lo. Ele dirá a si mesmo que é o sinal de que seus Poderosos Ancestrais o abandonaram! Então poderei acabar o combate que nós começamos na noite do huarachiku. - Guaypar! - exclama Anamaya. - Guaypar, você não pode fazer isso! Atahualpa o chamava de "meu irmão", o sangue que corre em seu coração é o sangue de Inti. Você é um Inca: não permita que os estrangeiros se apoderem do Irmão Duplo! Você sabe o que farão com ele: placas de ouro que levarão para o outro lado do oceano. E então será o fim de nosso povo. Guaypar! Nenhum Filho do Sol poderá mais se manter de pé à luz do dia! Você, da mesma forma que os outros. Mate-me, abata Manco se este é seu objetivo. Mas não conduza os estrangeiros ao Irmão Duplo, senão destruirá aquilo que fez você nascer! Eu suplico, Guaypar! Não sou eu que lhe peço isso, mas todos os Poderosos Ancestrais suplicam através de minha boca... - Hola! Hola!- ruge Gonzalo levantando a mão como se quisesse capturar no espaço as palavras de Anamaya. - Eis que temos muitos gritos e discursos, senhor Guaypar. Mas eu preferiria que fossem em espanhol! O que ela está lhe dizendo? - Eu disse a ele que para mim será mais agradável morrer - responde Anamaya, antes que Guaypar possa abrir a boca - que permitir que o senhor encontre o que procura. - Ah, bela amiga - retruca Gonzalo dirigindo uma piscadela de olho a seus companheiros -, essas são coisas que se afirmam quando se é ignorante. Não imagina o prazer que eu terei em fazê-la mudar de opinião! - Senhor Gonzalo - intervém Guaypar num espanhol bastante lento. - Deixe que eu me ocupe da Coya Cama quen. Creio que sei onde está a estátua de ouro. Brevemente eu o conduzirei a ela como o conduzi até aqui... -Ah, sim? A sobrancelha de Gonzalo se levantou, com uma expressão de suspeita. Uma crispação se apodera de todo seu rosto que, de repente, exprime apenas desconfiança. - Não é desse modo que eu vejo as coisas, meu bom amigo - diz ele num tom imperioso. - Soube que você tinha encontrado aqui sua irmã, a bonita esposa de Manco. Faça com que ela o acompanhe até ele. Tenho certeza de que conseguirá convencê-la a fazer esse pequeno esforço! E, quando estiver diante de Manco, poderá lhe anunciar que esta aqui está conosco e que eu estou conversando com ela. Tenho certeza de que ele o ouvirá com atenção... O dedo de Gonzalo está apontado para Anamaya enquanto Guaypar sacode a cabeça. - De que serve ir ver Manco, se não é para guerrear com ele? - Nada o impede de matá-lo, se puder, senhor Guaypar - ironiza Gonzalo. - Mas não foi você quem me explicou que, sem esta moça, Manco era como uma minhoca saída da terra sobre uma pedra aquecida pelo sol? Dessa vez, o olhar que Guaypar lança para Anamaya, enquanto os estrangeiros já o empurram para fora da sala, é menos carregado de ódio que de cansaço.

    Capítulo 27
    Vitcos, Machu Pucara, julho de 1539.

    Há muito tempo a noite já caiu. Uma lanterna furta-fogo está posicionada bem perto de Anamaya, que não bebeu nem comeu nada desde sua captura. Sem um instante de alívio, a dor corta seu corpo e interrompe sua respiração com tanta freqüência, que ela tem de pensar somente em respirar. Por causa disso, esqueceu da sede e da fome. A despeito de tudo, ela se esforça para manter os olhos abertos. Quer que Gonzalo leia neles toda sua indiferença. Ele retornou, sozinho, até a sala onde ela está presa. Está de camisa, com uma adaga na mão, e a luz fraca da lanterna mal permite distinguir suas feições. - Agrada-me que você esteja silenciosa - murmura ele, fazendo a lâmina dançar nas pontas dos dedos. - Meu prazer será maior e mais demorado. Ele se levanta com uma gargalhada, se afasta nas sombras, desliza atrás dela. - Sabe que o seu Gabriel desapareceu? Partiu, fugiu... Alguns dizem que já voltou para a Espanha, outros afirmam que se afogou num lago. Anamaya não move nem um cílio. Toda sua vontade está dedicada a este esforço: não oferecer a Gonzalo o prazer que ele espera. Nem um murmúrio. Nem uma queixa, nem o menor sinal de emoção. - Anos atrás, eu poderia ter feito de você minha mulher. Você me agradava bastante. Tinha falado sobre isso com meu irmão Juan... Sabe que foi por causa de seu Gabriel que meu querido Juan morreu? A lâmina da adaga desliza entre a pele e a túnica dela. - Eu amava Juan. Lá onde ele está hoje, no paraíso ou no inferno, quero que ele escute seus gritos quando minha adaga lhe beijar. Com um golpe seco da lâmina, Gonzalo rasga-lhe a túnica, desnudando o ombro e um seio. Como se uma mosca tivesse pousado a seu lado, ela não faz nenhum movimento. - Você é forte - sussurra Gonzalo em seu pescoço. - Mas vai ver que sou mais forte que você. De novo ele aparece diante dela e busca seus olhos. - Vou fazer como seus guerreiros fazem com meus companheiros. Mas à minha maneira... Ele encosta a ponta de ferro no ombro de Anamaya e a deixa descer até o peito. - Vou começar tirando um pouco de pele aqui - diz numa voz suave. - Um seio, depois o outro... Uma mulher não morre desse tipo de ferimento, mas parece que sofre muito. Sobretudo se lhe salpicam um pouco de sal sobre a ferida. Ele sorri. Espera uma reação que não vem. - Também existe uma outra técnica que vi usarem: põe-se um pouco de pólvora sobre as feridas, depois se põe fogo. A vantagem é que isto impede que o sangue escorra... Anamaya não escuta mais as palavras. Ela as deixa zumbir ao seu redor como um ruído inútil e vão. Quando Gonzalo acrescenta frases às frases, se excitando com os horrores que ele mesmo profere, ela sente uma estranha paz dominar seu coração e seu espírito, O medo a abandona e mesmo a dor em suas costas parece se amenizar. Gonzalo pode falar e falar, lançar os vômitos de seus pensamentos e de seus desejos; ele permanece tão impotente quanto um menino que quer caçar e abater os animais que povoam sua imaginação. - Mas, antes de todos esses prazeres - diz Gonzalo rangendo os dentes, pegando a lanterna e se levantando -, meus caros companheiros se divertirão com você. Você lhes oferecerá seu belo corpo antes que eu o corte: deve haver pelo menos uns vinte a quem você agradará antes que esse seu buraco entre as coxas não seja mais utilizável! Com uma risada satisfeita, ele levanta a tapeçaria da porta e acrescenta: - É claro, Princesa, seria possível evitar essas coisas desagradáveis: basta que nos conduza à estátua de ouro. Você tem minha palavra que depois disso não me interessará mais que a bosta de meu cavalo. E então? Ela não abriu a boca desde que ele começou a provocá-la e a ameaçá-la. Com uma delicadeza de cortesã, uma gota de suor aflorando sobre o lábio, ela deixa escapar sua primeira palavra. - Não. Talvez ela tenha adormecido. Na escuridão profunda de sua prisão, ela percebe um estranho farfalhar de folhagens. Seus braços e pernas estão tão dormentes que ela não os sente mais. Só resta o aguilhão da dor em suas costas e ombros. O rangido torna-se mais insistente. Ele se interrompe bruscamente, depois recomeça, lento e comedido. É então que talos de ichu caem em cima de Anamaya e ela compreende. Felizmente, todo o teto da sala ainda é feito de ichu e não das telhas tão orgulhosamente fabricadas por Katari! - Estou aqui! - diz ela baixinho. - Sou a Coya Cama quen... Como única resposta, alguns blocos de palha despencam na escuridão. Um sopro do ar fresco noturno toca de leve seu ombro desnudo. As cordas que a impedem de se mover não permitem que veja distintamente, mas percebe uma silhueta na abertura do teto. Um temor a domina. Não será um dos homens de Guaypar? Ela se cala e prende a respiração enquanto o homem salta com agilidade para o solo. Depois nada mais acontece. O silêncio é absoluto. Por que o homem permanece tão obstinadamente calado? E então, ao mesmo tempo, ela vislumbra dedos de uma mão que encontram sua carne nua, que deslizam e apalpam as cordas que a amarram, acariciam sua nuca e sua têmpora. Ela estremece de terror, contém um grito que lhe sobe aos lábios, quando uma voz que reconheceria entre todas murmura em seu ouvido. - Anamaya! Ela pensa que vai desmaiar. Seu coração é um rio de lavas dentro de seu peito. "Ó Poderosos Senhores, vossa vontade assim o quis!" A voz sussurra ainda: "Anamaya!" As mãos e braços sólidos a envolvem e acariciam. Uma felicidade louca cresce em seu íntimo e explode em seu peito. - Gabriel! Gabriel! - Sim, sou eu! Quieta, não grite, tem um guarda lá fora! - Ah, Puma, meu Puma! Eu sabia que poderia confiar em você! - Espere, vou cortar essas cordas... Devagar... Esses canalhas não pouparam corda. - Como você soube? - Devagar, nada de impaciência. Tão logo a pressão das cordas desaparece, Anamaya quer se ajoelhar e tocar o rosto de Gabriel, mas suas pernas fraquejam e se dobram. Enquanto o sangue circula de novo em suas veias como se arrastasse mil pontas de agave, ela desaba nos braços dele. - Devagar - repete ele, com um sorriso na voz, beijando suas têmporas, suas pálpebras, já buscando seus lábios. Mas sua mão apalpa o rasgão na túnica e ele se imobiliza: - Você está ferida? Fizeram alguma coisa? - Nada - ela sorri, por sua vez -, apenas palavras... Eles querem o Irmão Duplo e esperavam me assustar. - Eu sei. Saí atrás de Gonzalo tão logo soube por que ele fazia esta expedição - explica Gabriel, massageando suavemente os músculos doloridos de Anamaya. - Alcancei o grupo deles há quatro dias. Como não sabia onde você estava, achei que seria mais inteligente esperar que eles me conduzissem até você. - Faz tanto tempo - murmura Anamaya segurando seu rosto para beijá-lo mais uma vez. - Tanto tempo! E nem uma noite, nem um dia acreditei que estivéssemos separados para sempre. Já há alguns dias, eu sentia que você estava bem perto de mim... Gabriel põe os dedos sobre seus lábios. Um ruído de passos do lado de fora recorda a presença da sentinela. Gabriel estreita Anamaya em seus braços e murmura em seu ouvido. - Nunca mais aceitarei ficar separado de você. Nunca mais. Não me peça mais isso, pois recusarei! Uma pequena risada sacode o peito de Anamaya, colada nele. - Não pedirei mais isso - responde ela no mesmo tom. - Daqui para a frente, iremos juntos. Em silêncio, eles permanecem abraçados assim, como se finalmente a eternidade realizasse o desejo deles. Depois, sem levantar a voz, Gabriel mostra o buraco que abriu no teto de palha. - Gonzalo está tão seguro de si que não escolheu sua prisão com muito cuidado! Um grosso galho de árvore chega até o telhado e de lá rapidamente estaremos do lado de fora das muralhas da fortaleza. O Anão nos espera e nos conduzirá: Manco está no pequeno forte de Machu Pucara. - Eu suspeitava disso. - Se caminharmos a noite inteira, alcançaremos o acampamento de Manco antes que Gonzalo e seus comparsas descubram sua fuga. - Sim - aprova Anamaya levantando-se lentamente. - Temos de nos apressar. Curi Ocllo estava comigo. Guaypar a fez sua prisioneira e quer obrigá-la a levá-lo até Manco. Devemos chegar antes deles. - Você tem razão - concorda Gabriel -, não temos um minuto a perder. Ele a abraça longamente antes de levá-la consigo. O Único Senhor Manco vestiu um unku de tecido axadrezado em preto- e-branco cuja metade é recoberta por um peitoral de ouro. Grandes brincos de ouro balançam sobre as pregas do ombro de sua longa capa de vicunha. Ele colocou sobre a fronte o Ilautu, o cordão real, e, sobre seu capacete trançado em tiras de cana e recoberto de ouro, a brisa agita as três plumas de curiguingue que o designam como o Filho de Inti. Ele se mantém de pé sobre a liteira de combate carregada por dez homens. A mão esquerda está cerrada sobre a lança cerimonial, enquanto a direita está pousada sobre o punho de uma espada embainhada cingida à sua cintura, o mais ornamentado dentre os troféus que lhe foram trazidos por seus guerreiros. Seu olhar é duro como as pedras das altas montanhas. Seus lábios e pálpebras estão tão imóveis que não se sabe dizer se ele respira. - Há muitas luas que os oficiais e os guerreiros de seu séquito não vêem seu Unico Senhor com tão bela aparência, e todos sentem que nesse dia alguma coisa de essencial vai acontecer. Ao alvorecer, quando as brumas da noite ainda se estendiam sobre o rio de águas geladas, Manco subitamente deu ordem a seus comandantes para pôr as fileiras em formação e se posicionarem diante das muralhas do velho fortim como se estivessem na grande esplanada de cerimônias de Aucaypata, em Cuzco. Em resposta aos olhares intrigados e às perguntas silenciosas, ele diz sorrindo: - Soube esta noite que os estrangeiros estavam nos enviando um mensageiro. Quero recebê-lo com honras. De fato, quando os primeiros raios de Inti penetram entre as folhagens, a trompa soa e anuncia os visitantes. Como na grande praça de Aucaypata, os milhares de guerreiros estão alinhados em cinco fileiras e formam até dentro da floresta uma parede de lanças, de piques, de auriflamas e de longas maças. Atrás de Manco, uma dúzia de oficiais rodeia os arquebuzes tomados aos espanhóis. Ninguém se move quando Guaypar se aproxima à frente de Curi Ocllo. A cem passos de Manco, com o rosto banhado em lágrimas, a Coya se prosterna gritando tão alto que todos a ouvem: - Perdoe-me, meu Único Senhor! É somentç a você que amo e a quem obedeço, meu esposo tão amado. Suplico que perdoe meu irmão Guaypar: ele não quer lhe fazer mal. Certos soldados percebem um breve sorriso na linha dura da boca de Guaypar. Mas os oficiais já o estão cercando. Eles o agarram pelos braços e, ainda que Guaypar se defenda com violência, obrigam-no a se prosternar diante de Manco. Um velho capitão traz uma pedra bem pesada que deixa cair sobre seus ombros, rosnando: - Saúde seu Único Senhor ou morra, traidor nojento! - Você não passa de um covarde, Manco! - grita Guaypar em resposta. Precisa de milhares de homens para me enfrentar, quando eu venho sozinho. Manco o observa sem responder, a boca franzida pelo desprezo. Dois oficiais mantêm a ponta da lança apoiada sobre a nuca de Guaypar e obrigam- no a olhar para o solo, enquanto ele continua a gritar. - Você não é filho de seu pai, Manco! Sem as intrigas da Coya Camaquen e a loucura de Villa Oma, você jamais poderia ter posto o lia utu sobre a testa. Nunca meu irmão Atahualpa teria escolhido você para sucedê-lo... Enquanto Guaypar segue berrando, Curi Ocllo precipita-se para ele. Seu corpo treme inteiro e suas mãos apertam o tupu de prata com tanta força que se tingem de sangue. Com o olhar enlouquecido, ela geme: - Cabe-se, Guaypar! Cale-se! Você não pode falar assim com meu esposo, o Único Senhor! - Seu esposo não é mais nada! - exclama Guaypar. Curi Ocllo tenta cobrir a boca de Guaypar com suas mãos ensangüentadas. Mas, diante de um olhar de Manco, um soldado segura seus braços e a puxa para trás. - Anamaya é minha prisioneira - ruge Guaypar com a nuca ainda inclinada. - Ela me conduzirá ao Irmão Duplo... Está tudo acabado, Manco! Os Poderosos Ancestrais daqui por diante estão comigo. Enquanto os gritos e as lágrimas de Curi Ocllo redobram de intensidade, Manco se aproxima e com um gesto puxa a espada da bainha que bate em suas pernas. - Anamaya não tem mais o apoio de seu Pai Huayna Capac - rosna com fúria Guaypar. - Mas os estrangeiros me prometeram: se você voltar a Vilcabamba e cessar a guerra, eles não o matarão. Com um gesto da espada, Manco afasta os guerreiros. - Levante-se! - ordena com um sorriso. Quando Guaypar faz cair a pedra em seus ombros e se põe de pé, o sorriso de Manco torna-se ainda mais terrível. - Pobre Guaypar, você nunca compreendeu a lição que lhe dei há tantos anos, no dia do huarachiku! Olhe o que está à sua frente! Então Manco se afasta. A fileira de guerreiros abre-se diante de Anamaya e Gabriel que se aproximam. - Pobre Guaypar - ainda zomba Manco com uma gargalhada estridente. - Suas palavras ressoam na floresta, sonoras e tão assustadoras quanto as de um papagaio! Mas, no mesmo instante, a trompa soa longamente. Um oficial grita: - Os estrangeiros se aproximam Único Senhor! Estão a uma distância de cem lançamentos de funda! Curi Ocllo de um salto atira-se aos pés de Manco, que já levanta bem alto sua espada: - Não mate meu irmão! Poupe-o pelo amor que tem por mim, ó, Manco! - Não deveria tê-lo conduzido até aqui, Coya - rosna Manco. - É melhor que eu mesmo lhe corte a cabeça antes que ele arranque a minha. Seu irmão ama a espada dos estrangeiros. Que ele a engula! Sibilando, a lâmina descreve um grande arco circular. A cabeça de Guaypar é sacudida por um estranho tremor. Seus olhos arregalados pela surpresa não se fecham quando ela cai e um jato de sangue jorra bruscamente de seus ombros. Com um terrível grito animalesco, Curi Ocllo tenta segurar o corpo sacudido por espasmos de seu irmão, cujo sangue encharca seu rosto e seu peito. Anamaya e Gabriel correm para ela, mas Manco já dá ordens aos comandantes para se dispersarem na floresta. Durante alguns minutos, reina a maior confusão enquanto alguns dos guerreiros, em completo silêncio, quebram suas linhas perfeitas e correm em direção ao norte. - Não fique aqui - suplica Anamaya agarrando os ombros de Curi Ocllo, prosternada sobre o cadáver viscoso de Guaypar. - Não fique aqui. Os estrangeiros vão capturar você, siga-nos... Mas Curi Ocllo enterrou o rosto no peito de seu irmão dando pequenos gritos de dor, como um animal em agonia. - Ela não está ouvindo - explica Gabriel sem conseguir abrir os dedos de Curi Ocllo, agarrados às mãos de Guaypar. As explosões dos arcabuzes já ressoam na floresta. - Venha, Anamaya! - ordena Gabriel, fazendo-a soltar Curi Ocllo e agarrando-a pela cintura. - Caso contrário, nós é que seremos capturados. E enquanto eles afinal correm atrás dos últimos soldados, Gabriel, virando-se para trás, ainda vê Curi Ocllo, com os cabelos ensopados de sangue, abraçada ao corpo sem cabeça de Guaypar, como se ela quisesse desaparecer no vazio junto com ele.

    Capítulo 28
    Chuquichaca, março de 1540

    A luz do entardecer desce em cascata através das copas das árvores. As folhagens espessas escondem o céu azul que lentamente escurece. Na imensidão da floresta retinem os gritos dos animais, os chamados dos pássaros, toda aquela preparação para o crepúsculo que imediatamente faz Anamaya mergulhar de novo no território de sua infância. Sentada na praia, na margem do córrego, ela pensa em sua mãe. O rugido da corredeira, mais acima, a transporta em seu devaneio e, ainda que mantenha os olhos abertos, quase não está consciente da presença de Gabriel à sua direita. Estão sentados na estreita faixa de areia, no centro de um entrelaçamento de galhos mortos polidos pelas águas. Ela se vê correr descalça em direção à sua mãe, que abre os braços para recebê-la. Durante muito tempo este sonho acabava em pesadelo: a lembrança da pedra de funda que acerta sua mãe em plena testa, o súbito peso morto em sua mão a despertavam banhada em suor frio e a solidão a oprimia. - Onde você está? A voz de Gabriel chega como um novo fôlego em meio às águas e sua doçura lhe permite sair sem brutalidade daquele sonho de infância. Desde que deixaram Curi Ocllo, desesperada, aos pés do cadáver do irmão, já se passaram seis luas que estão juntos na floresta, longe de Manco, longe de qualquer pensamento sobre a guerra, e é como se a compreensão entre eles se tornasse mais profunda a cada aurora e a cada crepúsculo. Com freqüência, eles nem sequer precisam de palavras e alcançam a plenitude simplesmente ficando na companhia um do outro. Um olhar, um movimento de mão bastam para enchê-los de felicidade. - Estava fazendo uma longa viagem... - Eu estava com você? Anamaya sorri. - Não, eu estava com minha mãe. Uma nuvem faz o sol desaparecer e lança uma sombra sobre o rosto deles. - Você já me falou muito de sua mãe - comenta Gabriel - e sei que a reencontra no Outro Mundo. Mas seu pai, nunca acontece de vê-lo? Gabriel jamais formulou a pergunta de maneira tão direta, e Anamaya sente a garganta ficar seca. - Não sei. Seu rosto se perde na noite... - Anamaya... Gabriel segura sua mão, e ela a entrega a ele antes de responder. - ... é como se a morte de minha mãe tivesse apagado tudo o que eu tivesse vivido antes e restassem apenas sensações imprecisas. - "Um único segredo permanecerá oculto para você e terá de viver com ele." Não foi isso que o Rei Huayna Capac disse? - Você conhece bem as palavras dele. - Para mim, são as suas. E talvez seja este o segredo. Ou então alguma coisa totalmente diferente: quando eu esperava você no Titicaca e tentava me encontrar com você em espírito, com a ajuda das servas de Quilla, uma delas me falou de você, dizendo: "a menina de olhos da cor do lago". Ela acrescentou: "Não há nenhum milagre. A Mãe Lua pôs a água do lago nos olhos dela, porque aquela que você procura une o começo e ofim do tempo. Ela é aquela que traz a Origem em seu olhar. E você, se quiser se juntar a ela, terá de aprender a ver!' Gabriel ri baixinho ao se recordar da fúria da sacerdotisa. Um sorriso frágil ilumina o semblante de Anamaya enquanto o grito de uma perdiz ressoa no céu. Eles se despiram do unku e do aiaco e se banham por muito tempo. A água barrenta os refresca deliciosamente ao sol que reapareceu. Sobre um galho que emerge da água, duas tartarugas puseram o pescoço para fora e se aquecem levantando a cabeça bem alto na direção do sol. Ao lado delas, seis tartarugas menores permanecem perfeitamente imóveis. Na superficie da água, por vezes rebrilha o clarão azul de um martimpescador enquanto o rabo de um peixe-gato espadana. As borboletas fazem revoadas rodopiando acima de uma poça na margem, atravessando o ar como uma longa tira de cores. Anamaya e Gabriel mergulham e emergem, alternadamente, e suas risadas jorram com os jatos de água. Seus corpos se entrelaçam, se enroscam como se fossem duas serpentes aquáticas, desenhando esteiras de espuma que a correnteza carrega. De mais abaixo no rio, eles vêem chegar uma piroga de madeira escavada num tronco de árvore que sobe o rio, aproveitando uma contracorrente da margem. Os dois homens que a navegam, de pé, um em cada extremidade, com longas varas, se abaixam com freqüência para evitar os galhos que impedem o caminho. Quando passam na altura deles, seus rostos se viram para eles com uma breve saudação antes de ultrapassá-los e de virar em direção à ribanceira por onde entrarão na floresta para evitar as corredeiras. Quando se deixam levar deslizando para a areia e se deitam ali, Anamaya se inclina para Gabriel. Ela esfrega longamente suas costas e ombros com folhas cujo odor, ao mesmo tempo apimentado e doce, provoca uma ligeira embriaguez. Gabriel se entrega a esta massagem doce como uma carícia. Foi Anamaya que lhe ensinou, noite após noite, que seu corpo não era apenas um bloco de ossos e nervos, cheio de força, ávido de conquistas, mas também um rio de doçura, pronto para despertar sob uma carícia antes de vibrar de desejo. O vento da noite que se aproxima os faz tremer e Anamaya os cobre com sua manta. Ela aperta os joelhos contra o peito, encolhendo-se contra o corpo dele, que a envolve com o braço agora magro, onde os músculos se desenham como lâminas. - Sinto que o momento se aproxima - sussurra ela. - Como você sabe? - Tudo parte, tudo se vai. É um momento de sinais. Estou com medo e estou feliz, tenho tanta pressa de levar você. - Para onde? - Para lá... - Você ainda não pode deixar Manco. Deve permanecer com ele. - É ele quem nos deixa, Gabriel. É ele que se vai e se embrenha na floresta de sua cólera. É claro, Guaypar foi morto, e Gonzalo partiu de volta para Cuzco. Mas outros virão e depois, outros ainda. Nós não sabemos o que é feito de Villa Oma, mas sua guerra não o conduz a nenhum lugar. Illac Topa continua resistindo, mas sozinho, como um fugitivo. Há muitas luas Manco reina sobre sombras. O Império das Quatro Direções não existe mais. Vilcabamba é uma capital sem terra, os incas não têm mais povos que possam submeter, nem mais espaços a conquistar. Eles estão longe de suas montanhas, da terra fendida pela foice de Manco Capac e Mama Occlo. - Mas, mesmo assim - protesta Gabriel -, isto não poderia desaparecer sem deixar nenhum vestígio! Anamaya inclina a cabeça. - Restará um vestígio. Devemos esperar Katari - diz ela. - Foi ele quem nos aconselhou a nos afastarmos por algum tempo de Vitcos, é ele quem nos chamará quando chegar o momento. Confiemos nele. De repente, eles escutam gritos que se propagam como uma cascata ao longo da margem. Os dois se levantam e avistam, cem pés acima na cabeceira do rio, crianças que correm com um bastão na mão. As crianças parecem seguir um pedaço de madeira que flutua suavemente e acompanha os caprichos do rio. Volta e meia, um dos meninos salta dentro d'água e puxa o pedaço de madeira para a margem, enquanto um outro acerta-lhe um golpe com o bastão que novamente o afasta; por vezes ele quase desaparece num cavado na água antes de reaparecer sobre um turbilhão e prosseguir sua lenta descida. - É um cesto! - exclama Anamaya. - Vamos deixá-los brincar... - Parece conter alguma coisa. Quando o cesto chega à altura deles, alguns meninos mergulham. Animados pelas risadas e gritos dos que ficaram na margem, eles agarram a beirada da estranha embarcação e a empurram para a margem estreita, fazendo-a encalhar numa faixa de areia. Com um sorriso de curiosidade nos lábios, Anamaya se aproxima. O cesto, de uma dimensão incomumente grande, é fechado por uma tampa solidamente amarrada com um cordão de agave. Quando Gabriel por sua vez se aproxima, as crianças excitadas puxam a tampa com toda força para abri-la. Com um estalo, a tampa se abre brutalmente. O grito de horror de Anamaya explode antes mesmo que as crianças compreendam o que vêem.

    Capítulo 29
    Vitcos, março de 1540.

    Ao avistar a massa elegante do palácio de Vitcos pousada sobre o espigão rochoso, Anamaya é tomada por um calafrio. Ela se lembra muito bem da fortaleza e da terrível surpresa do ataque de Guaypar, de sua captura e das ameaças de Gonzalo, do frio do aço da adaga sobre sua pele. Como se tivesse adivinhado esse temor, o braço de Gabriel estreita seu ombro e lhe transmite seu calor e sua força. "Nunca mais aceitarei ficar separado de você", ele havia murmurado ao libertá-la. Mesmo passadas muitas luas, a força dessas palavras ainda não deixou de ressoar em seu íntimo ao mesmo tempo que uma imagem terrível a assombra sem cessar. Entre as faces internas do cesto, o cadáver de Curi Ocllo, ressequido e encolhido em posição fetal, como se tivesse sido enxovalhado e pisoteado, conservava o semblante intacto, a despeito de sua macabra navegação. E o eco daquela beleza exposto nos restos mortais profanados era pior que tudo. Depois de ter colocado aquele fardo terrível sobre uma liteira de ramagens e caniços, eles se puseram a caminho de Vitcos, acompanhados por alguns guerreiros. Que teria acontecido para que a mulher adorada de Manco fosse torturada daquela maneira? Quem teve a idéia sinistra de enviá-la pelo rio, na esperança absurda e finalmente alcançada de que ali seria descoberta para ser levada a Manco? Manco! Só de imaginar seu sofrimento, Anamaya já sente as entranhas dilaceradas pelo pesar. A despeito de seus esforços, é impossível para ela proteger o jovem Inca desse sofrimento, e impossível também prever quais serão as conseqüências. Apesar das dificuldades para avançar na floresta, eles tiveram, a cada noite, o cuidado de fazer oferendas à alma dupla de Curi Ocllo errante no Outro Mundo. Queimaram folhas de coca e suplicaram a Mama QuilIa que lhe desse apoio durante seu difícil percurso rumo ao Mundo de Baixo. Uma vez, Anamaya surpreendeu Gabriel com as mãos unidas, os olhos fechados, a cabeça erguida para o impenetrável teto de árvores que os cobria. - Que está fazendo? - Rezo para esse Deus em quem não acredito. - Se você reza, não é porque acredita? - Eu rezo por ela, para que sua alma encontre paz. Anamaya não fez mais perguntas, mas em meio à sua dor uma luz se fez: mais que nunca, o puma e ela estão unidos. Nem os deuses nem a guerra os separarão. Agora, à medida que se destacam nas paredes do palácio as quinze portas ornadas por suas vergas de granito branco, ela avista os primeiros soldados que, de lança na mão, respeitosamente se aproximam do pequeno grupo, por terem reconhecido a Coya Cama quen. Eles transpõem a porta estreita que dá acesso ao topo da colina onde estão instalados, numa única cancha, o palácio e os catorze prédios que o cercam. Os soldados os guiam em silêncio, com o semblante fechado, até o vasto pátio onde está Manco. Ao entrar no palácio, instintivamente, Anamaya aperta a mão de Gabriel. - Onde vocês estavam? A voz de Manco troveja pelo pátio coberto de orquídeas de perfume inebriante. Em um vasto nicho, um puma ainda filhote, capturado na floresta, agita-se com furor em sua jaula de bambus. Manco ignora os carregadores que depositam o cesto a seus pés. Seus olhos, muito fundos nas órbitas, permanecem cravados em Anamaya e Gabriel. Criados e soldados, senhores e concubinas, todos baixam a cabeça e se calam. O medo transborda em meio às pedras. - Estávamos na confluência do Willkamayo e do Vilcabamba - responde Anamaya. Há alguma coisa infinitamente calma em sua voz e isto perturba Manco. Seu olhar se desvia e fixa o cesto a seus pés. - O que me trazem? - pergunta. Curvando-se, na demonstração de submissão que todos devem ao Único Senhor, Anamaya se aproxima. Nem uma palavra aflora em seus lábios quando ela levanta a tampa de vime. O olhar de Manco se imobiliza. Sua boca se entreabre como se todo o ar escapasse de seus pulmões. Ele escorrega para o chão e, de joelhos, se agarra à borda do cesto. O urro rasga o ar. Não é o grito de um homem. Não há nele nenhuma palavra. É um animal ferido cuspindo a dor que morde suas entranhas. No pátio, todos se encolhem e tentam desaparecer em si mesmos. Com freqüência, ao longo desses dias de perambulações errantes, eles temeram as cóleras e as angústias do Único Senhor. Mas o que ouvem supera tudo o que puderam testemunhar até aquele dia. Quando Manco recupera o fôlego, uma espécie de soluço sacode todo seu corpo. Ele agarra o rosto de Curi Ocllo, levanta-o diante de si, trazendo ao mesmo tempo os despojos murchos do que foi o corpo esplêndido de sua esposa e a felicidade de suas noites. Então ele urra mais uma vez. Anamaya estende a mão para ele. Toca de leve a nuca estrangulada pela violência do grito. Mas, no momento em que os dedos dela encostam em sua pele, ele se afasta com um sobressalto, como se ela o queimasse. - Manco... - murmura Anamaya como para consigo mesma, sem mais esperança de ser ouvida. Ele não chora. Comporta-se como uma tempestade que troveja e risca a noite com seus raios, fazendo tremer o mundo até as profundezas. - Não! Não! São as primeiras palavras humanas que jorram de sua boca e elas não trazem nenhum alívio, não acalmam nada, são tão animalescas quanto os gritos que saíam de sua garganta. - Não! Não! Agora é toda sua recusa que se manifesta, sua recusa em se submeter, sua recusa em perder, sua recusa em ser capturado, sua recusa em ceder, sua recusa em admitir que o tempo tenha se passado tão cruelmente; mas, de recusa em recusa, ele não é mais que um animal encurralado, cercado por uma horda famélica, nada mais que uma massa ligada à vida por uma raiva única e atroz. Um por um, seus homens deixam o pátio, retirando-se na esperança covarde de não serem vistos por ele, colando-se às paredes e transidos de medo e de suor sob os semblantes impassíveis. Só Anamaya não se move, agachada diante dele, que está estendido no chão e continua entregue a seus estertores, agora menos violentos. Gabriel também se retira, depois de ter tocado de leve em Anamaya, cujo olhar terno o acaricia antes de se fixar de novo em Manco. - Manco chama baixinho, mais uma vez. Anamaya o observa. O jovem Inca parece um homem velho - seu corpo e seu rosto estão mais envelhecidos e exaustos que os de Huayna Capac quando ela vivia a seu lado. E, enquanto Huayna Capac conhecia os segredos, Manco não sabe mais nada, não quer mais nada. Os olhos foram enterrados em seu rosto à força de murros e o rosto está marcado por rugas e sulcos que se agitam e tremem. A pele morena tem reflexos acinzentados. Manco... Ele se levanta um pouco, apoiando-se no cotovelo. Olha para ela. - Eu não... eu não posso... E, sozinho diante de Anamaya, ele se entrega às lágrimas amargas e inúteis do desespero e da derrota. À noite, o pátio de novo se encheu de gente. A despeito da chuva que começa a cair, Manco não se move. Ele deixou que Anamaya o vestisse com suas mais belas roupas, e as plumas do curiguingue agitam-se ligeiramente sob a chuva fina. Uma travessa de prata permanece cheia diante dele, uma bela concubina mantém-se pronta para obedecer a uma ordem que não será dada. -Fale---diz ele. O Anão domina o medo que lhe enche as entranhas, lembrando-se de que não pode mais ser morto desde que o grande Huayna Capac o descobriu debaixo de uma pilha de cobertores. - Duas mulheres vieram à minha casa, em Yucay, e me contaram o que precisa ouvir, Único Senhor. - Por que esperou? - Eu tinha medo, Único Senhor, deste segredo pesado demais para mim. A voz grave do Anão diz a verdade por impotência e fraqueza. Enquanto todos esperavam uma explosão de cólera, é apenas um suspiro que escapa dos lábios finos de Manco. - Agora, fale - ordena, apontando para o cesto. - Seu segredo não mais lhe pertence. - O Governador Pizarro havia recebido suas mensagens de paz e havia enviado, em troca, uma égua, um escravo negro e outros presentes preciosos. O destino quis que um de seus capitães interceptasse este comboio e, acreditando que lhe agradaria, sacrificasse a égua, o escravo e alguns outros criados. Aqueles que conseguiram escapar voltaram para se queixar ao kapitu, que foi tomado por um violento acesso de cólera. Anamaya sente as gotas de chuva que escorrem por seu pescoço e sob seu aaco. Mas, como todos os outros, ela também não pode se mexer. - Ele entregou Curi Ocllo para que ela fosse violentada por seu irmão, depois por seu secretário, e depois por outros soldados espanhóis, e talvez por índios aliados. Quando suas coxas estavam cobertas de sangue e de sêmen, eles se deram por satisfeitos. Então ele deu a ordem para que ela fosse executada. Ao ouvir as palavras do Anão, Gabriel ficou gelado de horror. Em sua memória, o eco da voz do Governador, a lembrança de sua mão se colocando sobre seu ombro com uma pressão afetuosa - tudo o que ele censura em seu antigo chefe o desgosta. Manco não olha para o Anão, nem para ninguém. Tem os olhos perdidos na noite que cai, na distância onde estão os Apus que não o protegem mais. - Guri Ocllo distribuiu suas jóias e todos os seus bens às mulheres incas que a cercavam. Ela não disse uma palavra de cólera ou de ressentimento. Simplesmente pediu que depois de sua morte seu corpo fosse recolhido, colocado dentro de um cesto que pudesse seguir o curso de um rio para encontrar o caminho até chegar a você. No pátio, reina um silêncio absoluto no qual só ressoa a voz cavernosa do Anão. - Ela mesma colocou sobre os olhos uma faixa de pano que uma das mulheres lhe tinha dado, depois de ter-lhe agradecido e de tê-la estreitado nos braços. Enquanto eles a amarravam num poste, ela dizia as seguintes palavras, que meu coração seja servido vivo ao puma se uma única de minhas palavras for falsa! "Vocês satisfazem sua cólera às custas de uma mulher! O que uma mulher como eu poderia fazer a vocês? Apressem-se para que seus apetites sejam satisfeitos!" Mesmo entre os espanhóis, dizem que alguns choravam. Depois os índios caaris a trespassaram com suas lanças e flechas, sem que ela deixasse escapar um grito ou mesmo um gemido durante sua agonia. Então, eles acenderam uma grande fogueira para que ela fosse queimada, mas Inti não permitiu isso e seu corpo permanecia intacto apesar das chamas. À noite, minhas mulheres a recolheram e a colocaram dentro de um cesto para que ela chegasse a você da maneira como tinha pedido. Katari esgueirou-se em meio à multidão e consegue chegar junto de Gabriel; discretamente, aperta-lhe o braço, dizendo-lhe em voz baixa: "Temos de ir embora!" Anamaya vira-se para eles, os interroga com o olhar. - E depois? - pergunta Manco. - O Sábio Villa Oma estava lá, depois de ser capturado em Condesuyu, e eles também o levaram para Yucay. Apesar de estar acorrentado e impotente, ele os amaldiçoava, os chamava de cães pelo que tinham feito à sua mulher. Então o queimaram vivo... Contrariamente ao silêncio que cercou a narrativa da morte de Curi Ocllo, a do suplício do Sábio provoca gemidos e injúrias. Levantando a mão, Manco impõe o silêncio. - Na hora em que as chamas já lhe lambiam os pés, o Sábio pedia a ajuda de Huayna Capac e de todos os Sapa Incas, Chalkuchimac e Atahualpa... - E a mim, ele chamou? Pela primeira vez, o Anão hesita e sua voz desce de tom. - Ninguém ouviu seu nome, Único Senhor, mas, sem dúvida, foi porque ele morreu depressa demais para chamar a todos de que precisava. Depois dele, queimaram o general Tisoc... Katari leva Gabriel consigo, e Anamaya os vê desaparecer em meio à multidão no pátio. Na confusão provocada pelos nomes dos comandantes que o Anão vai recitando lentamente, eles passam despercebidos. - Eles queimaram Taipi e Tanqui Hualipa, Orco Huaranca e Atoc Suqui... O rosto de Manco não se move, não abandona o céu que a noite invade. Enquanto todos recebem o nome desses grandes guerreiros como um soco no estômago, Manco parece mergulhar em si mesmo e desaparecer. Mas Anamaya vê suas mãos que se retorcem e cerram o vazio. Sem saber para onde Katari o levou, ela se alegra que Gabriel tenha desaparecido. - ... e Ozcoc, e Curi Atao - continua o Anão, desencadeando ainda mais angústia, como se as estrelas se apagassem, uma a uma, na noite clara, deixando o mundo inteiro numa escuridão profunda e definitiva. - Villa Oma tinha razão - diz finalmente Manco. - Era preciso destruir essa raça antes que ela nos destruísse. Chalkuchimac também tinha razão. Muitas vezes eles estiveram enfraquecidos e nós não aproveitamos essas ocasiões... Acreditamos em ilusões, em falsos sinais, acreditamos em cometas e em pumas... Manco não olha para Anamaya, mas o ódio e a decepção são palpáveis em suas palavras. - Deixem-me sozinho - diz Manco baixando os olhos para eles. - Agora quero ficar só. Todos saem em meio a um caos de lanças, de escudos que se chocam, do ranger de sandálias e de vozes que se levantam e em seguida baixam. Só Anamaya fica. - Você também - diz Manco. - Eu nunca deixei você, sabe muito bem disso. - Houve um tempo em que eu acreditava que você estivesse comigo para construir o Império das Quatro Direções, e para torná-lo mais amplo que qualquer Inca já o tivesse feito. Acreditava, como meu pai tinha dito, como o Sábio havia se convencido, que você fosse um sinal vindo do lago das Origens para nos fazer ter esperança de alcançar a grandeza. Você não era nada disso e essas profecias que você carrega em silêncio não me trazem nada exceto humilhação e destruição. Vá embora! - Você não quis escutar a sabedoria e seguir o caminho, Manco, você deu ouvidos à sua cólera, exatamente como no primeiro dia, quando sua violência se desencadeava inutilmente contra Guaypar... - E agora Guaypar está morto, Villa Oma está morto, Tisoc está morto, minha querida Curi Ocllo está morta, todos eles estão mortos e eu também vou morrer. É esta a sua profecia, mulher vinda do Mundo de Baixo para me fazer sofrer? - Seu filho Titu Cusi está vivo e tantos outros que confiam em você... - Tantos outros? O braço de Manco descreve um círculo na noite e depois se detém sobre sua testa. Com um gesto seco, ele arranca a faixa que a cinge. - Meu poder é o poder desta pluma - diz ele, sacudindo-a com desprezo. - Um golpe de ar a carrega, um golpe de ar a enxota. Ele explode numa gargalhada seca de desdém. - Veja o que resta de meu poder... Manco levanta-se de um salto e se aproxima da jaula onde o filhote de puma dorme. Ele o observa em silêncio. Depois murmura: - Você precisa crescer para nos ajudar, não é verdade? Você não foi encontrado por acaso e, quem sabe?, você é um sinal... Ele tira a barra de madeira que fecha a jaula e agarra o animal adormecido. Com um único golpe seco, enterra seu tumi no coração do puma, antes de lhe os ir(A' partir as vértebras e lhe torcer o pescoço com uma raiva vinda do fundo de suas entranhas. Ele quebra cada uma das patas, arranca-lhe os olhos, rasga a garganta inerte e mostra as mãos cheias de carne e sangue. - Você ainda quer ficar comigo, amiga dos pumas? Anamaya está muda de horror, mas não obstante insiste: - Eu não devo abandonar você. Sim, quero ficar com você. - Não! Manco levanta em sua direção uma mão ensangüentada. Não há ameaça em seu gesto, mas ele marca a separação definitiva dos dois. Contudo, dominando seu desgosto, Anamaya se aproxima e toma esta mão entre as suas. - Eu vou porque você quer, mas você se lembrará de que nunca o abandonei. E se lembrará de que desde o primeiro dia, aquele em que seu Pai Huayna Capac me confiou seus segredos, tudo o que fiz foi obedecer... Manco se cala e tira a mão das mãos de Anamaya; ela não sabe nem se ele ouviu suas palavras, perdido em seu transe de solidão e violência. Sua voz parece vir do Mundo de Baixo quando ele repete: - Não. E enquanto Anamaya finalmente deixa o pátio molhado de chuva onde o sangue do puma escorre, misturado na poeira como uma lama avermelhada, reflete que toda vida de Manco, o rebelde, se desenrolou apenas para desabrochar naquela única palavra, pronunciada calmamente, e que vem do fundo de sua alma: não. Katari e Gabriel atravessaram rapidamente a cancha vazia, evitaram os grupos de soldados que patrulham o circuito e arredores da fortaleza e ganharam o caminho da floresta sem trocar uma palavra. Quando afinal estão ao abrigo das árvores e da noite, Gabriel interpela Katari: - O que você tem a me dizer? O Mestre das Pedras agita os longos cabelos negros. - Seu amigo Bartolomé chegou há três dias. Ele teve a prudência de não tentar vir para a fortaleza e enviar dois mensageiros para me prevenir. Nós o escondemos numa huaz a uma hora de marcha daqui. - Bartolomé... - Ele é um homem de grande instrução e sabedoria - prossegue Katari -, e nós falamos sobre as origens do mundo, de sua criação e também de suas estranhas criaturas, os homens... - Não me diga que ele atravessou a floresta para ter essa conversa com você! - Nós conversamos sobre o que era antes e sobre o que será depois. A ironia desaparece da voz de Gabriel. - Eu conheço o meu monge. Por maior que seja a amizade que tem por você, não se embrenhou na floresta até aqui sem um bom motivo... - Ele lhe dirá o motivo. A chuva agora afoga os ruídos do crepúsculo. - E Anamaya? - Era preciso afastá-lo dali antes que a cólera de Manco se voltasse contra você. Brevemente ela virá se juntar a nós com o Anão. Os dois homens progridem lentamente; apesar de a chuva ter parado, a água impregna toda a floresta e escorre sobre seus pescoços como um suor vindo do céu e das árvores. Uma clareira abre-se diante deles; no centro dela, alguns blocos de pedra rapidamente adelgaçados formam um muro ao redor de uma simples cabana de juncos. Com a aproximação deles, a silhueta familiar de Bartolomé surge emoldurada pela entrada. O monge de olhos cinzentos abraça Gabriel longamente. Ele parece trêmulo de febre. - Você não está nada bem, frei Bartolomé... - Não se preocupe comigo. Agora que o vejo, já estou muito melhor. Onde está ela? Ele se virou para Katari, que indica a direção da fortaleza invisível. - Ela chegará com o Anão assim que puder... Está bem - diz Bartolomé -, eu preciso dela. Os três homens observam por um instante o céu acima da clareira se encher de borboletas coloridas depois que o tempo limpou; nas ramagens, retia algazarra dos macacos misturada com os gritos dos pássaros e de duas araras, cujas penas de cores vibrantes reluzem em meio às folhagens. O monge observa Gabriel com amizade: - Você percorreu um longo caminho desde a última vez que o vi... A cólera praticamente desapareceu de seu rosto e você não parece mais um homem assombrado pelo diabo... - Então era assim tão grave? - O amor se apoderou de você, meu irmão. Eu falo do amor que nutre e que incendeia, do amor que dá e que compartilha... - Você fala do amor que eu conheço... Sentados em simples troncos de árvore dispostos diante da cabana, os três homens conversam em voz baixa em meio ao esplendor da noite que cai. Gabriel não se impacienta. De vez em quando, lança um olhar para a orla da floresta para ver se algum movimento das folhas não dissimula a chegada de Anamaya. A paz reina entre eles, paz entre três homens de origens tão diferentes e que escaparam da guerra que destrói os corações dos outros. Anamaya e o Anão finalmente aparecem à luz dos últimos raios do poente, enquanto Katari acende uma fogueira. Bartolomé a contempla com admiração e com respeito. - Eis que aqui estão vocês juntos - exclama, os olhos cinzentos brilhantes de febre -, e ao vê-los compreendo o que seus povos têm de grande e por que essa união, por uma via misteriosa, hoje se tornou mais importante que as destruições que sofreram... Anamaya aproxima-se de Gabriel e senta-se ao seu lado. Os dois jovens ficam de mãos dadas, em silêncio, sentindo a solenidade das palavras de Bartolomé, perguntando-se aonde ele quer chegar. - Você se lembra, Gabriel, que eu queria enviá-lo à Espanha para levar os documentos que diriam a verdade sobre esta conquista?... Há pouco tempo, tomei conhecimento de uma notícia que só pude compreender como um sinal divino... Um sorriso cruza o rosto fatigado do monge, como se a profundidade de sua própria fé fosse também, para ele, um sinal de zombaria. - O Imperador Carlos Quinto enviou para este país um juiz residente. Ele se chama Vaca de Castro e, até onde soube, é um homem de bem e amante da justiça. Ele está possivelmente no mar, neste momento, a caminho de Lima. Para nós é uma ocasião que, talvez, nunca mais se repetirá... Nós queríamos ir à Espanha e é a Espanha que vem a nós! - Como pode ter tanta certeza? - Eu sei, Gabriel. Ah, estou ouvindo muito bem em sua voz as dúvidas e a desconfiança e, creia-me, compartilho-as com você. Mas há sinais que não permitem enganos: na Espanha, o infame Hernando foi preso por seus crimes... - Certamente, não pelos que cometeu contra os índios! Pelo crime de ter assassinado Almagro! - Não importa. O tempo da impunidade acabou. Em toda parte, na Igreja, como também na Corte, as vozes se levantam para denunciar os excessos da conquista e reclamar justiça para esses povos! Gabriel suspira. - É preciso ter sua fé para acreditar nisso, frei Bartolomé. Para mim... - Esqueça minha fé em Deus e esqueça até mesmo minha fé na grandeza da alma da Espanha. Você não compartilha minha fé no homem? Não acha que esse homem deverá ouvir, quando chegar, algo além das divagações das duas partes obstinadas em se destruírem e em pilhar o máximo possível, enquanto restar uma onça de ouro ou de prata nesta terra? Gabriel levanta os braços para o céu. - Eu não sei... - Ouça o que ele diz! A vóz de Katari ressoa e o faz sobressaltar-se. - O que quer dizer, Mestre das Pedras? - Quero dizer que a voz dele está certa. Quero dizer que não podemos viver uma vida inteira na floresta, perseguidos como animais, inquietos diante do menor ruído nas folhas, ameaçados pela umidade e pela doença, à mercê de um bando hostil. Esta é a vida que Manco escolheu, mas talvez não seja a nossa. - E Anamaya? - pergunta Gabriel virando-se para a princesa. - Ela deve vir com você - afirma Bartolomé, buscando a aprovação de Katari. - Com você ela deve prestar testemunho de que os índios não são animais incultos, e sim seres humanos cuja história, religião, tradições e maneira de viver merecem nosso respeito e nossa proteção. - E se ela cair nas mãos deles? - acrescenta Gabriel com a voz trêmula. - Se o juiz residente não for este sábio e este santo, e sim um outro Gonzalo? E se lhes der na cabeça de fazer com ela o que fizeram com Curi Ocllo? - Há este risco - diz Anamaya tranqüilamente. - Como também existe o risco de que você venha a ser detido, encarcerado... Mas, apesar disso, Bartolomé e Katari têm razão: devemos tentar. - E o Irmão Duplo? Agora é a vez de Katari falar: - Se a Coya Cama quen quiser, eu cuidarei do Irmão Duplo e o prepararei para sua viagem... Gabriel observa-os um após o outro. - Exceto por Sebastian, vocês são as três pessoas nesta terra em quem confio mais do que confio em mim mesmo. De onde vem minha dúvida? - Nós também duvidamos - diz Bartobomé. - Não estou falando da certeza de obter resultados, mas da possibilidade, talvez mínima, de fundar um país. - Mais de cem luas se passaram desde a chegada de vocês - recorda Katari calmamente -, e é preciso ser cego para não ver que os estrangeiros estão aqui para ficar. Você pode aproveitar esta oportunidade para que as gerações futuras tenham um rosto como o seu e não o rosto odioso das crianças da destruição e da pilhagem... - E se fracassarmos? Ninguém responde, mas eles enfim ouvem a aquiescência na doçura do tom de Gabriel. - Eu irei - diz ele baixinho. Ele toma a mão de Anamaya e a aperta entre as suas. - Nós iremos, uma vez que vocês acreditam que este é o caminho que devemos seguir. Não darei ouvidos à sensação de perigo que tenho em meu íntimo. Será necessário rezar por nós, meu irmão... Bartolomé sorri. - Você está sempre presente em minhas preces, quer queira, quer não. Gabriel vira-se para Katari: - E você, Mestre das Pedras, não nos abandone... - Nós nos reencontraremos brevemente. - Como saberemos? - pergunta Anamaya. Katari tira de sua chuspa um cordão em que vai fazendo vários nós com os dedos fortes. Depois o estende para Anamaya. - Leve este quipu - diz em tom firme. - Quando chegar a hora, ele indicará onde estou. E a chave de pedra abrirá o espaço e o tempo para você. Eu também estarei unido a vocês, mesmo estando separado de vocês; fugirei enquanto vocês aparecerão, descerei enquanto vocês subirão. Mas juntos estaremos na eternidade do caminho de Viracocha. Agora, tratem de ir. Enquanto Katari retoma sozinho, sem nem sequer a ajuda de uma tocha, o caminho para Vitcos, Bartolomé, o Anão, Anamaya e Gabriel se embrenham na floresta para a viagem da esperança e da dúvida.

    Capítulo 30
    Lima, 24 de junho de 1541.

    Vindos do oceano enevoado, pássaros marinhos de longas asas brancas deslizam acima da cidade que nasce. Depois de ter girado em círculos sobre a grande praça e a catedral inacabada, eles se afastam em direção às ondulações verdejantes da costa lançando gritos estridentes. Anamaya levanta o rosto para observá-los. A suavidade do sol matinal acaricia-lhe a testa. Levantada pela brisa, a estranha mantilha que cobre seus cabelos cai em pregas delicadas sobre suas faces e lábios antes que ela a afaste com um gesto de surpresa. Dos pássaros às casas de Lima e até o oceano imenso que ela descobre pela primeira vez, tudo o que ela vê desde sua chegada a Lima a surpreende incessantemente. Do alto dos andaimes da catedral para onde Gabriel a levou, o plano da cidade aparece em sua inteireza. As casas construídas pelos estrangeiros são tão regularmente dispostas quanto as canchas dos incas. Rigorosamente do mesmo tamanho, elas desenham quadrados perfeitos. Aqui, seus tetos são de telhas. Planos, recobertos por uma espessa camada de greda, eles rodeiam pátios idênticos e orlam ruas retilíneas onde, ao longo do dia, os estrangeiros vão e vêm como se esta fosse sua única atividade. Do mesmo modo que a catedral ainda está sem campanário, a nave apressadamente recoberta por pranchas de madeira e palha à guisa de abóbada, a maioria das casas ainda não está bem concluída. Algumas não são mais que simples esboços feitos de pranchas e de ripas de telhado. Aqui ou ali, terrenos vagos servem de cercados para porcos ou aves domésticas e, às vezes, até mesmo para aquelas coisas estranhas que os estrangeiros chamam de "carruagens", espécies de caixas colocadas sobre quatro círculos de madeira onde eles sentam para serem puxados por seus cavalos! Uma única construção, separada da catedral pela grande praça, é maior que as outras. Suas paredes, revestidas com um reboco de argamassa absolutamente branco, cheias de sacadas de madeira e de persianas pintadas de azul, encerram dois pátios e um jardim frondoso do tamanho de uma casa. É a casa do Governador dom Francisco Pizarro. - Você se lembra daquela carta que enviei a Bartolomé para que ele lesse para você, na ocasião em que eu devia ir me juntar a Almagro a caminho do sul? - pergunta Gabriel a Anamaya, apertando-lhe as mãos entre as suas. - Isso faz... uns sete ou oito anos! Creio até que também estávamos em junho! Eu a escrevi aqui mesmo, pouco antes de anoitecer. O sol se afastava, já longe, sobre o oceano. Ainda não havia casas. Somente árvores carregadas de frutos. Algumas barracas e uma clareira de onde as crianças nos observavam com os olhos arregalados de espanto. Isto aqui se parecia com todas as imagens do paraíso que podíamos ter na cabeça. Com a mão estendida, ele indica o rio de águas amarelas que desemboca no mar e, mais distantes, os opulentos pomares; depois indica o lugar logo abaixo deles, ainda vazio. - Dom Francisco declarou muito solenemente: "Vai ser aqui!" No dia seguinte, bastou enfiar estacas na terra e decidir que aqui seria a praça, ali a igreja, ali adiante as casas e as ruas! Nada mais simples! Quatrocentos e cinqüenta pés de comprimento para cada quadrado contendo quatro casas e quarenta pés de largura para cada rua. E pronto: assim nasceu a capital do Peru! Na voz de Gabriel há uma mescla de orgulho e de amargura. Anamaya comenta com doçura: - E assim que se mostra o poder daquele que conquistou um país. O Unico Senhor Huayna Capac fez a mesma coisa em Quito depois de ter vencido os povos do Norte. Seus Poderosos Ancestrais fizeram o mesmo antes dele por toda parte no Império das Quatro Direções. Hoje em dia isso está acabado. Não nos cabe mais construir cidades. Ela diz isso sem tristeza aparente, e até mesmo com uma calma que deixa Gabriel incomodado. Ele a sente estremecer de repente, a despeito de o vento do mar estar cálido. - Você está com frio? - pergunta. - Não! - ela sorri. - Não, não é nada... Na verdade, não é o frio que a faz estremecer, mas o estranho silêncio que reina na cidade naquela manhã. Exceto pelos gritos dos pássaros, não há nenhum ruído, como se aquele dia estivesse prendendo o fôlego antes de gritar. Mal se vêem algumas silhuetas que passam na rua. Aqui e ali, o vento levanta pequenos turbilhões de poeira na praça vazia. Silêncios como esse. ela já ouviu. A cada vez eles anunciavam as chamas que arderiam no porvir. Involuntariamente, Anamaya se recorda das palavras do Único Senhor Huayna Capac: "Os estrangeiros conhecerão a miséria em seu triunfo..." Contudo, como Gabriel a observa com uma expressão preocupada, ela acrescenta com um sorriso bem-humorado: - É simplesmente porque não estou habituada a estas roupas! Há menos de uma semana, antes mesmo que eles entrassem em Lima e a despeito dos protestos de Gabriel, Bartolomé os obrigou a adotar trajes espanhóis. "Imagine só o que acontecerá se Anamaya entrar na cidade vestida como uma princesa inca? Em menos de uma hora, todos os senhores fidalgos estariam diante de seu nariz para interrogá-la sobre o que veio fazer aqui! Não seria necessário muito mais tempo para que os esbirros de dom Francisco lhe perguntassem onde está a estátua de ouro... Vestida à moda espanhola, com os cabelos cacheados e seus olhos azuis, ninguém pensará que é índia. Já há muitas jovens mulheres mestiças em Lima e que se apresentam muito bem assim. Aliás, o mesmo se aplica a você. Esqueceram-se de você. Trate de cuidar para que isto dure mais algum tempo..." - Essas malditas roupas - resmunga Gabriel, desabotoando a gola da camisa que perdeu o hábito de usar. - Parece realmente que vamos ter de vestir esses disfarces durante algum tempo. Ontem, as notícias não eram boas. Bartolomé ouviu dizer que o navio do juiz Vaca de Castro teria naufragado antes mesmo de chegar a Tumbez. - Isso quer dizer que ele não virá? - Por enquanto, isso não quer dizer absolutamente nada. Exceto que esta cidade me parece ainda mais doente que Bartolomé e que estou começando a me arrepender muito de ter atendido a seu pedido. Por um instante Gabriel escruta as casas ao redor da praça. Depois acrescenta, sacudindo a cabeça: - Não, estou enganado: a cidade não está doente! Ela está petrificada pelo ódio que agita os partidários dos Pizarro e os do falecido Almagro! Não agrada nada este silêncio, não me agrada nada esta praça vazia. Não gosto de star aqui e gosto menos ainda de ter trazido você comigo. E também não osto nada dessa doença que corrói Bartolomé. Poderia revelar-se contagiosa para você. Dizem que muitos índios têm morrido por causa das febres que nós trouxemos para cá. - Não estou correndo nenhum risco - garante Anamaya. - E, se ele aceitasse minha ajuda, eu saberia curar seu amigo. - Ora! Bartolomé tem a cabeça mais dura que uma bola do jogo de malha! A cada dia que passa, parece ir de mal a pior, mas não aceitará nada para se tratar exceto suas preces. Na verdade, eu nunca o vi ao mesmo tempo tão fraco e tão apaixonado por seu Deus. Nem mesmo quando chegou em frangalhos ao Titicaca. Se ele não estivesse assim tão febril, eu não ficaria aqui. - Precisamos fazer o que devemos fazer - replica Anamaya calmamente. - Eu sempre duvidei que pudéssemos fazer qualquer coisa! Mas antes que Anamaya possa responder, uma brusca lufada de brisa levanta a grande saia do vestido espanhol. Com um grito de surpresa, ela a abaia. Na falta de jeito de seu gesto, é seu xale que escorrega, levando junto a roupa. Uma gargalhada terna e brincalhona escapa dos lábios de Gabriel. Delicadamente ele a ajuda a repor em ordem suas roupas. Na verdade, a cada um dos olhares que dá para ela, não consegue se impedir de sentir-se perturbado por sua beleza. Sua elegância inata é realçada pelo vestido de seda e pregas largas que desenha a cintura fina, ao mesmo tempo que a blusa de cambraia de linho complementada pelo corpete de veludo revela a curva de seu busto. - Como você é bonita! - murmura, emocionado. - Em certos instantes, tenho a impressão de que nada poderá tocar em você, que sua beleza a protege e que ela me protege também! Mas, quando quer puxar Anamaya para junto de si, Gabriel contém o gesto. Um homem atravessa a praça em passo rápido. Um homem grande, com um modo de andar conhecido. Antes de entrar na sombra da catedral, ele se vira, como se temesse olhares indiscretos. Ainda que o chapéu lhe esconda o rosto e que uma velha capa de cor desbotada cubra seus ombros e esconda suas mãos, Gabriel não tem dúvida de sua identidade. Gabriel agarra a mão de Anamaya e a leva em direção à escada de madeira. - Venha! - exclama. - Parece que temos uma visita inesperada. - Sebastian de la Cruz! O grande chapéu se levanta. Sob os olhos de Sebastian as olheiras estão mais fundas e as rugas mais numerosas que no último encontro. Todavia, os olhos brilham com a mesma intensidade de sempre no alongado rosto negro. Calorosamente, as mãos fortes do antigo escravo abrem a capa e se estendem para Gabriel. - Santo Deus, então é verdade! Você está mesmo aqui... Nesse meio tempo, o abraço é tão forte quanto breve. O sorriso de boas- vindas quase que imediatamente cede lugar a uma expressão furiosa. - O diabo que o carregue! - fulmina Sebastian. - Você pode me dizer o que veio fazer aqui na boca do lobo? E, além disso, acompanhado de uma... Ele se cala subitamente, o olhar assombrado, só então reconhecendo Anamaya. - Deus do céu, é você! Perdoe-me, princesa, eu sou um idiota! - exclama rindo às gargalhadas e inclinando-se numa saudação galante. - Este disfarce a esconde perfeitamente! Eu a tomei por uma dessas caçadoras de ouro que têm chegado sem parar enchendo barcos. Eu me perguntava o que nosso amigo Gabriel estaria fazendo com uma mulher como essas! - Bartolomé quer que Anamaya se encontre com o juiz Vaca de Castro quando ele chegar... - explica Gabriel com um sorriso. - Pois bem, é provável que tenham de esperar muito tempo! - O que está querendo dizer? - Que o juiz chegará aqui quando o inferno gelar... Ora, mas que palavras pouco apropriadas para este recinto, dom Sebastian! A voz os faz virarem-se ao mesmo tempo que o "dom" arranca uma gargalhada de Sebastian. Com a mão apoiada na moldura da pequena porta da sacristia, Bartolomé está lívido, a testa reluzente, os olhos curiosamente dilatados. A cicatriz que lhe corta a face esquerda parece avermelhada como um ferro em brasa e estranhamente inchada. Todavia, quando Anamaya se aproxima, ele levanta a mão para impedi-la. - Estou bem, minha filha - protesta. - Minha aparência é enganadora. É assim todas as manhãs, mas, depois de algumas horas, a febre baixa. Preciso apenas ser paciente: logo chegará um dia em que será a vontade de Deus que ela se vá para sempre. - O senhor repete isso desde que deixamos as montanhas - insiste Anamaya com doçura. - Contudo, parece que seu Deus não o ouve. Tenho aqui comigo ervas que poderiam curá-lo em alguns dias e... - Silêncio - Bartolomé a interrompe, tomando a mão de Anamaya delicadamente para levá-la aos lábios, para surpresa de Gabriel e de Sebastian. - silêncio, não diga mais nada, Coya Camaquen... Eu sei do que é capaz, pois já a vi em ação. Mas está numa casa onde é melhor esquecer essas coisas. Ele se persigna com uma pequena risadinha que desencadeia um ataque e tosse. Quando recupera o fôlego, Bartolomé agita a mão na direção de Sebastian. - Vamos esquecer isso! Dom Sebastian parece ter notícias mais urgentes nos relatar... O que sabe da vinda do juiz de Castro? - Que ele não vem mais porque morreu afogado! - Pelo sangue de Cristo! Isto foi confirmado? - Se é verdade ou mentira, é dificil dizer! Durante três horas na noite passada, dom Juan Herrada nos assegurou que o naufrágio do juiz Vaca de Castro não havia sido um infortúnio acidental no mar. Segundo ele, as ondas e as correntezas não tiveram nada a ver com isso. Teria sido um barco do governador que o teria posto a pique. - Ele tem prova disso? - pergunta Gabriel. - Não estamos mais em situação de precisar de provas, Gabriel. Aliás, circula na cidade um outro boato que afirma que o barco do juiz teria sido avariado no Panamá para que jamais alcançasse o Peru. Esta manhã, todos estão convencidos de que o juiz está morto e que em conseqüência disso a rania dos Pizarro não terá fim enquanto o Governador estiver vivo. - Desse modo - concorda Bartolomé deslizando um dedo descarnado sobre a cicatriz -, dom Herrada atiça as brasas sob as cinzas, sabendo muito bem para onde irão as chamas de seu fogo! - Quer dizer que Herrada e seus asseclas estão pensando em assassinar Lom Francisco? - indaga Gabriel. - Neste momento, não se trata apenas de estar pensando, é uma decisão. - Seja prudente, dom Sebastian - murmura Bartolomé tornando a brir a porta às suas costas. - Sua voz pode ser ouvida de longe e, nesta igreja inacabada, as paredes quase não impedem a passagem das palavras. Vamos para minha cela. - Você pode me dizer o que está fazendo aqui? - pergunta Gabriel, enquanto eles atravessam a sacristia e se dirigem para o pequeno apartamento de Bartolomé. - Ah - resmunga Sebastian -, estou fazendo papel de imbecil, exatamente como você. Há uns três meses, achei que estava farto deste país e sobretudo de seus habitantes... Sebastian toca de leve no ombro de Anamaya que caminha entre eles, para explicar com um sorriso irônico: - Quero dizer, os habitantes espanhóis. Aqueles cuja pele é bem branca a despeito do sol das montanhas! Quer sejam do clã do Governador ou estejam com o filho de Almagro, não me agrada nem um pouco o que fazem com o Peru. Posso muito bem agora ser um "negro" livre e rico, mas meus olhos continuam vendo. E o que eles me mostram são navios inteiros de escravos que são desembarcados aqui para serem vendidos pela metade do preço de um porco ou de uma mula. Com a idéia de voltar a me instalar no Panamá, vendi minha casa em Cuzco. Por um bom preço, devo dizer: muito ouro bem brilhante. Que já me serviu para comprar um belo barco para empilhar meus tesouros... - Panamá? - espanta-se Anamaya. - Onde fica? - Mais para o norte, Princesa. É o país que me viu nascer e onde soubemos da existência do seu. Mas isso dependerá de como correrem as coisas. Quem sabe? Pode ser que o Panamá se revele tão inviável quanto Lima e que eu, também, tenha de descobrir um país! A gargalhada de Sebastian soa um pouco estridente e a emoção faz seus olhos brilharem mais do que ele gostaria. - Por que você ainda não partiu? - pergunta Gabriel. Ah! Isto é uma outra história. Minha caravela está ancorada a trezentas e sessenta braças do porto. Só que faz oito semanas que dom Francisco recusa permissão para que os barcos dos partidários de Almagro façam-se ao mar. Ele receia que corram ao encontro do juiz de Castro. E eu, por mais que tenha me mantido reservado com dom Herrada e o filho de Almagro, para os Pizarro serei para sempre "o negro do Zarolho"... Quanto aos almagristas, esses não perdem uma oportunidade para me mostrar que pertenço a eles. - O que está querendo dizer? A única resposta de Sebastian é um suspiro de cortar o coração. Com o olhar, ele segue Anamaya, que desaparece por uma pequena porta lateral com um farfalhar de tecido. - Por um instante - murmura com um sorriso para Gabriel -, seria de se lamentar que ela não esteja sempre vestida assim! A moda da Espanha lhe cai como uma luva! - Dom Sebastian - intervém Bartolomé com rudeza, empurrando-o para dentro de seu pequeno aposento de estudos -, agora estamos ao abrigo de ouvidos indiscretos. Falaremos a respeito da moda mais tarde! Tem certeza de que querem acabar com dom Francisco? - Dom Herrada não está sozinho atiçando os espíritos. As armas estão prontas há dois dias. Até mesmo o instante adequado já foi escolhido. - E quando será? - Daqui a pouco, quando o Governador atravessar a praça para vir aqui. - Antes da missa? - Herrada deseja que o Governador, a despeito de sua devoção, assuma mais rápido possível seu lugar no inferno! Em sua opinião, não lhe deve ser dada a oportunidade de se arrepender durante a missa. Bartolomé sacode a cabeça com um suspiro que parece esvaziá-lo de suas últimas forças. Com um queixume abafado, deixa-se cair numa cadeira alta. Com as pálpebras fechadas, murmura: - O que posso fazer? Dom Francisco sabe que tenho algum interesse na vinda do juiz. Ele me censura até mesmo o fato de seu irmão Hernando ter cido preso! Eu bem que gostaria de avisá-lo do complô, mas ele jamais me ouviria. Pelo contrário, desconfiaria de sei lá que tipo de armadilha. - Se me perdoa, frei Bartolomé, há uma pessoa que pode prevenir o governador e que teria até mesmo grande interesse em fazê-lo! Num movimento quase que simultâneo, os olhos de Sebastian e de Bartolomé viram-se para Gabriel. - Não - protesta Gabriel com furor, levantando as mãos diante do peito. - Gabriel... - Não, Bartolomé! Essas brigas entre assassinos não me interessam mais. Na época em que eu encontrava desculpas para dom Francisco já se acabou há muito tempo. Nem o que aconteceu nesses últimos meses nem a morte horrível de Curi Ocllo que poderão me fazer revogar minha decisão! Com a mão direita, Sebastian agarra a camisa aberta de Gabriel. - Por que acha que estou aqui, Gabriel? Seu nome foi mencionado esta noite na casa de Almagro. Herrada e os outros souberam que você está aqui, nesta igreja. Alguém deve ter visto e reconhecido você. E sabe a que conclusão eles chegaram? Como Gabriel, com o semblante fechado, não responde, Sebastian o larga e martela suas frases batendo com o indicador no peito de seu amigo. - Que dom Francisco, sentindo-se em perigo, o havia chamado para socorrê-lo. Você, o fiel dos primeiros tempos da conquista! Aquele que por tanto tempo ele chamou de seu "filho"! Gabriel de Montelucar y Flores, "o Santiago" do cerco de Cuzco! Tem alguma idéia de como você os faz borrarem-se de medo? - Eles são malucos! - Não. Estão furiosos e estão com medo. Vêem ameaças e armadilhas até no vôo de uma mosca! E nem sempre sem motivo. - Ele tem razão no que diz, Gabriel... - É claro que tenho razão, frei Bartolomé. E o que vai acontecer, amigo Gabriel, é que se não tratar de se mexer para pôr o Governador em guarda, eles matarão você junto com ele. A menos que cuidem de apanhar você primeiro, para estarem mais seguros! O ranger de um gonzo e um farfalhar de tecido os sobressaltam. Trazendo uma tigela de líquido quente com uma estranha cor marrom, Anamaya retorna ao aposento e dirige-se para o monge. - É preciso que tome isto - diz ela, oferecendo-lhe a bebida com um grande sorriso. - Seu Deus não poderia ficar aborrecido por isso. Não há nada aí dentro que ele próprio não tenha criado... - Vejo com prazer que as primeiras lições cristãs não lhe são desconhecidas... Um esgar travesso repuxa os lábios ressecados de Bartolomé. Sua mão está pronta para afastar a tigela de madeira mas, com um pequeno dar de ombros, ele a aceita. - Já que insiste tanto - murmura. Quando ele começa a beber, Anamaya vira-se para Gabriel. - Sebastian tem razão. Você deve ir avisar o Governador. - Anamaya - protesta Gabriel -, eu acabei de dizer a você: a única coisa inteligente que poderíamos fazer é deixar Lima imediatamente! - Não. Cada coisa que é iniciada deve primeiro ser concluída. Depois, poderemos partir para as montanhas. Gabriel continua com a expressão sombria, contraída, e Sebastian inclina-se para ele, a voz grave e baixa. - Eu suplico que faça isso, meu amigo. Gabriel tem um sobressalto diante da solenidade do tom. - Eu disse a você - prossegue Sebastian - que eles estavam me pressionando, me atormentando... Herrada me deu a entender que eu poderia esquecer meu barco se não estivesse com eles, daqui a pouco, de espada em punho... - Está bem - diz Gabriel simplesmente -, eu vou. É preciso muita insistência para que a porta do palácio do governador se abra diante de Gabriel. Somente depois de ter anunciado seu nome completo, "Sou Gabriel Montelucar y Flores!", seguindo-se uma nova espera, é que o pesado batente guarnecido de pregos gira em volta do eixo. Acima das librés vermelho-sangue, dois rostos de pequenos camponeses o examinam com circunspeção antes de lhe dar passagem. - O Senhor Marquês o espera no jardim - anuncia o pajem mais jovem. Quando entra no pátio, Gabriel descobre acima, na galeria, outros rostos o escrutam. Reconhece alguns, velhos companheiros de Cajamarca ou cortesãos mais recentes, vistos de relance em Cuzco. Da mesma forma que eles, não leva a mão ao chapéu para saudá-los. Com o salto de suas botas estalando sobre os seixos redondos que revestem o pátio, ele envereda por um corredor seguindo atrás do pajem. No instante em que se abre a porta baixa do jardim, ele o vê. Talvez os ombros estejam um pouco mais curvados, mas a silhueta alta continua empertigada sob a veste comprida, de tecido negro, que desce até os calcanhares. Um cinto cravejado de ouro, de onde pende a bainha de prata de um punhal, marca-lhe a cintura. Seu chapéu de feltro é de um branco tão imaculado quanto o das botinas de couro de cabrito. Virando-se de costas para Gabriel, ele estende a mão com um regador de cobre e, com delicadeza, deixa correr um filete de água para um pé de figueira ainda pequeno. A idade avançada desenhou grandes manchas marrons sobre suas mãos, ligeiramente deformadas pelo reumatismo. A voz continua idêntica, um pouco áspera, mas com uma ponta de ternura quando ele declara, sem se virar, sem nem sequer saudá-lo: - Eis aqui a primeira figueira plantada neste país. Todos os dias, eu venho dar-lhe de beber e digo-lhe algumas palavras... Você sabe que as plantas gostam que conversemos com elas quando estão crescendo? - Dom Francisco - responde Gabriel secamente -, os homens de Almagro decidiram matá-lo daqui a pouco, quando estiver entrando na catedral. Francisco Pizarro não se sobressalta; nem seus ombros nem suas mãos revelam que tenha ouvido as palavras de Gabriel. O mesmo filete de água clara continua a correr, com a mesma regularidade, para o pé da figueira, abrindo um sulco na terra fofa. - Governador, o senhor ouviu o que acabei de dizer? - pergunta Gabriel, a voz mais áspera. - Durante a noite inteira, dom Herrada atiçou a revolta entre os homens de suas tropas. Eles estão de espada em punho. O filete de água pára de correr. Um ruído de persianas batendo soa em um dos lados do jardim. Ali Gabriel percebe rostos que se apertam e estudam cada um dos movimentos deles. Mas dom Francisco finalmente se vira e pousa nele os olhos desbotados, de pupilas tão pequeninas quanto a ponta de um estilete, e nos quais Gabriel tantas vezes procurou em vão o brilho da verdade. Ainda que aparada com cuidado, a barba, já toda branca, não mais esconde as rugas. Quando a boca se abre num sorriso, mostra apenas três dentes estragados em gengivas tão rosadas quanto as de um bebê. - Agora - diz ele com doçura -, não me chamam mais de "Governador", e sim de "Senhor Marquês". - Por Deus, dom Francisco, pare com essas afetações. Duzentos homens decidiram matá-lo! - Besteira! - O senhor sabe muito bem que não é! Metade dos espanhóis deste país o odeia e ruge de cólera contra o senhor. - Eles não têm nenhum motivo para estar com raiva! Não passa de maldade e de traição. - Eles têm bons motivos, dom Francisco! - irrita-se Gabriel, levantando a voz. - E o senhor sabe muito bem disso! - Por quê? Não sou bom como um pai para todo mundo? Você sabe o que eu faço quando vejo um ou outro em estado de indigência? Eu o convido para vir jogar malha! - Dom Francisco... - Escute-me, Gabriel! Eu o convido para vir jogar malha. Uma partida a dez pesos. Às vezes mais. O dobro, se ele puder. Às vezes, se o homem tiver um nome conhecido ou um título, uma moeda de ouro. E eu perco... Demoro um pouco a perder porque gosto de jogar, mas perco. Você vê, assim o pobre não é mais pobre e eu respeitei sua honra não lhe dando uma esmola. Falam mal de mim e não querem me deixar em paz. Não tenho outras preocupações senão o bem de todos e no entanto fazem correr mentiras a meu respeito, distorcem minhas palavras e me traem! - Aceite que os barcos dos homens de Almagro partam e ficará em paz. - Por que motivo você veio me dizer todas essas coisas, filho? E vestido como um bom espanhol, que você é... - Não estou em Lima por sua causa, Governador. Estou aqui para encontrar o juiz da Coroa. -Ah? - Mas parece que o senhor o afogou. - Mentira! Mais uma mentira... Eu sugeri que ele viesse para cá em um de meus galeões e ele preferiu um barco em más condições. Mas vai chegar. Não se afogou, absolutamente. O que você quer dizer a ele? - Que está na hora de oferecer aos índios deste país o respeito que se deve aos seres humanos. Eu direi que eles são homens exatamente como nós e que o papa tem a mesma opinião. - Você conhece a opinião do papa? - E a sua? Eu direi a ele que o senhor e seus irmãos fizeram sofrer centenas, milhares de inocentes. - E você, não? - Sim, eu também, estupidamente, cumprindo a sua vontade. Tornando-me cego até que os gritos e os horrores que espalhávamos por toda parte me abriram os olhos definitivamente! - Neste caso, meu amigo, deveria dizer a ele como você e eu tivemos de lutar contra esses selvagens para fazer deste país uma terra cristã! Você dirá a ele como a Santíssima Virgem com o Menino e a Rosa mil vezes afastou de nós os perigos e que, se não fosse pela vontade da Virgem, nada poderia ter sido realizado. Você dirá a ele como, em Cajamarca, nada mais fomos que o instrumento de Deus Todo-poderoso! - Não, dom Francisco. - Então você vai mentir como os outros! Você que foi o escolhido de Deus mais que qualquer outro: está esquecendo como Ele protegeu você durante o cerco de Cuzco? - Eu desconheço quem me protegeu. - Você nos renega! - vocifera Pizarro subitamente, agitando seu regador. - A Deus e a mim, você ousa nos renegar! Eu, que conduzi você até aqui! Eu, que lhe dei um nome quando você não passava de um piolho na superfície do mundo! - O senhor fala de uma história que não me agrada recordar nem repetir, dom Francisco. Estes senhores que nos escutam, debruçados nas janelas de sua casa e que o cobrem de elogios todos os dias, se encarregarão muito bem de fazê-lo. Eu serei totalmente incapaz de cantar esta sua ladainha: guardo nos olhos e no coração demasiadas lembranças más que o senhor nunca quis apagar. Demasiados sofrimentos que o senhor jamais amenizou. Quando foi o senhor quem os causou! - Você também está com raiva de mim, meu filho? - Esta palavra não significa mais nada entre nós, Senhor Marquês. Além do que, ela agora é inútil. Já faz muito tempo que me habituei a não ter mais pai. - E, no entanto, você se preocupa comigo. Não quer que eu morra, está pronto para puxar a espada para me defender! - Eu não disse isso. Não lutarei pelo senhor. Eu só vim avisá-lo porque sua morte teria boa chance de causar a minha e ainda tenho muitas coisas a fazer antes de deixar este mundo. - Ora! Mas o que você tem de tão importante a fazer? A amargura do tom, a ironia de dom Francisco surpreendem Gabriel e, de repente, fazem com que ele recupere a calma. Ele sorri e se afasta com um passo atrás. - Na verdade, Senhor Marquês, receio que me seria impossível explicar. Isto nos tomaria, ao senhor e a mim, tanto tempo quanto viver uma nova vida. O semblante de dom Francisco se fecha como a porta de um casebre muito velho e solitário. Suas rugas se tornam mais acentuadas e os olhos não exprimem mais nada, exceto um longínquo desdém. - Vou mandar rezar a missa aqui, em meus aposentos - anuncia numa voz indiferente. - Veremos se Herrada e seus indigentes desocupados ousarão vir me procurar aqui! E você, enquanto eu estiver rezando,


    poderá beber um pouco do suco de minhas laranjas. São as primeiras que colhi neste país.  - Não estou com sede, dom Francisco.  O marquês aproxima sua mão do ombro de Gabriel, naquele gesto tantas vezes repetido e com o qual assinala para ele uma forma de amizade, acompanhada de uma exigência  de submissão. Mas alguma coisa nova, calma e decidida nos olhos de Gabriel interrompe seu movimento.  Ele fica parado assim, a mão suspensa no ar, os olhos negros escrutando desesperadamente os de seu querido "filho". Um por um, os dedos se dobram.  - Será como você quiser - diz finalmente com uma voz abafada.  Sua impotência comove Gabriel mais que todas as palavras que foram ditas.  - Tenha cuidado para não morrer...  O vestígio de fraqueza e de dúvida que pareceram sobrecarregar e abater o marquês desaparece. É com o corpo empertigado, a voz firme, que ele exclama com arrogância:  - Um homem como eu não morre.  "Viva o rei! Viva o rei! Morte ao tirano!"  De início, eles não são mais que trinta a surgir de uma ruela e avançar sobre a praça diante da catedral. Do alto do andaime para onde levou Bartolomé, Anamaya mal  vê suas feições, mas a excitação deles faz vibrar a atmosfera cada vez mais úmida de Lima.  Mais uma vez eles gritam: "Viva o Rei! Viva o Rei! Morte ao tirano!" Com frenesi, agitam todo tipo de armas, bestas e alabardas, espadas e azagaias e até mesmo dois  arcabuzes!  - Eles estão loucos - murmura Bartolomé, quase que involuntariamente apertando o braço de Anamaya. - Será que eles querem travar uma batalha de fileiras?  Tentando localizar a silhueta de gigante de Sebastian, Anamaya não responde imediatamente. Mas antes que ela consiga fazê-lo, um imenso clamor faz vibrar até as  pranchas de madeira do andaime. Das ruelas vazias um instante antes, das casas sem vida cercando a praça surgem inesperadamente duzentos ou trezentos homens, a maioria  a cavalo, de couraça e cota de malha cobrindo o peito, a boca aberta aos berros.  - Doce Jesus - exclama Bartolomé, lívido e com a testa banhada de suor.  - Eles têm medo do Governador a este ponto - pergunta Anamaya -, que precisam ser tão numerosos para matá-lo?  - Certamente, eles têm medo de dom Francisco. Mas temem muito mais ainda Gabriel e seus sortilégios de "Santiago de Cuzco"!  Anamaya não consegue conter um gesto de zombaria que surpreende Bartolomé.  - Isto a faz sorrir, Coya Cama quen? - resmunga com uma ponta de humor. - Acho que está muito calma!  Um novo clamor segue o tiro de festim de um arcabuz e lhe corta a palavra. Bartolomé tem quase de gritar para se fazer ouvir.  - Olhe para eles! Dentro de uma hora, se continuarem no compasso em que vão, Pizarro estará morto e talvez também Gabriel. Esta é toda a inquietação que isso lhe  provoca?  - Acalme-se, amigo Bartolomé. Gabriel não vai morrer.  - Como pode ter tanta certeza?  A raiva exaltou as feições de Bartolomé. Mas, quando seu olhar encontra os olhos de Anamaya, sabe imediatamente que ela tem razão e que jamais poderá compreender  de onde lhe vêm aquele conhecimento e aquela certeza.  Como se entregando-se a um gesto de desespero, ele fecha os olhos e se persigna com fervor enquanto, na praça, o mar dos revoltosos, de repente, se lança contra  a casa de dom Francisco Pizarro.  - Peguem as armas! Peguem as armas! Eles vão forçar a porta para matar o Senhor Marquês!  O grito do pajem ressoa em toda a enorme construção e cria pânico no pátio. Do alto da galeria, Gabriel vê os cortesãos se esbarrarem uns contra os outros, procurando  mais tentar fugir que empunhar a espada. No mesmo instante, um punho de fero agarra seu braço e o puxa para trás. Quando ele se vira, o rosto de dom Francisco está  tão próximo do seu que poderia contar as rugas finas que saem dos olhos e desaparecem na barba.  - Siga-me até meu quarto. Você pode pelo menos me ajudar a vestir a couraça! Você vai ver que daqui a pouco nós não seremos muitos!  De fato, são três ou quatro que se encontram com dom Francisco no quarto dos fundos que forma um dos cantos da construção e que possui a vantagem de ter apenas uma  única saída.  - Mantenham-se diante da porta - ordena Pizarro a dois Senhores que já estão com a adaga numa das mãos e a espada na outra.  Tirando sua longa capa de feltro de lã, ele acrescenta para o pajem que não o deixou um instante:  - Você, meu bom Diego, observe bem o que acontece e conte-me!  Quando abre o baú contendo sua velha couraça embrulhada num lençol de algodão, seu olhar encontra o de Gabriel e parece mesmo, por um instante, que ele sorri.  - Senhor, senhor - exclama o pajem -, está feito! Eles destruíram a porta e agora estão no primeiro pátio!  - Quantos?  - Dez... Não, catorze. Talvez quinze. Estão se movendo e não consigo Dontá-los.  - Os covardes! Você ouviu isto, Gabriel? Eles são duzentos lá fora, na praça, mas só quinze ousam entrar. Faltam-lhes os colhões!  - Senhor! O tenente Velasquez e o secretário Salcedo ficaram com medo pularam para o jardim pela janela...  - Ah! Aí estão outros que têm asas entre as pernas!  O rugido de dom Francisco é quase uma gargalhada.  - Em nome do céu, Gabriel, desamarre estas tiras de pano enquanto visto minha cota. Eles vão ver o que é me assassinar!  - Senhor, dom Herrada e seus homens estão na escada do segundo pátio. Estão lutando e... Ah, senhor, dom Hurtado e dom Lozano estão feridos!  - Tudo isso está andando muito depressa. Feche as portas da galeria e ponha três homens diante de cada uma!  - Senhor Marquês, isso não é possível. Muitos dos nossos senhores estão escondidos debaixo das camas e dos aparadores!  - Com os cueiros borrados de medo! Eles que comam poeira e sua rópria bílis... Gabriel, meu garoto, aperte! Aperte bem!  Gabriel aperta as correias de couro que unem o plastrão e as costas da couraça. Com um desgosto crescente e, ao mesmo tempo, com uma calma que o deixa espantado  consigo mesmo, tem a impressão de que está enclausurando o velho vociferante dentro de seu próprio túmulo de aço enquanto os clamores dos combates ressoam cada vez  mais próximos.  - Ah, Senhor Marquês, o senhor Chavez vai ser morto! Eles estão lhe enfiando duas facas no pescoço! Senhor! Estão matando! Matando!  - Os cães! No pescoço, dez contra um! Os velhacos! Que vergonha!  Os gritos e insultos aumentam de repente e com um só golpe o batente da porta se abre quicando contra a parede. Sem uma palavra, com a garganta cortada, o pajem  fiel cambaleia, cai para trás e não se levanta mais. Por um breve segundo, todos ficam imóveis, a respiração arquejante e os olhos arregalados. Então o brado de  "Morte ao tirano!" ecoa contra o peito de ferro do Governador.  Por reflexo, Gabriel saltou a seu lado, de espada em punho, embora tivesse prometido a si mesmo deixá-la embainhada. Mas o quarto está tomado por um turbilhão caótico.  O entrechocar das armas, os gritos, o ranger de dentes e o fedor de hálitos furiosos giram loucamente. Quase não lhe dão atenção, enquanto  dom Francisco se defende como se o demônio tivesse se transformado em homem. Equilibrando uma azagaia na mão esquerda enquanto na direita sua espada voa, apara golpes  e corta, ele não tem mais idade nem fraqueza. Mesmo sua barba parece feita de um metal cortante. Seus rugidos e seu furor repelem os conjurados, cujos golpes enfraquecem.  - Que morra o tirano! - grita então dom Herrada, muito pálido, empurrando seus homens à sua frente.  - Traidores! Bufões! Excrementos do diabo! - replica dom Francisco.  E então, de repente, outros conjurados se engolfam no aposento e Gabriel descobre a silhueta alta de Sebastian, desajeitada e pesadona, na confusão da batalha.  - Sebastian! Não fique aí! - grita. - Deixe que eles lutem!  Com um giro pesado, Sebastian afasta a azagaia de Pizarro, mas seu braço recebe o golpe de um dos últimos defensores do Governador. Com uma careta de dor, o sangue  já jorrando da manga, ele se vira para Gabriel que se aproxima. Enquanto isso, antes que Sebastian possa se juntar a ele, como se adivinhasse sua intenção, as duas  mãos de dom Herrada agarram as costas de Sebastian e o empurram para a espada assassina de dom Francisco.  - Sebastian!  A lâmina de Gabriel sibila para desviar a de dom Francisco. Mas o punho do Governador golpeou com toda a força. A espada que tantas vezes cortou e combateu encontra  um caminho na parte inferior da cota de malha de Sebastian. Ela penetra com tanta facilidade que dom Francisco por pouco não esbarra contra seu peito enquanto o  gigante negro geme baixinho.  E tudo acontece ao mesmo tempo. Enquanto Sebastian desaba no chão levando consigo a espada de dom Francisco, a surpresa, por um segundo, imobiliza o Governador.  Com um berro em uníssono, dez punhos armados com adagas se abatem sobre ele.  - Mata! Mata! Mata! Morte ao tirano!  Agarrando-o pelo ombro, com dificuldade Gabriel consegue puxar Sebastian para trás. Enquanto tira a lâmina de suas entranhas, a dois passos dele, dom Francisco Pizarro  desaba no assoalho, a boca desdentada aberta num longo grito silencioso. É é apenas um sussurro, misturado com sangue, que escapa de seus lábios.  - A confissão! Por piedade, a confissão! Por piedade, que eu possa mais uma vez beijar a imagem da Santíssima Virgem da Rosa!  Gabriel percebe sob suas mãos os sobressaltos de agonia de Sebastian.  - Agüente firme! - suplica, comprimindo o ferimento aberto com a mão, reparando com indiferença que a lâmina da espada deslizou sobre a alma de sua mão, fazendo  um grande talho. - Não se deixe morrer, Sebastian, Anamaya vai curar você.  - Deixe, Gabriel. Assim está bem.  As mãos de Sebastian se apóiam sobre a de seu amigo, ele sorri enquanto  o olhar vacila até o rosto destruído do governador. Com um derradeiro gesto  e ferocidade, em resposta à súplica de dom Francisco, um dos assassinos acaba  de arrebentar contra seu rosto uma moringa, rasgando-lhe ao mesmo tempo a  boca e as preces.  - Ele já está morto - arqueja Sebastian. - E eu, finalmente, vou deixar de ser um escravo.  - Espere, espere...  As palavras se precipitam na boca de Gabriel ao mesmo tempo que ele semte a mistura de suor e lágrimas lhe escorrer pelo rosto.  - Ainda quero pedir uma coisa, Sebastian.  - Eu conheço você, Sua Graça... Você quer ganhar tempo...  - Eu juro que preciso de você!  - Você sempre teve a tendência de choramingar na hora de dizer adeus, Gabriel. Cale-se e aperte minha mão.  E enquanto os olhos de seu amigo se fecham, enquanto o navio o leva rumo à libertação final, Gabriel não larga sua mão.  A bruma tenaz e úmida que vem do oceano cobre a costa e os rochedos de ocre que nela desenham meandros. Ela também luta contra o sol duro que calcina a imensidão  do deserto ao norte de Lima.  Bastaram três horas no lombo de cavalos e mulas para que eles vissem  lhesaparecer a opulência verde da cidade e a loucura que dela se apoderou depois  da morte de dom Francisco Pizarro. Os gritos de ódio transformaram-se em  rândolas dementes de vinganças a serem satisfeitas. O corpo todo esfaqueado  o velho Governador foi carregado e exibido na grande praça como se fosse  um lenço onde se pudessem enxugar os velhos rancores e os temores de tantos os selvagens.  Enquanto a pilhagem da casa dos Pizarro desencadeava gargalhadas, Bartolomé imediatamente pressionou Gabriel para fugir da cidade antes que dom errada o aprisionasse.  - Primeiro eu quero enterrar Sebastian! - protestou Gabriel, os olhos vermelhos.  - Impossível, eles não vão permitir que tenha tempo para isso. Você é o último de quem eles ainda têm medo. Não pense que vão se esquecer de você, assim, com essa  facilidade.  Foi Anamaya quem propôs que deixassem a cidade levando o cadáver do antigo escravo negro.  - E por que não? - argumentou Bartolomé com um dar de ombros.  - Eu consagrarei um quadrado de terra e ele não terá menos paz enterrado nele que aqui.  E agora eles estão no local, diante de uma cova escavada entre duas protuberâncias de rocha, semelhantes aos braços acolhedores de um gigante. Uma cruz, da altura  de um homem, feita com dois pedaços de madeira flutuante trazida pela corrente, estende sua sombra sobre o lençol de terra poeirenta. Ajoelhado, Bartolomé murmura  a prece que não sobe aos lábios de Gabriel.  Com a mão boa apertando com força a mão de Anamaya, abraçada a ele, Gabriel deixa que as lembranças o invadam como uma revoada de pássaros tristes. Há o primeiro  sorriso, em Sevilha, na estalagem Ao Pichel Livre, e as primeiras palavras de amizade: "Nós descobrimos um país novo." Há Sebastian que repete: "Não se esqueça nunca,  amigo, que sou negro e escravo. Mesmo que façam de conta que não, eu nunca serei outra coisa!' Há Sebastian apertando o garrote que mata Atahualpa. Sebastian que  o salva, que o protege, faz troça, mas que jamais deixa de ser fiel. Até em sua derradeira hora!  - Aqui, ele ficará bem - diz Bartolomé baixinho, levantando-se e olhando para Anamaya, como se não ousasse encontrar o olhar de Gabriel. - Foi mais uma de suas boas  idéias, Princesa.  - É verdade - concorda Gabriel com um esgar de amargura. - Para um homem que sempre viveu como uma sombra dos outros, aqui está ele, definitivamente descartado,  sozinho! Neste momento, Herrada e seus asseclas já devem ter-se apropriado de seu barco. Dentro de alguns dias, Sebastian estará tão apagado de seus espíritos que,  para eles, será como se nunca tivesse vivido...  A cólera faz tremer seus lábios. Bartolomé o fita com seus olhos cinzentos.  - Eu não esquecerei nunca que o batizei - murmura.  - Batizou? - espanta-se Gabriel. - Sebastian?  - Sim. Um pouco antes de partir de Cuzco, foi ele que me pediu... Fique tranqüilo, eu nunca o interroguei muito profundamente sobre sua fé. Digamos que ele quisesse  ser... tranqüilizado.  Bartolomé fecha a mão com os dedos colados sobre as mãos enlaçadas de Gabriel e Anamaya.  - Mas o batizei com o mesmo amor com que casei vocês.  Gabriel se sobressalta.  - Não me lembro de nenhuma cerimônia, frei Bartolomé.  - Não fique agitado, meu amigo. Não fui eu quem primeiro incentivou rocê a se aproximar dela? E não fui eu quem veio buscar vocês no coração da floresta, Anamaya  e você?... Naquele dia, eu casei vocês em meu coração e tenho certeza de ter compartilhado os ritos com meu amigo Katari. As palavras, por vezes, nos separaram,  Gabriel, mas não quero deixá-los sem dar a rocês minha amizade e um amor não só divino como humano, como você preferir. Você o aceita? Vocês o aceitam?  - Obrigada - diz Anamaya com simplicidade, enquanto Gabriel baixa a cabeça em assentimento com gravidade.  - Não, Coya Cama quen. Eu é que devo a você um obrigado. Bem mais lo que possa imaginar! Sem você, eu sei que a vergonha e o sofrimento de odos, hoje, seriam ainda  maiores. Eu nunca a esquecerei. E quando falar com ) juiz de Castro, quando estiver em Toledo para defender a causa de vocês e a lo Peru, será seu rosto que sempre  terei diante dos olhos.  Por um instante, unidos tanto por uma mesma emoção quanto pelos dedos das mãos que se estreitam, eles se calam. O calor do deserto e o ruído próximo do bater das  ondas do mar os envolvem, ao mesmo tempo, numa imensa solidão e numa imensa paz. Estranhamente, Gabriel sente sua tristeza se dissolver, como se a imensidão que  o cerca a absorvesse e lhe desvendasse, subitamente, o verdadeiro começo de sua vida.  É Bartolomé quem primeiro desfaz o aperto de mãos. Com um gesto que se tornou maquinal sempre que a emoção o embaraça, ele acaricia a cicatriz com os dedos colados  e dá uma risada:  - E, como podem ver, a febre me deixou em paz. Não se saberá se Deus finalmente ouviu minhas súplicas ou se é o efeito de sua beberagem, não é, Lrincesa? Mas que  importa! Tenham certeza de que vou viver muito tempo!  Um instante depois, quando sua silhueta, inclinada sobre a mula, se afasta em direção ao norte, Anamaya, mais uma vez colando seu corpo contra o de Gabriel, o abraça  com força.  - Não é estranho que ele também tenha falado de um sinal de seu Poderoso Senhor?  Gabriel sabe em que ela está pensando. Ele próprio reflete sobre as palavras do Único Senhor Huayna Capac:  "Guerra entre os Filhos do Sol e guerra entre os estrangeiros: este é o sinal.  "O sangue do irmão, o sangue do amigo são derramados mais generosamente que o do inimigo: este é o sinal.  O estrangeiro que roga a uma mulher e não a seu Poderoso Ancestral está morto: este é o sinal."  Sim, agora, cada uma dessas coisas, de fato, se cumpriu.  - Vamos - diz Anamaya baixinho. - Agora, está na hora de ir para as montanhas e de libertar o Irmão Duplo de nossa presença.  - "E durante todo esse tempo, não duvide de mim. Permaneça em meu hálito e confie no puma" - responde Gabriel com um último olhar para o túmulo de Sebastian.

    Capítulo 31
    Machu Picchu - Caral, 1542.

    Desde que eles deixaram Lima, mantiveram-se em silêncio.  Cada um dos dois está perdido em si mesmo, cada um revive a desordem, os orrores e as surpresas de sua vida. A Gabriel acontece de fixar a fita de pedra movente  na estrada real inca e se imaginar flumando sobre um mar que o leva sempre cada vez mais para o alto; Anamaya deixa seus olhos vaguearem pelos cumes das montanhas  e por vezes é obrigada a estender os braços para se recordar de que é apenas humana, mente humana. Todo o orgulho que poderiam ter os abandonou - a Coya Camquen  e o cavaleiro branco de Santiago não são nada mais que um homem e uma mulher que caminham com alguns carregadores. O amor não lhes inspira nenhuma palavra: apenas  gestos esboçados, olhares apagados.  Eles conservaram os trajes espanhóis. À luz da manhã Gabriel examina a não ferida, que cicatriza lentamente, aquela pele de criança que se forma de rnvo ao redor  da crosta de pele morta do adulto. Pensa em Sebastian. Alguma coisa se rasgou em seu íntimo que não vai sarar como aquela mão - e entre tanto, é estranho constatar  que está vivo enquanto ele está morto. Tantas mortes para compreender uma coisa tão simples...  Agora que eles chegaram ao vale do Apurirnac, Gabriel vez por outra se vira para observar o triângulo perfeito de uma montanha que se crava no fundo lo vale estreito  pelo centro do qual eles sobem.  Amanhã, estarão em Rimac Tambo.  Por toda parte ao longo do caminho, ele é perseguido pelas lembranças de batalhas, da passagem de uma torrente, de um monte de pedras. Depois virá o desconhecido.  Contudo, não precisa perguntar a ela para onde vão.  Ele sabe.  Ele sabe que no tambo os carregadores os deixarão e que ficarão sozinhos.  Sabe que se despirão dos trajes espanhóis para nunca mais voltar a usá-los e que mais uma vez vestirão um unku e um aaco de fina lã branca.  Sabe que ela olhará para o norte e que lhe mostrará o lugar onde o cometa apareceu; depois eles seguirão pelo caminho na floresta densa por onde o Sábio Villa Oma  a conduziu.  Ela dirá as primeiras palavras: "É ali."  Como a noite se aproxima, uma bruma espessa sobe e os envolve, tornando-os quase invisíveis. Gabriel não consegue impedir seus dedos de se crisparem na umidade imaginando-a  desaparecer repentinamente em meio a esse véu. Como um homem embriagado, ele gira e só pára quando ela o segura pelo braço. Ele se imobiliza, o coração disparado.  Ela segura sua mão e leva a seus lábios doces o seu ferimento.  Katari sente a fronte banhada por milhares de gotículas trazidas pelo vento do mar.  Tudo desaparece.  O céu, o mar e a terra têm uma cor branca leitosa onde tudo se funde, tudo se apaga. Ele precisa tocar a própria pele para se assegurar de sua textura, de sua consistência.  Todos os seus outros sentidos estão quase aniquilados, como se os três Mundos se tivessem unido e unido todos os elementos.  Contudo, ele avança sempre para o norte, guiado pela luz que tem em si.  Não parou de caminhar um dia desde que deixou Vilcabamba e os olhos perdidos no infinito de Manco. O Inca nem sequer o viu se afastar, nem sequer prestou atenção  aos preparativos de viagem do Irmão Duplo. Sua solidão não era mais interrompida, exceto por ordens breves, e ele só recuperava um pouco de vida, no meio da noite,  entre as pernas das concubinas. Os sinais de respeito nada mais eram que sinais de medo. Manco despertava de manhã aos berros e mandava vir os adivinhos para interpretar  os sonhos que o assustavam e deformavam seu rosto. Quando Katari partiu, ele o deixou com os lábios trêmulos:  o Inca ainda queria lhe dizer alguma coisa, mas o esforço necessário era grande demais, impossível. O esquecimento já o devorava por dentro.  Aqueles a quem Katari confiou o Irmão Duplo são kollas como ele, que o obedecem sem pedir explicações e têm, desde a infância, um hábito profundo de guardar o silêncio.  Eles escoltarão a liteira da estátua através da floresta fazendo menos barulho que uma anaconda. Eles a levarão até o lugar onde ela deverá ficar, de acordo com  as palavras do Huayna Capac, para reencontrar Anamaya e o Puma, e ganhar sua morada para a eternidade.  Katari preferiu partir sozinho.  A simples presença de um ser humano o teria perturbado em seus pensamentos, talvez o tivesse afastado de seu caminho. Já passado quase um mês, ele vive apenas com  os ruídos da natureza e dos animais, regalando-se com o perfume das orquídeas de pétalas úmidas, tendo de responder apenas aos pássaros.  Dormindo muito pouco, Katari se entrega sempre ao mesmo sonho: ele sabe onde está, ainda que esse lugar nunca tenha sido visitado. Ele desperta feliz, tomado por  uma certeza que o faz saltar e avançar cada vez mais depressa. Suas pernas musculosas o conduziram ao longo das paisagens, do calor ao frio e de novo ao calor.  Depois da floresta, Katari ganhou os planaltos recortados por vales da puna, onde as colinas desenham seus contornos arredondados a perder de vista. Seu olhar repousava  nos tufos amarelos de ichu sob o céu azul límpido. Quando uma nuvem de poeira se levantava, não eram homens, mas uma manada de vicunhas cujos saltos faziam tremer  a terra.  Descendo em direção à costa, atravessou desertos de pedras, às vezes cortados por pequenos riachos à margem dos quais se acotovelavam, em meio a uma vegetação luxuriante,  índios imóveis, quase nus, que o viam passar sem lhe dar atenção.  Pouco a pouco, à medida que se aproximava do mar, retalhos de bruma rasgavam o céu e carregavam o ar de uma umidade que penetrava profundamente em sua pele. Agora,  ela está ali, por toda parte ao seu redor. Ela o cega, mas ele vê tudo. Ela transforma a atmosfera numa espécie de algodão onde todos os sons são apagados, mas ele  ouve tudo. Ela traz fortes odores do mar, mas ele sente perfumes que vêm de muito mais longe.  "Vocês estão aqui", sussurra para Gabriel e Anamaya, "vocês estão longe, mas estão muito perto de mim. Nós estamos juntos."  A medida que eles se embrenhavam na montanha e se afastavam do Apurimac, a bruma se desfez. Caminharam durante a noite e no frescor da aurora,  e ela se abraçou a ele. Ele mergulhou com abandono no azul de seus olhos - azul do céu, azul da noite, azul do mar, azul do lago no qual ele nadou para reencontrá-la.  Quando transpuseram as colunas de pedra que se erguem em direção ao céu, Anamaya pôs as mãos sobre os olhos de Gabriel para que ele os fechasse. Enquanto eles continuavam  a subir os degraus, suspensos entre o céu e a terra, ele foi tomado por uma inquietação profunda. Depois, com uma leve pressão da mão, Anamaya indicou que podia  abrir os olhos de novo.  O espetáculo que Gabriel descobre ultrapassa tudo que poderia imaginar em beleza e em força. É como se, nesse lugar secreto, uma aliança tivesse sido feita entre  os homens, o céu, as montanhas e o rio para criar um templo com as dimensões de toda a natureza a fim de exaltar a presença dos deuses.  - Picchu - murmura Anamaya, apenas uma vez.  Ele tem os olhos brilhantes e o peito repleto de um fôlego violento e calmo. Está ali onde deve estar, ali onde seu caminho o conduziu. Ele desliza sobre os terraços  dispostos como degraus, sobre as casas e os templos, segue o murmurar do vento e da água, da fumaça que sobe em volutas cinzentas dos telhados de ichu, adivinha  ao longe uma vasta esplanada... Sem cessar, seu olhar é atraído para a montanha que domina o sítio, leve e impetuosa. Com um palpitar no coração, ele reconhece a  mesma forma do rochedo dos quatro nichos de Ollantaytambo, assim como o desenho familiar do puma enroscado acima da cidade, como que adormecido e ao mesmo tempo  aterradoramente vigilante.  Há tanto a perguntar e nada a compreender: tudo está ali.  Anamaya, a seu lado, vibra e resplandece.  - Eu prometi - diz ela em voz baixa - que jamais revelaria o segredo e que nunca passaria por esta porta com um estrangeiro...  - Mas não é isso o que está fazendo?  - Você não é um estrangeiro. Você éo puma. O segredo é seu. Você está em casa.  Gabriel se sente feliz e livre, e a criança muito jovem que dorme nele se deixaria descer pelos terraços, saltar pelas ruelas estreitas, para desembocar pelas encostas  vertiginosas abaixo das quais a fita de prata do rio rebrilha... Mas desse lugar emana tamanha nobreza que ele contém a agitação e se sente dominado por sua paz.  Anamaya desce a escada que leva à porta monumental atrás da qual, tantos anos antes, ela viu Villa Oma desaparecer. A pesada paliçada de madeira está  lá, sempre em seu lugar, fechando hermeticamente o acesso ao centro de Picchu. Ela encosta as mãos e a porta balança imediatamente, revelando a rua e suas casas  baixas. São três guardas impassíveis de semblante fechado, lança em punho que os recebem e sem dizer uma palavra os guiam até uma vasta casa de paredes cuidadosamente  caiadas e telhado de ichu de inclinação muito acentuada. Na parede estão abertas duas janelas em forma de trapézio pelas quais se descortina toda a profundidade  do vale.  Um velho os recebe, sentado sobre uma tiana. Seus longos cabelos têm a brancura de Salcantay.  - Os anos se passaram, Huilloc Topac - diz Anamaya lentamente -, mas você continua sendo o guardião deste lugar.  O índio de cabelos cor de neve tem os olhos quase brancos de um cego. Contudo, quando os vira para eles, os dois sentem-se escrutados até o fundo da alma. Finalmente,  diz com simplicidade:  - Eu os esperava.  No meio do berço imenso das colinas banhadas por uma luz cinzenta, seis montículos desenham um círculo quase perfeito. O mar já está longe, há muitos dias de marcha,  e no entanto seus perfumes discretos ainda o fazem presente. Mais abaixo serpenteia um rio cujas margens foram invadidas dos dois lados pela vegetação selvagem.  O coração de Katari bate forte.  Para o olho não exercitado, não são mais que montes de poeira e de terra cuja coloração mais escura se destaca no fundo de seixos e rochas; para o Mestre das Pedras,  que viajou de muito longe, para além de sua idade, é o fim do caminho.  Aqui, os tempos acabam e começam.  Seu passo subitamente se torna mais lento e ele deixa o vento cantar em suas orelhas que se tornam conchas; através de seu corpo ressoa uma trompa, que vem de antes  dos tempos e lhe murmura a lenda do que foi e do que será.  Foi aqui que tudo começou, muito antes que o próprio Viracocha saísse do lago Titicaca, muito antes que ele tomasse o caminho do Norte e se enfiasse no seio do Grande  Mar pela porta de Tumbez, agora para sempre profanada pela chegada dos estrangeiros.  É aqui que jaz, profundamente cravado na terra, o monólito huanca, o Marco das Origens, que assinala a ancoragem, o surgidouro dos homens naquela terra dos Andes.  As pedras disseram-lhe isso, os velhos quzus salvos do saque de Cuzco o confirmaram para ele.  Katari tira os quzpus de sua trouxa, e seus dedos percorrem os nós ao longo do comprimento dos cordões enquanto ele canta, de olhos fechados, uma invocação sem palavras.  Um amauta muito idoso deu-lhe este segredo. Esses quipus são a memória dos Andes; desde então ele sabe como despertá-la. Chega às suas narinas o odor marinho ao  qual se mistura o do rio. Os longos cabelos negros varrem seu rosto. Ele se dirige sem hesitar para o mais alto dos montículos.  À medida que se aproxima, sua forma se torna mais definida, e ele imagina, sob o abandono aparente, o posicionamento regular dos terraços. Ele está diante de uma  pirâmide.  Os dedos sempre cerrados sobre seus quzpus, Katari não se demora em procurar o acesso sob o amontoado de pedras; lentamente ele dá a volta na pirâmide, deixando-se  penetrar por sua presença e pela presença de gerações que ali praticaram seus cultos.  Quando ele se encontra na base da rampa cujo acesso avista sob o monte em ruínas, o terreno bruscamente se estreita em forma de um grande círculo.  Seu semblante se ilumina. "Urku Pacha", diz baixinho, "a passagem para o Mundo de Baixo. É aqui. Venham."  Ele se senta no centro do círculo e dispõe os qurpus diante de si. Depois se deita, braços e pernas abertos, e o rumor da terra se eleva dentro dele.  O dia inteiro e a noite inteira, eles estiveram com Huilloc Topac. O velho não quer saber nada sobre as guerras nem do que se passa no Mundo de Lá, não lhe resta  nada daquela hostilidade desdenhosa de que Anamaya se lembrava. Ele tem o despojamento de uma pedra sobre a qual a chuva escorreu por muito tempo.  Ao alvorecer, ele os conduz em silêncio pelas ruelas escarpadas, enquanto a luz toca de leve a parte superior dos terraços, até uma plataforma de pedra ao fundo  da qual abre-se uma gruta. Dominando-a, destaca-se a sombra de pedra de um condor cujo bico mergulha dentro da terra.  Huilloc Topac arruma as folhas de coca e Gabriel se sente estranhamente em harmonia com ele enquanto o ajuda a acender a fogueira e depois a servir a chicha.  "Falta pouco", diz Huilloc Topac, de olhos revirados, a cabeça girando como uma estrela perdida.  Eles o deixam e saem para vaguear livremente. Cruzam com as mocinhas e os sacerdotes, os ourives e as tecelãs; ao longe, os camponeses já trabalham nos terraços  plantados de milho. Reina uma calma escura e pesada - uma calma de antes da tempestade.  Entre eles, não há mais que palavras isoladas, gestos soltos.  No crepúsculo, eles chegam à casa que domina a região e observam a noite cair.  De repente, o eco de uma voz chega até eles e por todo o vale um cântico se eleva, um cântico de uma beleza trágica e misteriosa, entoado numa única nota, um cântico  penetrante em que as vozes humanas, as trompas e os tambores estão unidos.  Anamaya se levanta e Gabriel a segue.  Sobre a vasta esplanada, abaixo do templo dos cinco nichos, toda a multidão de Picchu está reunida. Os unkus e os aacos são brancos e um caminho de tochas está iluminado  no centro da esplanada, enquanto o cântico, enchendo todos os peitos, continua a ressoar infindavelmente. Gabriel e Anamaya se aproximam e vêem.  Ele chegou.  No poente, o Irmão Duplo os espera.  A gente de Picchu está de cabeça baixa, as costas curvadas, alguns estão até mesmo prosternados no chão em sinal da mais profunda reverência.  Anamaya vai sozinha para junto do Irmão Duplo. Quando ela toca sua cabeça, o cântico se interrompe e nada mais resta em todo o vale senão o eco do vento e o rugido  do Willkamayo.  Nada existe em vão, ó Viracocha!  Todos vão até as margens do Titicaca,  Todos vão às pirâmides que se perderam,  Todos encontram o lugar que para eles escolhestes!  Por muito tempo as palavras da prece são pronunciadas. Quando ela acaba, Anamaya arruma os quipus diante de si e deixa seus dedos descobrirem OS  nós, o espírito de Katari surgindo dentro dela. Gabriel a vê mais bonita e luminosa que nunca quando ela volta a se levantar e fala.  - Faz muito tempo - diz ela - o Sapa Inca Huayna Capac confiou segredos a uma mocinha ignorante saída da floresta. Para possuí-los, muitos combateram, muitos acreditaram  revelá-los na guerra e na destruição sem fim. Este tempo está acabado. Só existe um segredo: e este é que o Irmão Duplo agora deve encontrar sua morada, de modo  que sejam conservadas, para a eternidade dos tempos que é a alma de nosso povo, a alma eterna de nossas montanhas, a unidade de todos os mundos, o Mundo Daqui, o  Mundo de Cima e o Mundo de Baixo...  O cântico recomeça quando Anamaya se cala, como uma dança que faz ondular os corpos da gente de Picchu, lenta e solene, confiante. Os carregadores levantam o Irmão  Duplo sobre a liteira e Anamaya os guia através de três níveis de terraços abaixo da esplanada, que o resto da multidão não abandona. Num semicírculo com o entorno  fechado, cuja borda se abre sobre a ravina do Willkamayo, há três rochedos que são atravessados cada um por uma galeria que parece mergulhar nas profundezas da terra.  - Urku Pacha - diz Anamaya segurando a chave de pedra que Katari lhe deu. - É aqui.  Os últimos raios de sol se prendem à Intihuatana e se fixam ali por um instante, enquanto o Irmão Duplo desaparece na galeria central.  O cântico cessa de novo e toda a terra é agitada por um tremor, por um pisotear universal, como se milhares de tambores ressoassem sob seus pés.  Quando o sol ia mergulhar atrás das montanhas, Katari sentou-se para lançar pela última vez a pedra que faz parar o tempo.  Um raio de sol fixou-se no pico da pirâmide e deslizou sobre seu flanco como um relâmpago, imobilizando-se a seus pés, no lugar onde se abre o círculo do templo  subterrâneo.  - Aqui - repete ele tomando nas mãos a chave de bronze.  Com um ruído surdo, um martelar abafado, o soio treme subitamente. É uma vibração que penetra seus pés e pernas, como se de toda parte um exército viesse até onde  ele está. No alto da pirâmide, a ganga secular do Marco das Origens se racha antes de se desagregar, dispersando poeira no vento vindo do oceano. Enquanto sua ponta  emerge do solo, nua, as primeiras gotas de chuva explodem contra sua pele de granito.  Katari, de olhos voltados para o alto, oferece o rosto à chuva.  O sol desapareceu atrás das montanhas e Gabriel foi se juntar aAnamaya no terraço na borda da ravina.  Lentamente, engolida pela noite, a gente de Picchu se vai. Em longas filas silenciosas, eles abandonam a cidade para sempre. Desenhando serpentes de  rogo na sombra das montanhas, na hora em que as estrelas aparecem no céu, eles se afastam nas Quatro Direções, com suas tochas na mão.  Durante anos, eles construíram a cidade secreta de Picchu para fazer dela uma morada digna do Irmão Duplo. Suas entranhas de ouro contêm toda a istória e o poder  dos incas, o tempo passado e o futuro dos Andes, a memória as glórias e das provações. Saberão disso aqueles que partem hoje? Sem dúvida, não, reflete Anamaya, mas  eles têm orgulho da obra realizada. Eles partem sem dizer uma palavra, sem um olhar: o que precisava ser dito foi dito, e feito que precisava ser feito.  Entre eles, Anamaya e Gabriel vêem por um longo instante se agitarem os ongos cabelos cor de neve de Huilloc Topac até que eles também desaparecem.  Agora não há mais nada, exceto o silêncio.  No ar carregado, uma umidade repentina cola-se a seus rostos ao mesmo tempo que nuvens mais negras que a noite encobrem o céu. As primeiras gotas de chuva caem.  Os relâmpagos silenciosos riscam a escuridão das montanhas e lançam uma luz esbranquiçada. Muito rapidamente eles cercam Machu Picchu como um bando de feras de presas  cintilantes. Aqui e ali, os raios plantam seus arcos de luz com trovoadas roucas.  Instintivamente, Anamaya se abraça a Gabriel, cuja respiração se acelera. Ela procura sua mão e a aperta contra seu ventre. Como se este simples gesto o tivesse  atraído, o raio se abate muito perto, sobre o terraço mais alto. Eles tremem, todos os dois, fechando os olhos à espera do estrondo do trovão. Mas o fogo do céu,  com apenas um estalar de galho morto, se transforma numa bola ofuscante. Lançando estilhaços de ouro derretido, ele desce a encosta, explode numa multidão de riachos  de fogo que seguem a menor falha de rocha. O odor acre de enxofre se espalha no ar carregado de água. Somente agora, fazendo vibrar o peito dos dois, o trovão ruge  ecoando de encosta em encosta até o fundo das ravinas. O furor vem do céu e sobe da terra, sacudindo o Mundo todo de uma só vez.
    Eles não sentem medo.
    Quando a tempestade se acalma, um vento fresco dispersa as nuvens e clareia o céu.
    O vento de novo agita as folhagens no silêncio.
    A noite é tão absoluta que parece que o mundo é feito apenas de céu.
    Quando a chuva pára, Katari viaja com as estrelas. A partir do horizonte, ele segue o Mayo do céu, o Rio Sagrado celeste, e sorri quando pára sobre a nuvem obscura do Lhama. Os Poderosos do Outro Mundo agradecem-lhe pelo trabalho realizado. A bruma se abriu e ele distingue claramente os Mamaciawin, os olhos do Lhama. As duas estrelas brilham suavemente. Sua pulsação se torna regular, lenta e harmoniosa, casal eterno no compasso de um mesmo coração.
    "Vocês estão aqui", sussurra Katari para si mesmo, "eu estou com vocês. O tempo é um. Nós viemos antes e viremos depois. Tudo está bem.”
    A noite toda Gabriel e Anamaya passeiam entre as constelações.
    Anamaya chama as Plêiades de coilca e diz que elas são a Mãe de todas as outras estrelas. Ela aponta com o dedo as estrelas do Cinturão de Órion.
    - O condor, o abutre e o falcão - cochicha no ouvido de Gabriel.
    Ele voa com ela e descobre, cingidas pelas estrelas, as silhuetas do Pássaro, do Urso, da Serpente e finalmente do Puma.
    À meia-luz da aurora, Anamaya lhe mostra Vênus sob o nome de Chasca Cuyllor.
    O mundo engoliu a si mesmo, o mundo renasce.
    O tempo se enroscou como uma serpente, o tempo se desdobrou.
    Eles se beijam longamente.
    Depois tornam a subir pelos terraços, seguem as ruelas da cidade deserta até as escadas que levam à saída. Anamaya o conduz pelo caminho íngreme e escorregadio que atravessa a floresta para alcançar o pico de Machu Picchu, lá onde, anos antes, ela segurou a mão de uma garotinha que deveria ser sacrificada e não foi.
    Eles sobem em meio à vegetação luxuriante, os olhos ofuscados pelo sol do novo dia. Transpõem as portas de pedra e, como se a abóbada do céu estivesse ao alcance de seus dedos, levantam o rosto.
    O vento brinca com as nuvens e a bruma, e eles avançam sem nenhum temor até a ponta do rochedo. Abrem os braços, e é como se abrissem as asas para se lançar no vazio.
    O vento ganha mais força e o azul se torna mais profundo no horizonte. Eles se mantêm ali, pássaros-homens repletos de amor, diante do sol que nasce.
    Lá embaixo, bem lá no fundo, há apenas pedras e, já, algumas sombras.
    - Estamos sozinhos! - grita Gabriel mais alto que o vento.
    E é bem baixinho que ela responde:
    - Estamos juntos.
    Fim

    Por volta de 1520, uma década antes da descoberta do Peru por Francisco Pizarro, as fronteiras orientais do Império Inca tiveram de enfrentar a invasão de hordas de tupinambás. Na liderança desses índios, vindos do Brasil, encontrava-se um europeu chamado Alejo Garcia. Os Filhos do Sol conseguiram conter a vaga dos invasores que, contudo, se estabeleceram ao pé da Cordilheira sob o nome de chiriguanos.
    Uma lenda relatava que Alejo Garcia, esse português de ascendência flamenga, teria capturado uma princesa inca que teria tornado sua companheira, antes de desaparecer rumo ao leste. E esse homem tinha olhos de um azul cor de porcelana...
    Depois de ter tido sucesso em resgatar seu filho, Titu Cusi, capturado pelos espanhóis, Manco conseguiu sobreviver alguns anos em seu refúgio de Vilcabamba. Foi morto em Vitcos, em 1544, por sete almagristas que, entretanto, ele havia abrigado. Esses homens esperavam obter o perdão de Gonzalo Pizarro graças a esse covarde assassinato.
    Com o nome de Cristobal e em companhia dos membros mais importantes de sua família, Pauliu foi batizado em 1543. Em 1545, foi agraciado com um título de nobreza e tornou-se um fidalgo. Nesta sombria epopéia, ele será um dos raros protagonistas a morrer de "morte natural" em 1549.
    O Anão, Chimbo Sancto, sem dúvida passou os anos de sua velhice em suas terras no vale de Yucay. Dentre seus muitos filhos, duas filhas herdaram seu tamanho pequenino.
    Mas seus rastros se perderam nas zonas de sombra do passado.
    Hernando Pizarro passou vinte anos encarcerado na Espanha. De sua prisão, no castelo de La Mota, em Medina del Campo, ele administrou com atenção e tenacidade a imensa e inútil fortuna do "clã" Pizarro, graças a seu casamento com a filha de seu irmão Francisco. Libertado em 1561, construiu um palácio em sua Trujilo natal, onde veio a falecer, quase cego, em 1578, com a idade extremamente respeitável, para a época, de setenta e um anos!
    Fiel a seus costumes, Gonzalo Pizarro jamais recuou diante de suas ambições e a vida pareceu querer recompensá-lo por isso.
    Em 1544, ele se fez proclamar Governador do Peru, em rebelião aberta contra a Coroa da Espanha. Durante quatro anos, semeou terror entre seus opositores, especialmente por intermédio do braço armado de seu tenente Francisco de Carbajal, apelidado "o Demônio dos Andes ". Em 1548, finalmente foi vencido pelas forças reais e decapitado no campo de batalha.
    Os sucessores de Manco resistiram ainda em Vilcabamba até 1572, ao longo de sucessivos episódios de guerrilhas e negociações de paz. Nesse último ano, o jovem Tupac Amaru, o último Sapa Inca legítimo, foi capturado em seu refúgio na floresta, transferido para Cuzco e decapitado na praça de Armas da antza capital do Império Inca, por ordem do vice-rei Francisco de Toledo.
    Sua cabeça, pregada ao pellurinho, longe de se decompor, se embeleza a cada dia e torna-se objeto de crescente veneração. Ainda nos dias atuais, o mito prevê o retorno do Inca, no dia em que a cabeça reencontrar seu corpo mutilado.

    GLOSSÁRIO Adllahuasj: residência das Mulheres Escolhidas (adilas).
    Amauta: sábio, homem de saber, depositário do conhecimento.
    Anaco: túnica feminina longa e reta que desce até os tornozelos.
    Apu: palavra quíchua que significa "Senhor"; em geral designa os picos montanhosos que são também divindades protetoras.
    Ayllo arma de arremesso que consiste em três tiras de couro, cada qual lastreada com uma pedra. Arremessadas, elas se enrolam em volta das patas dos animais.
    Balsa: espécie de jangada feita com madeira do mesmo nome.
    Borla (espanhol) ou mascapaicha (quíchua): com o ilautu e as plumas de curiguingue, essa espécie de franja de lã que cai sobre a testa forma o gorro emblemático do Sapa Inca.
    Cancha: pátio. Por extensão, o conjunto de três ou quatro construções que cercam e formam a unidade de habitação.
    Chaquiras. pequenas pérolas de concha rosa (muilu) enfiadas em colar ou tecidas para vestes cerimoniais.
    Chaski: corredores encarregados de transmitir as mensagens por um sistema de revezamento.
    Chicha: bebida cerimonial, cerveja fermentada, em geral à base de milho.
    Chuilo: batatas que sofreram um processo natural de desidratação a fim d serem conservadas por vários meses.
    Chuspa: pequena bolsa tecida com motivos religiosos onde se guardam as folhas de coca.
    Coikas construções de um único aposento em forma circular ou retangular destinadas à conservação de alimentos, tecidos, armas ou outros objetos importantes.
    Coya: título dado à esposa legítima do Inca.
    Cumbi: tecido de altíssima qualidade, na maioria das vezes feito de lã de vicunha.
    Curaca: soberano local ou chefe de comunidade.
    Curiguingue pequeno falconídeo cujas penas pretas e brancas ornavam o gorro do Sapa Inca.
    Guanaco: do quíchua huanaco, camelídeo andino não domesticado, da família do lhama.
    Hatunruna: significa "camponês" em quíchua.
    Huaca: palavra que significa "sagrado". Por extensão, qualquer santuário ou residência de uma divindade.
    Huara: calção. O menino o recebia por ocasião do rito de iniciação chamado huarachiku.
    Ichu: capim selvagem alto, cuja palha serve principalmente como cobertura de tetos.
    Inti Raymi: uma das principais cerimônias do calendário ritual inca, por ocasião do solstício de inverno.
    Kaiianka: construção alongada, dotada de aberturas que dão em geral para a praça de um centro administrativo.
    Liautu: longa trança de lãs coloridas que dá diversas voltas no crânio para formar um gorro.
    Manta: palavra espanhola que significa uma coberta, mas igualmente a capa usada pelos homens (1/acoita) e pelas mulheres (Ilicila).
    Mascapaicha: ver borla.
    Mullus. conchas da costa do Pacífico de cor vermelha ou rosada; em estado natural ou trabalhadas, seu uso é intimamente ligado aos rituais religiosos.
    Pachacuti: grande turbulência anunciando o início de uma nova era.
    Panaca: linhagem. Descendência de um soberano inca.
    Papai batatas.
    Platero.r. palavra espanhola que designa os metalúrgicos especializados em metais preciosos.
    Pututu: grande concha marinha que servia de trompa.
    Quinua: cereal andino muito rico em proteína; trigo-sarraceno.
    Quipu: conjunto de cordões coloridos comportando nós que servia de suporte mnemotécnico (as cores, as combinações e os nós eram dotados de significados convencionais precisos).
    Sapa Inca: literalmente, Único Senhor. Título do soberano inca.
    Tambo: espécie de pousada, situada em intervalos regulares nas estradas do Império, onde o viajante podia obter abrigo, alimentação e, por vezes, roupas, às custas do Estado.
    Tiana: pequeno banco, símbolo do poder, cujo uso era reservado exclusiva- mente ao Inca.
    Tocapu: motivo geométrico de significado simbólico que orna os tecidos incas.
    Tumi: faca cerimonial, cuja lâmina de bronze é perpendicular ao cabo.
    Tupu: longa agulha de ouro, prata, bronze ou cobre cuja cabeça é trabalhada e que permite fechar a capa ou a manta.
    Unku: túnica sem mangas que cobre até os joelhos, usada pelos homens.
    Ushnu: pequena pirâmide situada na praça de um povoado inca, reservada ao poder.
    Viscacha: roedor da família das marmotas, dotado de uma cauda semelhante à do esquilo, que vive nos amontoados de pedras de rochedos.
    posted by iSygrun Woelundr @ 12:46 PM  
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