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ASGARDH, hell and heaven
Ridertamashii:animes,mangas,HQs,cultura POP
livro on line: OS INCAS - VOLUME TRÊS part c
| livro on line: OS INCAS, PARTE III - A LUZ DE MACCHU PICCHU, LIVRO A |
| quinta-feira, abril 13, 2006 |
Antoine B. Daniel
PRIMEIRA PARTE
Capítulo 1 Cuzco, 1 de maio de 1536.
Ninguém dá atenção a Gabriel quando, pouco antes do meio-dia, ele vai se agachar na esquina da cancha onde reside Gonzalo Pizarro. A túnica que vem usando, já há algumas semanas, está bastante suja de modo a afastar os olhares. Ele esfregou argila no rosto para esconder os pêlos louros de sua barba que começa a crescer. Os espanhóis só vêem nele um pobre índio em andrajos, um daqueles miseráveis que passaram a viver nas ruelas de Cuzco. Por causa do barrete quadrado, com os cantos estranhamente pontudos, que ele usa bem enterrado sobre a testa, os índios, por sua vez, crêem estar diante de um camponês de Titicaca. Enquanto isso, sob o unku, preso na cintura por uma estreita tira de couro, pesa um cassetete de bronze que contém todas as suas esperanças. Gabriel entrou na cidade quando os primeiros raios de luz anunciavam a alvorada. Aproveitando-se da noite para evitar o fluxo incessante dos guerreiros convocados por Manco e Villa Oma, ele caminhou sem parar desde a saída de Calca. Duas ou três vezes perdeu-se na escuridão, tendo que refazer o percurso até reencontrar o caminho e tornando mais longa sua jornada. Enquanto isso, sua raiva e seu sofrimento deram impulso a seus passos, impedindo-o de sequer pensar em repouso. Somente agora, quando se reclina, apoiado no grande paredão aquecido pelo sol, Gabriel se dá conta da fome e do cansaço que entorpecem seus membros. Contudo, nem por um instante sonha se afastar para tentar encontrar alguma coisa para comer. Seu olhar permanece cravado na porta da cancha e dela não se desvia. Ele terá muito tempo, depois, para comer e para dormir, se isto ainda tiver sentido. Ele está ali para matar Gonzalo. Não tem mais nenhum outro dever. Ao longo de duas horas, ninguém entra nem sai da casa do irmão do Governador, exceto criados e um punhado de cortesãos. Em sua maioria, são caras novas, homens cujo comportamento e roupas ainda recendem a Espanha. Percebe-se, no modo como enfiam o salto das botas na poeira, toda a arrogância dos novos senhores. A fadiga torna as pálpebras de Gabriel pesadas, fechando-as. A sede e a fome volta e meia o fazem tremer dos pés à cabeça. No entanto, por nada no mundo abandonaria seu posto de vigilância para buscar um pouco de água e de comida. Ele imagina o instante em que golpeará Gonzalo, em que finalmente o mundo será libertado daquele homem nefasto! Da bolsa de pano que traz pendurada no pescoço, sob a túnica, feita do mesmo tecido, retira algumas folhas de coca e as mastiga lenta e conscienciosamente até que a fome desapareça. O relato terrível do Anão ainda o deixa louco de raiva: - Gonzalo entrou no quarto de Anamaya. Ela estava dormindo. Quando acordou, ele já estava com as mãos nela. Anamaya gritou e eles lutaram. Manco queria matá-lo ali, naquele instante, mas Anamaya ficou muito temerosa que os estrangeiros se vingassem no Único Senhor. Então, fugimos de Cuzco antes do amanhecer... Remoídas ao longo de dias, essas palavras terríveis já se tornaram imagens carregadas de um ódio gélido e ardente e, ao mesmo tempo, gelados que aguçam seus nervos muito mais que a fome e a sede. A cada inalação, ele respira a vingança como se bebesse um néctar. E assim, seus olhos permanecem bem abertos e os dedos entorpecidos se apertam em torno do punho do cassetete. O sol quente da tarde pesa sobre ele e consegue atordoá-lo sem que Gonzalo Pizarro saia da casa. Gabriel acaba adormecendo, com a boca cheia de poeira, mergulhando num pesadelo onde descobre uma Anamaya distante, com o semblante endurecido pela determinação. Ela abraça seu esposo de ouro e declara: "Nós devemos travar essa guerra contra vocês, os estrangeiros, porque as Montanhas e nossos Ancestrais precisam de nosso amor e de nossa coragem para não serem levados pelo nada. E eu estarei ao lado de meu esposo de ouro quando ele combater, pois éo meu lugar. E você, é preciso que se afaste de mim..." Ele quer protestar, explicar que eles não podem se enfrentar como se fossem inimigos. Mas a boca de Gabriel se agita em silêncio. Ele faz um esforço sobre-humano para se fazer ouvir. Implora a Anamaya, suplica que ela abandone a dureza de seu olhar. Nada adianta. Nenhum som, nem mesmo um grito sai de sua garganta. Ele desperta tão brutalmente que escuta seu próprio gemido. Com o espírito dominado pela presença de Anamaya, nem sequer reconhece de imediato o cenário que o rodeia. A sensação de impotência de seu pesadelo parece persegui-lo ainda durante alguns segundos. Depois, como se retorcesse o cabo de um punhal cravado em seu próprio peito, ele se recorda com clareza da resposta que deu a ela em Calca, depois da noite de amor: "Então, teremos que combater um ao outro. Se durante a batalha seu lugar for ao lado de Manco e longe de mim, Anamaya, é porque a seus olhos me tornei um 'estrangeiro 'como os outros. Nesse caso, meu lugar é entre os estrangeiros." O sofrimento causado por aquelas palavras tinha feito os lábios de Anamaya tremerem. Acariciando o rosto dele com as pontas dos dedos, ela havia murmurado: Você é o puma, meu amado! Você é o único homem que pode me tocar neste Mundo, como no Outro. Você e somente você éo único que toca meu coração e que pode me levar à felicidade neste mundo." Sem se dar conta, Gabriel sorri ao mesmo tempo que duas lágrimas escorrem por suas faces cobertas de argila ressecada. Sim. Não duvida que Anamaya o ame tanto quanto ele a ama. A despeito disso, mais nada é possível entre eles. Distância demais e dramas demais se levantam para o futuro entre a esposa mágica de um Senhor inca há muitos anos morto e ele, o estrangeiro, que não é mais nada, nem mesmo entre seus velhos companheiros. Sim, não lhe resta mais nada, salvo assassinar Gonzalo. E seria uma bênção do destino se ele pudesse morrer também! Um pouco antes de a sombra da noite descer sobre Cuzco, aquilo que ele espera finalmente acontece. Uma algazarra dos diabos o arranca de seus devaneios. Vociferações infernais e gritos enchem a ruazinha estreita. Gabriel se levanta, os joelhos estalando e as coxas doloridas. Surge um porco, com a bocarra aberta. Um porco enorme de pêlos tão negros como a noite! Um verdadeiro "cerrano" da Andaluzia, pesando cerca de cinqüenta libras e arreganhando caninos de javali capazes de destroçar a barriga de um cavalo. E depois, subitamente, aparecem outros. Uns trinta talvez, correndo com a cabeça abaixada, berrando como se já estivessem sendo degolados. Os machos seguem correndo em frente, enfiando a testa como bestas selvagens contra as paredes da cancha, enquanto as fêmeas de ventre pesado arrastam as tetas na poeira. Uma dezena de leitõezinhos enlouquecidos vêm atrás delas, gritando, ziguezagueando entre as pernas de alguns índios desajeitados e aos berros, que tentam controlar essa horda fedorenta como podem. Recentemente elevados à função de guardadores de porcos, os camponeses de túnicas manchadas e sujas se agitam com longos bastões. Nem sequer ousam fazer uso deles para bater no traseiro dos porcos. Ao contrário, estão prontos para fugir quando um leitão esbarra neles. Na retaguarda, a uma distância prudente, uma multidão de cusquenhos começou a se formar. Homens, mulheres e crianças, às gargalhadas, arregalam os olhos para ver esse estranho cortejo. Pondo-se aos berros, Gabriel salta para o centro da ruela. Ele chuta alguns traseiros redondos e, capturando um jovem macho pelas orelhas, bloqueia a debandada. Subitamente imóveis, os porcos parecem se acalmar. De focinho levantado, olhos estranhamente atentos, eles calam seus gritos estridentes. Completamente estupefatos, os porqueiros examinam o intruso com desconfiança. Gabriel os saúda em quíchua para tranqüilizá-los. Mas quando pergunta para onde vão os animais, a resposta inicial é o silêncio. Ele se dá conta de que seu sotaque deve surpreendê-los tanto quanto seus trajes, o rosto onde a lama seca começa a se descolar e onde o suco verde da coca escorre da comissura dos lábios. Finalmente, um dos homens levanta a mão e aponta na direção da casa de Gonzalo: - Para a casa desse estrangeiro. Esses animais são dele. Mandou que fossem trazidos de Cajamarca só para comê-los. Na voz do homem há as mesmas medidas de incredulidade e respeito. Numa revelação repentina, Gabriel compreende que a sorte finalmente lhe sorri. - Vou ajudar vocês - anuncia. - Eu sei como conduzir esse tipo de gado. Mesmo assim, eles têm de batalhar durante algum tempo para que toda a vara de porcos atravesse a porta em forma de trapézio da cancha. A algazarra recomeça e, agora, é maior ainda, pois as jovens criadas índias fogem diante dos animais excitados que galopam de uma extremidade à outra do pátio, derrubando e quebrando algumas jarras, irritando os cavalos que estavam recebendo cuidados. A casa de Gonzalo não mudou quase nada em dois anos, desde que Gabriel esteve ali pela última vez. De novo, no máximo, há as sólidas portas, com um belo trabalho de marcenaria espanhola, que fecham as entradas para os aposentos e uma balaustrada construída no pátio para prender os cavalos. Sem dar mais atenção aos porcos, Gabriel se posiciona no centro do pátio. Não precisa esperar muito para escutar, vindo do pátio vizinho, chamados e gargalhadas, e reconhecer uma voz odiada. De camisa de jabô, calções de veludo e botas reluzentes, Gonzalo aparece, acompanhado de dois de seus cortesãos. Sem lançar um olhar para o homem que parece índio, eles ignoram Gabriel e se divertem com a agitação. Um deles agarra uma jovem criada e a segura à força para brincar com ela, oferecendo-a ao leitão mais violento. Antes que o porco ataque, Gabriel empunha seu cassetete de ponta estrelada e, com um golpe seco no braço, empurra o imbecil, obrigando-o a soltar a moça. - Por Deus! - geme o infeliz. - Ele quase me quebrou o punho, esse macaco! Furiosos, Gonzalo e seu companheiro já se preparam para bater nele, mas se imobilizam quando ele tira o barrete e revela o rosto. Com as costas da mão Gabriel esfrega as faces para tornar ainda mais fácil o reconhecimento. Gonzalo é o primeiro a se recuperar da surpresa e a reagir com sarcasmo: - Vejam só que surpresa! Meus amigos, eu lhes apresento dom Gabriel Montelucar y Flores, que nos foi entregue junto com os porcos! Pois bem, meu caro, finalmente parece que encontrou um lugar digno de sua pessoa! Ao lado dele, os outros já desembainharam a espada. Gabriel os ignora. - Diziam que você estava desaparecido, foragido e que talvez até estivesse morto - diz Gonzalo em tom de troça. - Mas não, vejam só, aí está você, bem vivo e sujo de merda, ao que parece! Devo compreender que meu caro irmão Francisco finalmente decidiu dar-lhe um pontapé no rabo? A violência inunda o olhar de Gabriel. Gonzalo e seus companheiro recuam dois passos. - O inferno abre suas portas, Gonzalo - diz Gabriel rangendo os dentes, agitando o cassetete. - Afinal chegou o dia em que você vai ocupar o lugar que lhe está reservado nele! - Ora, mas você acredita que vai me meter medo com esse instrumento? - retruca Gonzalo às gargalhadas. - Com esse instrumento, Gonzalo, vou esmagar seus colhões! Você está perdido. Não sou daqueles que esperam que Deus venha punir os crápulas da sua laia. Terei o prazer de me encarregar disso pessoalmente. Por um instante o medo crispa os lábios dos companheiros de Gonzalo. É esse o momento que Gabriel escolhe para partir para o ataque. As espadas se cruzam, ele as afasta com um violento revide com o braço. O bronze do cassetete se choca contra as lâminas. Gonzalo recua com um pequeno salto e do calção puxa uma adaga. Com um golpe curto, ele tenta atingir o braço de Gabriel. A lâmina encontra apenas o vazio e a brutalidade do golpe o desequilibra. Curvando-se para escapar às lâminas das espadas dos outros dois, Gabriel acerta-lhe um violento golpe na coxa. Gonzalo cai no centro do pátio com um grito de dor. Gabriel quer repetir o ataque, mas a ponta de uma espada corta seu unku e toca de leve em suas costelas. Ele rola encolhido sobre o solo enquanto os dois espanhóis acertam o ar à esquerda e à direita. Ele se defende das lâminas com o cassetete, o cabo vai sendo rudemente retalhado pelos repetidos golpes e rapidamente perde a solidez. No espaço de um segundo, ele sonha com aquela terrível impotência que viu tantas vezes nos guerreiros incas quando, com sua espada, destruía suas armas. Como eles, dentro de muito pouco não terá mais nada a oferecer ao ferro além de sua própria carne. É então que lhe ocorre uma idéia. Com um berro de raiva, ele se torce e gira o braço tomando impulso e, como uma pedra de funda, lança sua maça contra o rosto do mais próximo. O espanhol não tem tempo de se esquivar, o bronze se enterra em sua face, esmagando os ossos com um estalo seco enquanto o homem desaba, já inconsciente. Aproveitando-se do pânico do outro combatente, Gabriel mergulha para agarrar um dos porquinhos enlouquecidos de medo com o combate e o levanta de braços estendidos, estranho escudo esperneante, enquanto seu atacante luta para espetá-lo. A espada trespassa o animal como se fosse manteiga e penetra tão profundamente que fica presa nele. Com um movimento giratório, empregando toda sua força, Gabriel atira o porquinho para o outro lado do pátio. Com o choque, a espada rasga as entranhas do pobre animal e arranca- lhe gritos esganiçados de agonia, enquanto Gabriel, com um chute bem aplicado no baixo-ventre, afasta o cortesão desarmado. Ele precisa apenas de dois saltos para cair em cima de Gonzalo. Com uma energia de louco, atira-se sobre ele e fecha as mãos em torno de sua garganta. - Agora acabou, Gonzalo - diz por entre os dentes. - Acabou, o mundo não quer mais você. Hipnotizado pelo olhar asfixiado de Gonzalo, Gabriel não escuta os gritos nem os ruídos de botas às suas costas. Quando a ponta guarnecida de agulhetas de uma sola de sapato o acerta abaixo das costelas, a surpresa, na mesma medida em que a dor, o faz perder o fôlego. Ele larga sua presa e balança sobre as pernas de Gonzalo. Antes que possa se recuperar, um novo golpe violento o acerta na têmpora, deixando-o tonto. Ele é dominado. Meio cego, com a cabeça girando, não se debate mais. É com dificuldade que tem consciência de que estão lhe amarrando as mãos atrás das costas. A fúria da frustração lhe dá um último resquício de energia. Reunindo o que resta de suas forças, faz um movimento para tentar se levantar, para que acabem com ele de uma vez. E é exatamente o que parece acontecer. Sua nuca explode e tudo o que resta é a escuridão. o A obscuridade fica avermelhada, torna-se líquida e confusa antes de se transformar numa dor luminosa. Um martelar o importuna como se estivessem lhe batendo dos pés à cabeça. Com espanto, Gabriel se dá conta de que suas mãos o obedecem e se movem. Ele passa os dedos sobre o rosto. A umidade morna de seu sangue os deixa pegajosos. Ele abre os olhos. No tempo que leva para ajustar a vista, compreende. Está deitado no chão de terra batida de um aposento. Ele o reconhece: era ali mesmo que se abrigava há muito tempo, antes de partir de Cuzco cumprindo as ordens de dom Francisco. Ainda atordoado, ele se endireita e se senta. A golpes de malho, um homem alto e gordo como uma barrica fecha com cuidado sobre seu tornozelo direito a grilheta de uma corrente chumbada na parede. A despeito do corpo volumoso, o homem tem uma espantosa precisão de gestos. Gabriel repara que seus olhos negros não exprimem nem crueldade nem prazer, enquanto cumpre sua tarefa: pelo contrário, a expressão é de tédio. Quatro homens o cercam e o observam, os semblantes ameaçadores e indiferentes. - Como se chama? - pergunta Gabriel. - Enrique Hermoso, dom Gabriel, mas meus amigos me chamam de Kike. - Faça seu trabalho, Kike, e não se preocupe com mais nada. Com um suspiro, Kike prossegue e Gabriel cerra os dentes. Tenta absorver em sua observação os recém-chegados, cujos rostos não conhece. Igualmente novos sãos seus coletes de couro bem grosso, incrustados com o brasão de família de Pizarro: pinheiro e pinhas ladeados por dois ursos andando sobre ardósia. Novas também as alabardas de lâminas em forma de crescente que eles trazem apoiadas negligentemente contra o ombro. Também é quase sem surpresa que ele os vê se afastarem para dar lugar a um homem grande, de barba requintadamente bem aparada, gola de renda impecável e engomada: dom Hernando Pizarro. - Acabo num instante, senhor - diz o homem gordo. Ele aplica um último golpe de malho que escorrega apenas o necessário para machucar o tornozelo de Gabriel, arrancando-lhe um gemido de dor. O carcereiro deixa escapar uma risada constrangida: - Com esta corrente na perna, ele não vai nem pensar em ir dançar, dom Hernando! - Perfeito, Enrique - diverte-se Hernando. - Vamos oferecer um baile à nossa moda ao senhor Montelucar y Flores. Depois de o homem gordo se levantar arquejando, Gabriel cerra os dentes para se pôr de pé sem demonstrar nenhum sinal da vertigem que lhe traz o coração à boca. Sua perna está tão dolorida que mal consegue sustentá-lo. Hernando sacode a cabeça: - O tempo passa sem lhe causar grandes mudanças, dom Gabriel. Eu o deixo cheio de amargura e volto a encontrá-lo exatamente da mesma maneira trinta meses depois! Se bem que, se considerarmos seus trajes, exatamente da mesma maneira não seriam os termos exatos. Veja só como está, um pouco mais degradado e próximo das fossas fecais! Gabriel cospe uma saliva vermelha. - Muito bem - diz dom Hernando. - Agora está explicado o fedor que sinto por aqui desde sua chegada. Um dos homens de colete de couro faz menção de avançar; Hernando o impede com um gesto da mão. Montelucar, dessa vez você não poderá contar com dom Francisco para vir salvar o dia. Aqui, daqui por diante, o patrão sou eu. Meu querido irmão, o Governador, ficou tão feliz ao me ver voltar da Espanha que me nomeou oficialmente Vice-Governador. E, felizmente, ele afinal abriu os olhos a seu respeito. Tomou conhecimento de como havia abandonado a missão que ele lhe tinha confiado! - De pouco lhe adianta! retruca Gabriel por entre os dentes, apoiando as costas na parede. - O título, por mais grandioso que seja, não basta para esconder a mediocridade daquele que o tem. Estrume você é, e estrume continuará sendo, dom Hernando. Com uma bofetada violenta, a mão enluvada de dom Hernando arrebenta o lábio superior de Gabriel, que cai de quatro no chão. Você não está mais em situação de se fazer de malcriado, cão sarnento! sibila Hernando. - Agora, neste instante, eu poderia esmagar você como a merda que é. Poderia lhe deixar nas mãos de Gonzalo, que sonha apenas em arrebentar suas tripas! Mas isso seria lhe dar honra demais. Em Toledo, me explicaram com cuidado como são apreciados os julgamentos. Pois muito bem, vou submeter você a um julgamento! Com todas as devidas formalidades legais. Desse modo, toda a Espanha saberá por que enforcamos o excremento bastardo dos Montelucar y Flores. Toda a Espanha, meu amigo, se lembrará do nome do primeiro dos traidores da Coroa nas terras do Peru! Uma gargalhada gostosa escapa da boca ensangüentada de Gabriel: - Vai ser preciso correr com esse julgamento, Hernando! Seus irmãos trataram tão bem Manco e sua família que os incas agora estão como bestas sedentas de sangue. Manco e seus generais reuniram dezenas de milhares de homens nos vales ao norte de Cuzco. Eu os vi com meus próprios olhos. São mais de cem mil! Amanhã ou depois de amanhã, haverá o dobro desse número, e eles estarão aqui... O efeito de suas palavras é um abatimento entre os homens que cercam Hernando Os olhares se cruzam, duros e sombrios. A gargalhada de Hernando soa carregada de um excesso de desprezo. - Mas vejam só que novidade! Se esses palhaços imaginam que vão retomar a cidade com suas pedras e seus pedaços de pau, as coisas vão correr como de hábito e eles serão massacrados, cortados em pedaços. Em seu lugar, Gabriel, eu não faria muita fé nessas futilidades. E orações certamente serão de mais valia para salvá-lo do destino que o espera que os selvagens!
Capítulo 2 Cuzco, 3 de maio de 1536.
Não lhe oferecem como esmola nem um colchão de palha. Num canto, o carcereiro largou um cântaro de água e três espigas de milho cozidas. Durante dois dias, Gabriel mal toca nelas. Abre vagamente as pálpebras quando o homem corpulento vem se assegurar de que ele ainda está vivo. - Dom Gabriel? - Estou aqui, Kike. Enfim, o que resta de mim... - Sinto muitíssimo por... Kike imita o movimento do malho que escorrega sobre o tornozelo. Gabriel levanta a mão com indiferença e uma risada que se assemelha a uma tosse lhe rasga a garganta. - É que eu acreditava que você fosse mais hábil. Então não foi de propósito? - Mas claro que não, dom Gabriel, juro que não! Até mesmo desobedeci às ordens de dom Hernando deixando que ficasse com sua... Com a mão, o carcereiro indica a chuspa. Para esquecer as dores que se irradiam em seus músculos, Gabriel mascou todas as folhas de coca contidas na sua única peça de bagagem. Na verdade, ele mastigou tantas que, insípida, a pasta de folhas tornou-se grande como um ovo em suas bochechas. - Obrigado, Kike - retruca muito tranqüilamente. - E agora me deixe só. O gordo lhe dá de beber, sustentando-lhe a nuca. Gabriel sente o cheiro de seu suor, um odor azedo, mas, curiosamente, a intimidade com aquela presença humana tão próxima, em seu estado de fraqueza extrema, lhe parece tão miraculosa que seus olhos se enchem de lágrimas. Ele fica sozinho. A fadiga se diluiu como fumaça, fundida numa náusea que não o abandona mais em nenhum instante, mesmo quando se deita no solo do cárcere. súbitas Crises de febre alta o deixam tremendo de frio e todo encolhido junto à parede, os dedos agarrados à corrente como se ela pudesse impedi-lo de naufragar no nada. Tem medo do sono. Contudo, mergulha nele brusca e irreversivelmente como uma pedra rolando, para cada vez ser dominado por um estranho delírio. Imagens o perseguem, tão estranhamente verídicas, tão palpáveis quanto a realidade, de modo que não consegue acreditar que sejam um sonho. Ele vê nitidamente as patas de seu cavalo baio se enterrarem brutalmente na crosta de sal de um deserto mais branco que o linho e do qual não recorda mais o nome. A água goteja entre os cascos e as patas partidas. Os olhos grandes e redondos do baio o fixam, implorando. Ele vê a si mesmo, por muito tempo imóvel, com os braços enlaçados em torno da cabeça do animal enquanto o sol o calcina. E depois, com um golpe repentino, sua adaga se enterra na garganta do cavalo. Ondas de sangue, muito mais do que qualquer animal poderia ter, escapam sem que o sol possa coagulá-lo. Um sangue que ferve e parece querer engolir tudo. Agora o sol está imenso. Tão grande que parece se assentar sobre todo o horizonte da terra e não há mais nenhuma sombra. Gabriel quer se proteger se enfiando dentro da carcaça do cavalo. Mas, quando abre o ventre do baio como se abre um fruto, ele próprio se torna um animal, um ser com forma de fera selvagem capaz de saltar e escapar daquele lugar de morte. A loucura do sonho o transporta para um prazer intenso. O que ele vive e vê não tem mais nenhuma ligação com a razão. O sol está de novo distante e ameno. O deserto desapareceu. Cada vez que se lança, seus saltos prodigiosos o enchem de um prazer infantil e violento. A sombra de sua silhueta de felino forte e extraordinário desliza sobre as sinuosidades dos campos e sobre a poeira dos caminhos. Seus flancos de pêlos sedosos afastam as folhagens das árvores mais altas. Os rochedos acolhem suas garras com doçura quando neles busca apoio. Como se fosse um pássaro, a brisa é sua amiga e o transporta. Sua corrida o conduz para logo acima da imensidão azul do Titicaca. Ali, deitado sobre o flanco, ele escuta o ensinamento do Mestre das Pedras. o vê brincar com uma pedra de funda que lança muito alto para dentro do céu. Gabriel, tomado de espanto, vê a pedra se manter lá no alto, como se ela tivesse se tornado tão leve quanto uma pluma. O Mestre das Pedras sorri para ele. Um sorriso acolhedor e triste, no qual Gabriel adivinha um desejo sem que uma palavra seja pronunciada. Então ele escuta um som de riso. Toda vestida de branco, Anamaya aparece, abraçando uma estátua de ouro, uma estátua tão viva quanto um homem. Ela estende a mão para ele e o chama. - Gabriel! Um chamado doce e melodioso ao qual ele não pode resistir. Apesar de agora ser um animal feroz, vai ao seu encontro. Quando se deita junto dela, percebe que o homem de ouro não está mais lá. Mas Anamaya está nua, ao mesmo tempo bela e frágil. Tão desejável quanto se oferecendo a ele. Ela não demonstra nenhum sinal de medo. Ela abraça seu pescoço de animal selvagem, beija seu focinho e a mandíbula que poderia estraçalhá-la. Nem sente seus cascos quando ele põe as patas sobre ela. Durante um longo momento eles vivem apenas felicidade e paz, e depois, atrás dos ombros de Anamaya, Gabriel descobre o homem de ouro que os observa das sombras. Ele brilha como uma estrela na noite. Sem fazer qualquer movimento com os lábios, ele se dirige a Anamaya. Ela abandona Gabriel sem hesitar. Ela não se vira, não escuta o rugido rouco, aquele urro de fera furiosa e mortalmente ferida que ecoa entre as montanhas. A violência de seu próprio lamento rasga-lhe a garganta e ele abre os olhos. O suor cola as roupas em farrapos contra o peito de Gabriel. Uma saliva amarga empasta sua boca. A dor, que parece perfurar seu crânio depois dos golpes de bota que recebeu no pátio de Gonzalo, toma-o de assalto, ainda mais intensa. Um instante depois, trespassado de dor, ele não sabe mais se sonhou ou se foi dominado pela loucura. Se tivesse forças, rezaria para pedir a Deus que o fizesse dormir um sono verdadeiro até o fim dos tempos. É o frio de uma aurora, trazido por um vento violento, que afinal o desperta de verdade. Da estreita janela que, no telhado, se abre para a cela, desce um ar gelado que anuncia o inverno. Na luminosidade fraca que precede o amanhecer, Gabriel descobre o estado assustador em que se encontra. Sua túnica, numa imundície de inspirar asco, está em farrapos. Ela mal consegue cobri-lo. Todo seu corpo, da cabeça aos pés, dói. Com as pontas dos dedos, apalpa o rosto ainda inchado por causa dos golpes recebidos. Sob o anel da corrente, seu tornozelo está em carne viva. A náusea se desvaneceu um pouco, mas sua cabeça continua pulsando como se seu coração, como um tambor, nela estivesse batendo uma chamada. Com cuidado, ele umedece os lábios inchados na água do cântaro e finalmente mata a sede. As espigas de milho que o carcereiro trouxe dois dias antes agora estão endurecidas. A fome que o atormenta é violenta demais para que deixe de devorá-las. Só então Gabriel se dá conta de que o bater ritmado que ouvia até aquele momento não vem de seu cérebro louco ou de seu corpo ferido. É um efetivo retumbar de tambores, que soam cada vez mais violentos e mais próximos. Recuperando toda a lucidez, ele aguça os ouvidos, escuta com atenção, agarra a corrente para subir até a estreita abertura no telhado, no instante em que se fazem ouvir os primeiros gritos dos espanhóis ao redor da cela de sua prisão. - Incas! Incas! A abertura estreita da janela impede sua visão. De início, ele não vê nada. Os chamados enlouquecidos agora vêm de todas as direções na penumbra densa que ainda envolve a cidade. - Incas! Incas! Mas é uma enorme algazarra de trompas e de gritos que atrai sua atenção para as colinas do leste, que se elevam sobre a cidade, O que ele descobre ali faz gelar seu sangue ainda mais que o vento cortante que castiga seu rosto. Poder-se-ia crer que são sebes ou arbustos sacudidos por borrascas, mas da massa espessa surgem braços, lanças e auriflamas. Milhares de silhuetas se recortam na brancura do céu! O imenso exército inca cerca Cuzco, cobrindo a crista das colinas como o corpo de uma serpente monstruosa. Durante a noite, o vento varreu o verde até dos terraços mais altos, deixando ali aquela multidão de cores variadas que agora urra a plenos pulmões. O bater dos tambores, o som grave das trompas de conchas redobram. O pânico lança os espanhóis nas ruas. Passado o primeiro arrepio de temor, Gabriel não pode deixar de admirar aquele espetáculo extraordinário. Anamaya e Manco puseram o plano em execução! O prazer da vingança lhe aquece o coração. Ele esquece o que esse plano tem de ameaça para si mesmo e para as centenas de espanhóis em Cuzco. Na verdade, agora, pouco lhe importa morrer num massacre tão merecido! Mais vale morrer nas mãos dos guerreiros conduzidos por Anamaya que sob os golpes perversos de Hernando e Gonzalo! Durante horas seguidas ele não deixa a pequenina janela, a cada instante espera o ataque que não deve tardar. Não duvida de sua força e de sua extrema violência. A surpresa é que ao meio-dia o imenso exército inca ainda não atacou a cidade. As fileiras de guerreiros parecem ter-se multiplicado a tal ponto que não se consegue mais distinguir as cores vivas das túnicas, apenas uma massa escura e compacta. A algazarra ensurdecedora não cessou. Ao contrário, Gabriel não ouve mais os chamados ao redor da cadeia, nem um movimento. Cuzco parece abandonada. Assim, quando escuta alguém retirando o cilindro de madeira que mantém fechada a porta da cela, ele se imobiliza com a corrente nas mãos. É seu carcereiro barrigudo que aparece, com um grande cantil de couro numa das mãos e na outra uma manta contendo bolachas de milho e batatas cozidas. - Kike! - Não me receba tão gentilmente, dom Gabriel, eu não mereço seu reconhecimento. - Eu daria boa acolhida até ao diabo em pessoa, meu caro Kike. Nunca tinha me dado conta de a que ponto é o rosto dos outros que confirma nossa própria existência. - Não me venha com conversas filosóficas, dom Gabriel, não entendo nada disso. Aliás, nunca entendi. É nesse instante que Gabriel repara no medo que transborda de seu semblante. Kike examina cada canto da cela como se nele pudesse estar escondido um exército de índios. O carcereiro quase joga seu carregamento aos pés de Gabriel. - Será preciso que se satisfaça com isso por um bocado de tempo - resmunga. - Sinto muito, foi tudo o que consegui encontrar. - Ora, mas o que é isso - protesta Gabriel. - Devem me levar a julgamento, não me fazer morrer de fome! A risada do homem soa sem nenhuma alegria. - Você ouviu tão bem quanto nós. Os selvagens estão aí. Deveria estar feliz por eu ter me lembrado de você antes de bater em retirada. - Vocês estão fugindo? Os espanhóis estão abandonando a cidade? - Ah, claro que não! Ninguém está fugindo, agora já é tarde demais. Mas eu conheço um buraco bem escondido onde posso desaparecer antes de permitir que os índios me façam em pedaços! O homem se aproxima da pequena janela e lança um olhar na direção das colinas. - O que se vê daqui não é nada. Eles estão por toda parte, a planície ao sul está totalmente coberta. Eles já capturaram dois cavaleiros que tentavam passar. Cortaram as patas dos cavalos e a cabeça dos cavaleiros. E assim, portanto, reflete Gabriel, Hernando foi apanhado de surpresa por seu orgulho e seu desprezo pelos incas. - O que é estranho - suspira o gordo carcereiro se virando - é que ainda não atacaram. Na minha opinião, eles têm alguma idéia em mente. O melhor será não estar no caminho deles quando quiserem nos mostrar qual é. - Me aconteceu uma coisa estranha, Kike. - O que foi? - Não tenho mais tanta vontade de morrer. O carcereiro o observa tomado de um enorme espanto. - E que posso fazer quanto a isso? Eu dei a você tudo o que tinha. Não se preocupe. Aqui tem o suficiente até que eles caiam sobre nós! Quando isso acontecer, na minha opinião, não será mais a fome que o incomodará tanto. - Então agradeço, Kike. A calma e a resignação de Gabriel surpreendem mais uma vez o gordo, cujos pequeninos olhos negros se arregalam. - Não me agradeça assim o tempo todo, isso me deixa mais constrangido do que se me xingasse. Tome. Das profundezas de seu gibão sujo, ele tira um embrulho que põe na mão de Gabriel. É uma grossa fatia de presunto, embrulhada em pele de porco curtida. A gordura em suas mãos faz Gabriel ficar com água na boca. Ele faz um movimento na direção do carcereiro, que recua para a porta e lhe dá as costas. - Você ainda vai me agradecer de novo - resmunga. - Apenas rezarei para que você continue vivo. As costas do homem não se moveram. - Me disseram que nem sequer acredita em Deus, dom Gabriel. - Creio o bastante para rezar por você, meu amigo. Quando a porta torna a se fechar, Gabriel fica sozinho e trêmulo. Apesar do medo que cresce em seu íntimo, ele continua segurando nas mãos a fatia de presunto, e um murmúrio sai de seus lábios. Talvez seja uma prece.
Capítulo 3 Cuzco, 6 de maio de 1536
O carcereiro se enganou. Os guerreiros incas não atacam. Nem naquele dia, nem no dia seguinte. Eles permanecem sobre as encostas e as cristas das colinas. Da manhã à noite seu número cresce, mais e mais, ocupando toda a amplidão da planície ao sul da cidade. À noite, milhares de fogueiras se acendem e desenham um alucinante cordão de luzes ao redor de Cuzco, como se ela estivesse cercada por um diadema de braseiros. Contudo, os gritos, os urros e o retumbar dos tambores se calaram. Esse silêncio, essa espera se fazem sentir tão pesados e incômodos sobre os espanhóis que, volta e meia, Gabriel escuta os gritos enlouquecidos daqueles que não conseguem mais suportar a ameaça. Ele também, depois de dois dias desse tratamento, começa a se sentir dominado pela impaciência do combate. Pelo menos a espera e a imobilidade forçadas lhe permitem recuperar as forças e acalmar as dores, a despeito das pequenas rações de alimentos que, por precaução, se permite consumir a cada dia. Temendo que os asseclas de Gonzalo se aproveitem dessas horas estranhas para vir degolá-lo às escondidas, ele se limita a breves momentos de sono. Aproveita as horas tediosas para confeccionar uma arma improvisada. Com cuidado, quebra o cântaro de água, abandonado pelo carcereiro, de maneira a obter uma lasca comprida e grossa no prolongamento da asa. Durante horas a fio, com gestos maquinais, ele vai polindo a lasca nas pedras da parede. Mas esse movimento repetitivo o deixa com o espírito vazio e ele não consegue se impedir de sonhar com Anamaya. Seus sonhos lancinantes e loucos cessaram, mas o rosto e o perfume tão especiais de sua amada permanecem vivos em seus pensamentos. Os sons delicados do riso e do prazer de Anamaya dançam em seu cérebro como uma canção. De tempos em tempos, enquanto apalpa o polimento cada vez mais perfeito da cerâmica, ele fecha os olhos. Imagina-se mais uma vez a tocar, a sentir sob a polpa de seus dedos a nuca e os quadris de seu amor impossível. Ah! Como poderiam estar felizes naquele instante, se ela o tivesse seguido e fugido com ele para o lago Titicaca! Infelizmente, basta-lhe abrir de novo os olhos para avaliar a cegueira de suas esperanças e a realidade que o cerca, a corrente que massacra sua perna, a enxerga de palha apodrecida e aquele raio de luz fria, indiferente, que atravessa como uma adaga a parede espessa de sua prisão. Anamaya está longe na montanha. Ela é a esperança viva de um povo ao qual ele nunca pertencerá, ele, Gabriel Montelucar y Flores, o estrangeiro vindo de tão longe para roubar-lhes a paz e o destino. A sobrevivência deles exige: os incas devem retomar Cuzco, tornar-se de novo os senhores poderosos e destruir todos os espanhóis, sem exceção! Ele e todos os outros. Brevemente, ele não será mais nada para ela, apenas uma lembrança, que Manco e o poderoso sacerdote Villa Oma se esforçarão para apagar de sua memória. Como foi possível que acreditasse, mesmo por um único instante, que as coisas pudessem ser diferentes, que ele pudesse segurar-lhe a mão, como o faria com uma mulher comum, e abraçado a ela caminhar em direção à felicidade? Se Deus existe, Deus o estava punindo por essa cegueira... E se não existisse, estava pagando simplesmente por sua ingenuidade. Ora essa! Ele se coça até arrancar sangue da pele, para se impedir de se perder no turbilhão inútil de perguntas. O caco de cerâmica, que poliu com extremo cuidado durante dois dias, lhe parece de repente a mais grotesca das obras que algum dia produziu. O esquecimento absoluto em que está sendo mantido é muito pior que a degola! Que necessidade ele tem de uma arma? Os Pizarro nem se darão ao trabalho de enfiar- lhe uma lâmina no corpo. Basta-lhes esquecê-lo, deixar que a sede e a fome se encarreguem dele, abandoná-lo à fúria dos índios, e pronto. Então, tomado pela cólera, ele atira contra a parede o caco de cerâmica que explode e se transforma de novo em poeira. Depois de um instante de estupefação diante de seu próprio gesto, Gabriel se enrosca como uma bola, se enrola na corrente como se fosse um cabresto e busca o sono como se entrasse no vazio. É um ligeiro ruído que o desperta. Um rangido que ele reconhece. Alguém está levantando discretamente o cilindro de madeira que mantém fecha da a porta da cela. Instintivamente, ele se levanta apoiado nos braços. Em silêncio, junta os elos da corrente e os cerra no punho como se fossem um malho. Sua resignação se perdeu no sonho. O desejo de combater se irradia por suas costas e quadris. O orgulho exige que ele se defenda com ódio suficiente para massacrar seus agressores. Está tão escuro que não consegue ver a porta se abrir, mas percebe um breve movimento no ar. É impossível saber quantos são. Tão silenciosamente quanto é possível, se cola contra a parede e permanece agachado. Ele se obriga a respirar suavemente e tenta não imaginar que sua derradeira hora tenha chegado. Bruscamente, range o postigo de uma lanterna furta-fogo. O clarão amarelo de uma vela percorre as paredes antes de se deter sobre ele. Quando a iuz o encontra, o clarão da vela é agitado por um sobressalto. - Gabriel! Mesmo baixa e velada, ele reconhece a voz muito antes de distinguir o hábito longo de grossa lã marrom. - Gabriel, não tenha medo, sou eu. - Bartolomé! Frei Bartolomé! - Sim, meu amigo - sussurra Bartolomé com um sorriso. Como que querendo apagar qualquer sombra de dúvida, o monge estende o escasso facho de luz para a mão em que o dedo médio e o indicador são estranhamente colados. - Santo Deus! - exclama Gabriel. - Você é realmente a última pessoa que eu esperaria ver aqui esta noite. - Foi exatamente por isso que tomei a precaução de me mostrar sob a luz antes que você saltasse em cima de mim... Gabriel ri, deixando cair a corrente. - Bem pensado! E, como o monge se aproxima dele para abraçá-lo fraternalmente, Gabriel o afasta com um gesto. - Seria com prazer que eu lhe daria um grande abraço, mas acho que é melhor não fazê-lo! Com um movimento lento com o candeeiro, Bartolomé o examina dos pés à cabeça. - Meu pobre amigo! Em que estado o deixaram! - O fato é que devo estar fedendo a vinte léguas. - Segure esse candeeiro e ilumine meu caminho - sussurra Bartolomé. - Lá fora tenho com que fazer de você um ser humano. Um instante depois ele retorna, com uma grande cesta nos braços. - Trouxe comida para acabar com sua fome - anuncia, colocando a cesta aos pés de Gabriel. - Água também, em boa quantidade, bastante para que possa se lavar e beber, e alguns ungüentos para passar nos ferimentos. - Trouxe o bastante para resistir a um cerco... - Você não imagina como suas palavras estão certas! Mas falaremos de tudo isso daqui a pouco. Primeiro trate de comer. Gabriel sacode a cabeça emocionado. - Ontem à noite, tinha me conformado com a possibilidade de morrer sozinho como um cão, sem que ninguém se preocupasse em impedir que os vermes consumissem meu cadáver. Acreditava que o último rosto humano que veria neste mundo vil seria o de um carcereiro barrigudo.., que, aliás, não era o pior dos homens, mas mesmo assim ficava muito longe de Erasmo e de Sócrates. Mas aqui está você e já me sinto capaz de arrancar esta corrente da parede apenas com minhas duas mãos! - À sua maneira Deus sabe exprimir sua misericórdia, Gabriel, mesmo se você prefere não perceber - diverte-se Bartolomé oferecendo-lhe mais um odre cheio. - Parece-me que seria bom para nós dois que você começasse a se limpar um pouco. Infelizmente, roupas são coisas que me interessam tão pouco que nem pensei em trazer uma muda para que você pudesse tirar esses trapos. - Dom Remando veio me ver para me anunciar que você tinha voltado e sido preso - explica Bartolomé, enquanto Gabriel ataca com apetite um pernil de lhama assado. - "Meu irmão", disse-me com seu tom de voz mais suave, "esse homem merece apenas a morte. Não duvido que venha a tê-la. Mas nós sabemos que a caridade cristã se melindra com sentenças condenatórias apressadas. Assim sendo, vamos oferecer um julgamento a esse bastardo. Nessas condições, não vejo nenhuma outra pessoa aqui que seja mais indicada e capaz de se desincumbir dessa tarefa de maneira irrepreensível que o senhor..." E foi assim que ele fez de mim o juiz encarregado de seu destino. Uma pequena gargalhada interrompe Bartolomé, que dá a Gabriel algum tempo para se acalmar, antes de acrescentar: - Dom Hernando voltou da Espanha mais astucioso do que nunca. Ele se viu em muito má posição em Toledo. Os métodos dos Pizarro chocaram muita gente na corte. Até no séquito da rainha as pessoas ficaram emocionadas com o fim de Atahualpa. - Até que enfim! - Ah! Mas isso não foi tão longe quanto deveria! Ele recebeu a ordem de Santiago quando o que merecia era minguar no cárcere da prisão onde nos conhecemos, você e eu. Essa lembrança os une num sorriso. - Pedi que me deixassem interrogá-lo imediatamente - prossegue Bartolomé. - Tentaram me dissuadir usando como pretexto o fato de que era preciso que você tivesse mais algum tempo sozinho para se arrepender. A partir disso, concluí que eles deveriam ter posto você em péssimo estado! - De que sou acusado? - De tentativa de assassinato contra Gonzalo... Mas, antes disso, de traição por ter abandonado a missão que o Governo havia confiado a você: seguir dom Almagro em sua expedição ao sul... - E que bela missão! Ela consistia, sobretudo, em assistir aos horrores que Almagro espalhava por toda parte em seu caminho. Você não pode imaginar as coisas que vi por lá, Bartolomé. A corte de Espanha se emocionou com o fim de Atahualpa? Pois ela vomitaria as tripas e os intestinos se eu pudesse lhes mostrar o que meus olhos viram durante semanas! Os caçadores de fortuna que acompanham Almagro violentam e matam os índios como se fossem apenas ratos. As crianças, os velhos, as mulheres, os doentes... Para eles, nem vida nem respeito. Eu os vi até decapitarem mortos! Ao longo de centenas de léguas, não restou um único vilarejo que não tenha sido queimado, pilhado, roubado! - Eu ouvi falar disso. - Mas eu estava lá. E estava impotente. Quando quis protestar, Almagro muito gentilmente apontou uma besta contra mim. Imagine o que é estar no meio de todo esse sofrimento, dia após dia, sem poder fazer nada para combatê-lo, nem sequer aliviá-lo. Imagine a vergonha que representa ser um assassino como essa escória da humanidade que se desferra por lá, babando-se de loucura por ouro! - Por que diz isso? Você, pessoalmente, não fez nada. - Eu não espalhei o sofrimento, mas também não o impedi, o que acaba dando no mesmo. Desde então, para o futuro, aos olhos das pessoas deste país, todos os espanhóis são iguais... Com veemência, Gabriel aponta para a pequena janela onde brilham as fogueiras dos incas: - Para os milhares de guerreiros que nos cercam e berram lá no alto, não existem mais bons ou maus "estrangeiros". Para eles, todos nós merecemos ser exterminados. É esse o resultado da política de Hernando, de Almagro e de seus cúmplices infernais como Gonzalo, a quem eles permitem tudo! - Pelo menos você poupa o Governador de fazer parte dessa lista - constata Bartolomé com um gesto de apaziguamento. Com um murmúrio de amargura, Gabriel se levanta e puxa a corrente para ir respirar um pouco de ar fresco na janela estreita. - Dom Francisco não é um homem bruto - concorda. - Mas ele sabe muito bem fechar os olhos quando lhe convém, bem demais. E quase sempre lhe convém. No céu, a leste, quase não se percebe o alvorecer, tão iluminado está o firmamento com as fogueiras dos incas. Como nas noites anteriores, as colinas estão coalhadas de brasas de milhares de fogueiras, cujos reflexos alcançam as paredes de Cuzco. Aqui e ali, podem-se distinguir silhuetas que se deslocam. - Creio que vamos esquecer o seu julgamento - comenta Bartolomé, que se aproximou. - Vou tomar providências para que você seja libertado, Gabriel. Vou encontrar uma ferramenta para partir essa corrente. Isso passará facilmente despercebido, tamanha é a confusão na cidade. - Obrigado, irmão Bartolomé. Mas, no momento, poupe-se de criar grandes ilusões. Aqui dentro ou lá fora, estamos todos em pé de igualdade. A hora de nosso julgamento final parece realmente ter chegado. Por um instante os dois ficam parados em silêncio, fascinados pelo rio de fogo que une as colinas. - Eles são talvez duzentos mil - murmura de repente Bartolomé. - Ficamos nos perguntando por que estão esperando para acabar conosco. - Estão esperando apenas que não tenhamos mais nenhuma chance de lhes oferecer resistência. - Ou que morramos de fome! Há cada vez menos alimentos. O que trouxe para você esta noite, tive de roubar, e tão cedo você não verá um cesto tão cheio. Hoje, um cavaleiro chamado Mejia decidiu que a qualquer preço abriria uma passagem pela planície. Num piscar de olhos ele foi destroçado. Eles o decapitaram antes de fazerem em fatias os tendões de seu cavalo! - Quais são as ordens de Hernando como defesa? - Ele pensa em reunir os cavaleiros para conduzir um ataque de maneira - a abrir uma brecha nessa parede humana e ir buscar reforços. - Isso significa quantos cavalos? - No total, há no máximo uns sessenta na cidade. - Que estupidez! - Por quê? - Ah, basta refletir! Mas o senhor Hernando Pizarro está absolutamente convencido de que só tem de enfrentar uns reles selvagens para fazê-lo. Eu conheço um pouco os homens que são os comandantes incas no campo de batalha. Eles sabem muito bem como combatemos e quais são nossas fraquezas. Estão esperando apenas por isso: uma carga de cavalaria agrupada. Eis nossa única tática militar até hoje! - Porque sempre foi vitoriosa. - Desta vez não poderia ser. Os incas deixarão os cavaleiros passarem sem realmente tentar contê-los. Ou os manterão ocupados com algum tipo de falso combate. Enquanto isso, o que vai acontecer? Restarão apenas duzentos ou trezentos espanhóis em Cuzco para enfrentar cem mil índios e sem nenhuma outra defesa, exceto um par de pernas e uma espada! O combate não vai durar nem um dia, Bartolomé. No corpo-a-corpo, os soldados de Manco são temíveis. Suas pedras de funda perfuram até as melhores couraças e quebram as lâminas de nossas espadas. Estou lhe dizendo: o milagre de Cajamarca não vai se repetir! - Que outra solução sugere? - A paz! Restituir a Manco todos os seus direitos reais, devolver-lhe o ouro roubado... Mas isso não vai acontecer e de qualquer maneira já é tarde demais: os incas não quereriam mais. Por que aceitar a paz se podem nos esmagar como se fôssemos moscas? Bartolomé concorda com um movimento de cabeça. Mas sua voz está ligeiramente diferente quando comenta: - Dom Hernando afirma que agora você se tornou um espião de Manco, que participou de sua fuga e da organização deste cerco... - E que eu ando escondendo uma grande estátua de ouro e também uma certa princesa inca que nos apresentam como a esposa desse homem de ouro! - completa Gabriel com uma gargalhada amarga. - É bem verdade que há rumores muito estranhos correndo a seu respeito - suspira Bartolomé. - Mas também não é de admirar, depois de ver você voltar aqui, disfarçado de camponês índio... Sem falar nas ações violentas que cometeu. Gonzalo só consegue andar manquejando muito, num péssimo momento, e você realmente partiu o crânio de um de seus melhores amigos. Por que tanta selvageria? De repente Bartolomé mostra aquele distanciamento, aquela mesma curiosidade fria que Gabriel, no passado, tantas vezes suspeitou que escondesse sombrios desígnios. - Isso é o interrogatório do juiz que se inicia? - Gabriel! - A esta altura das coisas, posso lhe confessar sem rodeios que o que mais lamento é ter errado meu golpe. Meu cassetete deveria ter-se enfiado no cérebro de Gonzalo e não no de seu amigo. E por isso, sim, mereço ser punido! Receio que eu continue não compreendendo o motivo de tanto ódio, meu amigo. Gabriel hesita por alguns segundos. O céu torna-se cada vez mais pálido ao redor das colinas. Parece que os guerreiros incas se agitam mais do que de hábito. - Há mais de um ano, enquanto eu estava longe, Gonzalo tentou violentar Anamaya - revela em voz baixa. - Foi essa perversidade que precipitou a fuga de Manco. Nem ela nem ele estavam mais em segurança em Cuzco. Evidentemente, Gonzalo não deve ter-se gabado de seu belo comportamento e você não poderia ter conhecimento dele. - Santo Deus! - Infelizmente, Gonzalo capturou Manco e o fez seu prisioneiro. Anamaya conseguiu fugir com aquele anão que é seu amigo. Ela se escondeu na montanha para organizar a rebelião. Seu objetivo inicialmente era libertar Manco, que aqui, nesta cidade, estava sendo submetido às piores humilhações. Eu não sabia de nada disso. Soube apenas que Manco era prisioneiro desse louco do Gonzalo e imaginei que Anamaya também devesse estar nas mãos dele. O simples fato de imaginar isso era insuportável para mim. Imediatamente abandonei a expedição de Almagro onde, de todo modo, já havia presenciado mais horrores do que podia suportar... - Compreendo, agora eu compreendo... Bartolomé põe a mão sobre o ombro de Gabriel; sua voz recupera o tom caloroso e fraternal. Gabriel se afasta da pequena janela e, em algumas frases, relata como quis atravessar o estranho deserto de sal para retornar a Cuzco tão depressa quanto pudesse, conduzindo seu cavalo à morte e sendo salvo apenas pela interferência de Katari, o "Mestre das Pedras". - Eu estava morto e ele, literalmente, me ressuscitou. - Katari... - murmura Bartolomé emocionado. - Sempre pensei que em nossa terra esse homem seria uma espécie de santo. Ele tem como que uma presciência de nossos mistérios. Foi ele quem me ensinou minhas primeiras palavras em quíchua, e eu ensinei a ele suas primeiras palavras em espanhol. Mas soube, apenas de olhar para ele, que era uma alma pura, uma alma rara. Se Deus quiser, com prazer voltarei a vê-lo. - Ah! - exclama Gabriel com entusiasmo, quase sem ouvir o monge. - Eu acordei no lugar mais bonito do mundo! Um lago imenso, quase um mar, a gente do lugar o chamava de Titicaca. As montanhas que o cercam são as mais altas que se pode imaginar, nelas há sempre neve e os picos, em certos dias, ficam refletidos na superficie do lago, como que num espelho. Apesar disso, o clima parece tão ameno como em Cadiz! Os habitantes são pacíficos, amáveis. Meu sonho era voltar para lá e viver com Anamaya. Fugir para lá com ela... Ele interrompe a frase sem completar. Os loucos pesadelos dos dias anteriores, de repente, tomam de assalto seu espírito. Ele gostaria de poder falar deles a Bartolomé, mas alguma coisa o impede. Vergonha, talvez, de confessar que em sonhos se vê como um animal. De modo que se contenta em explicar- lhe sua chegada a Calca quando os guerreiros de Manco ali já chegavam vindos de todo o Império das Quatro Direções. - Lá ela me confessou, ao mesmo tempo, que também me amava, mas que nos seria impossível permanecermos juntos porque iria haver guerra! Na verdade, o que ela me confessou também, Bartolomé, com a grande doçura de suas palavras e seus beijos, foi que para ela eu não era nada mais que um estrangeiro, como os outros, e que... - Gabriel! Por Cristo, Gabriel, olhe... Senhor Todo-poderoso! A exclamação de Bartolomé fez Gabriel gelar. Fazendo estalar a corrente, ele salta para a pequena janela. Um grito de surpresa escapa de sua garganta sem que ele sequer perceba. A meia-luz do dia que nasce, as fogueiras parecem ter descido a montanha, como se o rio de fogo alimentado pelos índios transbordasse. O som lancinante das trompas explode bruscamente, fazendo tremer o ar e, no mesmo instante, do céu e por toda parte ao redor, vociferações eclodem. - Eles estão atacando - murmura Bartolomé num fiapo de voz assustada. - Olhe - exclama Gabriel -, olhe para o céu! É uma nuvem de flechas que são lançadas, tão próximas umas das outras e formando uma nuvem tão densa que parece que uma rede se levanta do solo. Gritos em espanhol se elevam de muito perto nas ruelas, enquanto os milhares de flechas de repente se inclinam e descem a toda a velocidade em direção ao solo. Instintivamente, Bartolomé recua. Mas as flechas disparadas ainda não chegam a alcançar a cancha onde fica a prisão. Gabriel não ouve mais os gritos. Ele observa a rede mortal descer fazendo os telhados desaparecerem. A despeito da gritaria, o ruído dos impactos soa como um prolongado rasgão surdo. É então que o bater dos tambores recomeça e se alterna com o soar das trompas. - Eu tenho de ir para ficar ao lado de Remando - avisa Bartolomé. Gabriel o segura pelo braço. - Espere um instante, é perigoso demais sair agora, alguma outra coisa ainda vai acontecer... Ele mal acabou de concluir a frase quando um estranho zumbido ressoa batendo-lhes no peito, como se estivesse abrindo caminho em meio aos chamados e aos gritos de dor. Mas nada é visível ainda. - As pedras de funda. Sim, depois da chuva de flechas vem uma tempestade de pedras. E esta não vem das colinas, e sim da grande fortaleza de Sacsayhuaman, que domina Cuzco, ali bem próximo das casas e das ruas estreitas. As pedras chegam muito mais longe que as flechas. Gabriel e Bartolomé escutam aquele marulho sussurrado que elas espalham por toda parte ao bater contra os telhados e as paredes. E vêm cada vez mais pedras voando, elas sibilam e roncam num som surdo, por vezes se chocam umas nas outras no ar, tão grande é a quantidade de pedras atiradas em lançamentos sucessivos. E isso continua por muito tempo. Os gritos aterrorizados dos espanhóis redobram, as vociferações vindas das colinas lhes respondem. Uma nova salva de flechas se eleva e cai sobre a cidade, se misturando às pedras de funda num dilúvio mortal. Parece, literalmente, que o céu está desabando sobre Cuzco para exterminar toda a vida que há na cidade, engoli-la numa vingança que só cessará quando os cadáveres se amontoarem. - Eu tenho de ir! - grita Bartolomé. - Então cubra-se com isto - exclama Gabriel, esvaziando a cesta para virá-la de modo a poder cobrir com ela a cabeça do monge. - Isto o protegerá um pouco! Mas no instante em que Bartolomé abre a porta, ele se imobiliza. - Ah, Senhor - murmura ele, esboçando o sinal-da-cruz sobre o peito. Já numa dezena de lugares, nos tetos de colmo das casas de Cuzco, sobe fumaça. As chamas jorram subitamente aqui e ali, como se alguém tivesse acabado de atiçá-las. - São as pedras de funda - explica Gabriel. - Era para isso! São as pedras de funda que estão incendiando a palha dos telhados. - Eles vão queimar a cidade inteira - geme Bartolomé. Gabriel sacode sua corrente com fúria. - Se você puder, encontre alguém que saiba me livrar dessa maldita corrente! - Não vou deixar que você morra queimado aqui. - Você me promete isso? Apesar de seu assentimento, quando Bartolomé desaparece na atmosfera saturada de fumaça, Gabriel duvida muito que volte a revê-lo. O vento atiça as chamas até o meio da noite. A cidade inteira é uma fogueira. Apenas algumas casas ao redor da grande praça são poupadas, fora de alcance ou salvas pela coragem de índios aliados, auxiliares fiéis dos espanhóis, que molham os tetos mesmo correndo risco de vida. Quando chega o crepúsculo, a fumaça se tornou tão densa que há momentos em que mal é possível ver o que se tem diante de si. Acre, ela penetra nos pulmões como um veneno e rasga o peito. Os homens caem de joelhos e não conseguem mais nem gemer de tanta falta de ar. Os cavalos estão assustados. Eles bufam, empinam, reviram os olhos irritados a ponto de sangrar, as narinas palpitando, os beiços trêmulos. Alguns mordem seus cavaleiros com grunhidos de dor. Sem cessar, as flechas e as pedras de funda atravessam a fumaça assobiando. Ao acaso, elas se quebram contra as paredes ou se enterram na carne dos feridos abandonados. Mas esses não sofrem por muito tempo. Tirando partido da obscuridade criada pela fumaça, com a boca coberta por máscaras de algodão, os guerreiros incas se precipitam pelas ruas estreitas dos contornos da cidade. Eles levantam barricadas, derrubam e empurram troncos, instalam paliçadas preparadas com antecedência. Uma a uma, eles fecham as saídas com obstáculos de altura suficiente para impedir que os cavalos possam ultrapassá-los. Obedecendo a uma ordem de Villa Oma, grupos furtivos penetram cada vez mais em direção ao centro de Cuzco. Munidos de cassetetes de pedra ou de bronze, eles dão cabo dos feridos abandonados, depois saltam sobre as paredes das primeiras canchas calcinadas. Por vezes, mulheres e crianças caaris, com apenas o branco dos olhos aterrorizados cortando as faces enegrecidas, vêm implorar misericórdia. Mas nenhuma súplica detém os guerreiros de Manco. Pela primeira vez, eles combatem sentindo na boca o gosto da vitória. - Faz tanto tempo que eu esperava para ver isso - rejubila-se Villa Oma, dirigindo a Anamaya e a Manco um raríssimo e soberbo sorriso. - Único Senhor, é realmente uma enorme alegria para mim lhe oferecer esta batalha. Espero que seu Pai o Sol e todos os seus Ancestrais se rejubilem como nós! Eles estão sobre a torre mais alta da fortaleza do sol, Sacsayhuaman. À luz do dia que vai se tornando mais intensa, Cuzco nada mais é que um gigantesco braseiro. Incansáveis, os guerreiros fazem girar as fundas, lançando as pedras conservadas desde a véspera em fogueiras e depois embrulhadas em algodão. O tempo necessário para o lançamento basta para pôr em chamas o algodão e, quando os projéteis atingem os tetos, o ichu bem seco que os recobre precisa apenas de um instante para também se incendiar. Hoje os Poderosos do Outro Mundo apóiam o Único Senhor Manco. Antes que a noite chegue ao fim, o vento começou a soprar de novo e rapidamente atiçou as primeiras chamas. Elas cresceram, se alongando e se enroscando para deslizar de telhado em telhado. Todas as canchas do Alto Cuzco arderam em chamas ao mesmo tempo, como se o fogo tivesse se tornado líquido. Os guerreiros lançaram novamente milhares de seixos. As fundas sibilaram e agora são os telhados do Baixo Cuzco que se incendeiam como campos de milho no final do verão. Ali o fogo salta, atravessa as ruas, transpõe os jardins e os pátios. Com as mãos apoiadas sobre a muralha de pedra larga como um caminho, Manco ri cheio de alegria: - Olhe só, Anamaya! Veja como eles correm, nossos poderosos estrangeiros! Não se poderia dizer que sentem a morte correndo para queimar-lhes as patas? Anamaya inclina a cabeça em sinal de aprovação. A comparação de Manco é bem apropriada. Os espanhóis e algumas centenas de índios candris, huancas e de outras nações que ainda persistem em se manter fiéis a eles correm em todas as direções, mas sem outro objetivo senão escapar aos telhados e aos vigamentos em chamas. Quando alcançam espaços descobertos, longe das chamas, então são as pedras de funda e as nuvens de flechas que se abatem sobre eles. Já se vêem dezenas de cadáveres e feridos que ninguém ousa socorrer. Depois de um instante, os cavaleiros espanhóis recuaram para a grande praça que é a única que se encontra a salvo das chamas e dos projéteis, por estar muito distante das torres de Sacsayhuaman. Anamaya tenta discernir entre as silhuetas nervosas e em movimento os cabelos louros de Gabriel. Mas os estrangeiros estão em fileiras muito cerradas, juntos uns dos outros, os rostos cobertos por capacetes. Outros mais chegam à praça gritando, se protegendo com os escudos como podem. - O que acha, Coya Cama quen? - pergunta Manco, que examina seu rosto com um olhar divertido, adivinhando com facilidade o que ela sente. - Creio que é uma bela batalha e que é terrível, como todas as batalhas. - Nós vamos vencer - exclama Vilia Oma indignado -, e isto não parece alegrá-la. - Nós ainda não vencemos - responde Anamaya com doçura. - Por enquanto, é somente a nossa Cuzco que está destruída, não os estrangeiros. O comentário irrita profundamente Vilia Oma. Com um gesto brutal, ele mostra a enormidade das tropas que cercam Cuzco. - Olhe para a planície, Coya Cama quen. Veja nossos guerreiros, eles cobrem as colinas, eles cobrem a planície. Nem uma formiga poderia escapar. Você imagina que possam ser vencidos? - Por enquanto, os guerreiros estão fora da cidade e os estrangeiros dentro. - Isso não vai durar. Dentro de um instante eu darei a ordem. Todas as tropas seguirão para as ruas de Cuzco. Observe bem esses estrangeiros, lá embaixo, na praça! Esta noite, nenhum deles estará vivo! Vilia Oma falou quase gritando. Anamaya não responde; ela sabe o que pensa o velho sábio, a quem a guerra deixa inebriado pela violência. Ela cerra os lábios para não formular a pergunta que a persegue desde que Gabriel e ela se separaram em Calca. Se Gabriel é o puma, o que acontecerá se ele morrer? - Anamaya tem razão - declara Manco secamente, arrancando-a de seus pensamentos. - O que você me mostra me dá muita alegria, Vilia Oma, porém ainda é muito cedo para comemorar. - Então, espere até esta noite! - resmunga Villa Oma com uma ponta de desprezo. - Olhe ali... Com o dedo, ele indica os primeiros guerreiros que saltam para as ruas, para levantar as paliçadas que impedirão que os estrangeiros fujam a cavalo. - Não - ordena Manco com firmeza. - Não entraremos na cidade hoje. Ainda é cedo demais. É cedo demais. Os guerreiros deverão chegar brevemente de Quito, então atacaremos e venceremos. - Único Senhor! Nós já somos mais de cem mil e eles são apenas duzentos! - Eu disse que não, Vilia Oma. Devemos enfraquecê-los ainda mais. Será preciso destruir as canalizações que levam a água até a grande praça. Precisamos deixá-los famintos, fazer com que cada minuto da vida deles seja insuportável até que desejem se refugiar na planície... Você a inundou, os cavalos não lhes servirão para nada. Eles cairão em nossas mãos e nós sacrificaremos os cavaleiros a Inti! Eles devem morrer de medo! O semblante de Villa Oma está deformado pela fúria. Mas ele se cala. Contenta-se em observar a cidade que arde em chamas, os homens que correm e gritam. Anamaya vê seus lábios tremerem e seus punhos se cerrarem convulsiva- mente. Ele tem de se conter para não estender o braço e bater em Manco. - Villa Oma... - diz em voz doce, tentando acalmá-lo. - Você não deveria estar aqui - retruca o Sábio com uma ironia cruel. - Se os estrangeiros são tão perigosos quanto acredita Manco, está correndo um grande perigo expondo-se aqui nesta torre. Deve voltar para Calca imediatamente. Dando-lhe as costas, permitindo que seus olhos azuis se percam no céu para onde sobem as chamas e a fumaça, Anamaya pode finalmente entregar seu coração à inquietação. Sim, ela treme de medo por Gabriel! Sim, com todas as suas forças e do fundo de sua alma, Anamaya deseja que pelo menos ele sobreviva. E não somente porque é o puma anunciado pelo grande Huayna Capac - mas porque é o homem que ela ama e porque viver sem ele não é viver.
Capítulo 4 Cuzco, maio de 1536.
Sentindo-se impotente como um cão preso pela coleira, Gabriel ouve os gritos dos moribundos e assiste à cidade incendiando. A fumaça chega até a pequena janela e o obriga a se afastar. Dobrado pelos acessos de tosse, ele rasga os farrapos que restam de sua túnica imunda para amarrá-los sobre o rosto. Já faz muito tempo que deixou de esperar pela volta do carcereiro ou pelo retorno de frei Bartolomé. Há muito tempo a esperança o abandonou e agora seu único sonho é conseguir respirar mais uma vez, e sobreviver. Metade de Cuzco está em chamas quando Gabriel começa a ouvir os choques que tanto temia: agora as pedras atingem o telhado de sua prisão. Dez vezes talvez o ruído surdo se repete. Depois uma primeira pedra atravessa o ichu que recobre o telhado e cai bem perto dele. Quase que imediatamente uma fumaça marrom forma volutas ao redor das cilíndricas peças de madeira do vigamento. Uma pequena chama se encrespa, saltitante. Ela risca uma linha em forma de serpente dourada, ganha a cumeeira do telhado, ziguezagueia, esita, volta a descer pela inclinação do lado oposto para correr ao longo das paredes. Logo em seguida, em pouco menos de um minuto, outras chamas nascem e se juntam a ela. Então, subitamente, de uma vez só, todo o revestimento de colmo se incendeia. Antes que Gabriel possa reagir, o fogo balança acima dele como se tentasse acariciar o solo e o obriga a se ajoelhar. Em alguns segundos o calor se torna insuportável. Gabriel amaldiçoa a corrente, amaldiçoa Hernando e todos os Pizarro. Ele se deita de barriga para baixo, para proteger o rosto. Mas suas costas começam a queimar de modo insuportável. Com pequenos rugidos de tigre, maços inteiros de ichu desabam, pulverizando fagulhas em todas as direções. A força das chamas redobra, mas elas são aspiradas em direção ao exterior, puxando consigo a fumaça. É então que Gabriel se lembra dos odres de água trazidos por Bartolomé. Desafiando o calor que lhe calcina os pêlos das mãos, ele luta para alcançar um deles. Rasgando com os dentes a tira de couro que prende a tampa de madeira, ele molha o rosto e os ombros, e esvazia o odre até a última gota sobre seu corpo em chamas. O choque de frescor é tão violento e tão repentino que o deixa tremendo e batendo os dentes. Gabriel tem apenas um breve instante de consciência para vislumbrar o resto do revestimento de palha lhe desabar em cima. Preso pela corrente que limita seus movimentos, evita como pode aqueles maços de palha em chamas, encolhendo-se junto à parede. De repente, com a mesma brutalidade com que se espalhou, o fogo se acaba. Restam apenas algumas línguas de fogo em torno das vigas da armação, agitadas por um vento que levanta a fumaça em rolos que giram. Um ar fresco, na verdade até frio, penetra entre as paredes incendiadas. Com os braços e as mãos doloridos, Gabriel agarra o último odre que lhe resta e não resiste à tentação de beber e de se molhar mais um pouco. Dentro de pouco tempo não terá mais água, mas isso pouco importa. Exausto pelo medo, ele se deita no chão e bendiz o ligeiro frescor que o vento lhe oferece. Agora a fumaça desliza sobre as paredes de Cuzco, escondendo o céu como uma tempestade crepuscular. Parece que é ela que contém todos aqueles lamentos, todos aqueles chamados, toda aquela algazarra de morte e destruição que zumbe e rosna pela cidade. Gabriel fecha os olhos doloridos e passa a língua, que parece um pedaço de couro velho, sobre os lábios ressequidos e queimados. Ele pergunta a si mesmo quantos espanhóis ainda estarão vivos. Quanto a ele, é como se já estivesse diante do reino dos mortos. Nessa noite, como nas anteriores, o lamento das trompas e os cânticos, os chamados, os insultos dos cem mil guerreiros incas não cessam. O ruído assustador vibra no céu incandescente, acompanhado de rolos de fumaça tão espessos quanto nuvens de tempestade, como se o próprio diabo tivesse estendido o dossel do inferno sobre Cuzco. Esgotado, sentindo dores dos pés à cabeça e até nas pálpebras, Gabriel adormece por um longo momento, buscando o silêncio no embrutecimento da fadiga. É um grito diferente dos outros que o obriga a abrir os olhos. Ele não tem muita certeza do que vê. Três silhuetas se mantêm de pé, rígidas, sobre a parede acima dele. Silhuetas sem face, das quais ele distingue apenas corpo e membros. Com armas nas mãos: lanças e cassetetes. Inicialmente, nada se move e ele acredita ainda estar dentro de um pesadelo. Depois, um novo grito sai das sombras. Um braço se levanta e atira alguma coisa. Uma pedra, uma grande pedra amarrada a uma corda! Ela quica no solo a quatro dedos da perna de Gabriel que, já de pé, grita sem refletir: - Não estou contra vocês! Ao ouvi-lo falar a língua deles, os três homens hesitam. - Não estou contra vocês, sou a favor da Coya Cama quen! - Gabriel grita de novo. Numa revelação súbita, ele percebe a hesitação dos guerreiros incas. Um deles diz alguma coisa incompreensível, depois agita os braços na sua direção. Gabriel repete: - Não estou contra vocês! Ele sacode a corrente para mostrar que está preso, um dos homens gesticula, murmurando frases que Gabriel não consegue compreender. O outro índio sacode nervosamente a corda, e a pedra amarrada em sua ponta rola entre os pés do espanhol, porém sem desequilibrá-lo. Instintivamente, Gabriel agarra a pedra e a corda e as puxa para si. Enquanto isso, no mesmo instante, um dos atacantes solta um gemido enquanto os outros dois se afastam. A corda fica frouxa nas mãos de Gabriel. Sobre a parede, um dos guerreiros se curva e seus companheiros dão gritos agudos, já fazendo girar as fundas, O homem se deixa cair com um ruído seco, como um saco, no solo da prisão. Quando Gabriel torna a levantar os olhos, os dois guerreiros fogem e somem na noite ocre. O homem caído ao lado dele já está morto, com uma seta de besta tão profundamente enterrada no peito que quase desapareceu! Gabriel não tem tempo para se espantar. A porta da cela range e uma forma totalmente obscura, parecendo um fantasma tingido de negro, desliza com agilidade para o interior do cárcere sem teto. Na ponta do braço traz uma pequena besta de arco endentado. Gabriel recua, a corrente se agitando ruidosamente entre suas pernas. Uma risada zombeteira soa baixinho. - E então, amigo, não me reconhece mais? - sussurra uma voz muito familiar. A surpresa de Gabriel é tão grande que, por um instante, sua única resposta é o silêncio. Então o vulto se aproxima, dando dois passos cuidadosos. - Olá, Gabriel! Já arrancaram sua língua? - Sebastian... Sebastian! O grande e fiel companheiro negro, o antigo escravo, se aproxima, colocando cuidadosamente a besta sobre o solo, e abraça Gabriel sem hesitar. Na verdade, como Gabriel, ele está tão imundo que não pode temer se sujar mais. A única peça de roupa que veste é uma espécie de casaco curto, sem mangas, de couro, que contém sua reserva de flechas e um longo punhal. Tirando isso, ele está nu, sua pele negra manchada de fuligem cinza. - Sebastian disfarçado de diabo! - exclama Gabriel com alívio. Um sorriso de brancura cintilante rasga a escuridão. - Nos dias de hoje, não conheço trajes melhores. Pelo menos uma vez na vida o fato de ser negro é um trunfo, não vejo por que não aproveitar! O riso sobe à garganta de Gabriel como se ele bebesse água fresca. Com a ponta do pé, Sebastian cutuca o corpo do guerreiro inca: - Está morto, bem morto, na minha opinião. Parece que cheguei bem a tempo, não é verdade? - Como sabia que eu estava aqui? - Frei Bartolomé me disse, é claro. Foi ele que me contou em que arapuca você estava metido. Demorei um pouco porque tive de arranjar isto aqui... Sebastian tira do casaco de couro um furador de aço e um pequeno martelo. - Seu amigo gordo, o carcereiro, foi um pouco difícil de encontrar. Era simpático, o homem, e bem do tipo de temperamento que eu gosto: louco para fazer confidências, me contou que tinha engravidado seis índias diferentes para ter certeza de ter um menino. Enfim... era ele que estava guardando este maldito furador que vai permitir abrir sua grilheta. Sem isto, teríamos de arrancar a corrente da parede para que depois você pudesse passear com ela! Ao mesmo tempo em que fala, Sebastian põe mãos à obra, atacando a haste que fecha a grilheta da corrente no tornozelo de Gabriel com o furador e batendo com pequenos golpes precisos. - Não se mexa, que abro isso num instante! Vigie as paredes para que nossos amigos incas não voltem para nos apanhar pelas costas! Para Gabriel, o bater dos ferros que se abrem é mais precioso que um tilintar de peças de ouro. Imediatamente ele tem a sensação de que respira melhor. - Pronto, você está livre - exclama Sebastian, segurando afetuosamente o pulso de Gabriel. - Bom Jesus, eu realmente acreditei que iria ser grelhado como um frango entre essas paredes - sussurra Gabriel, massageando suas panturrilhas que de repente parecem estar sendo espetadas por mil agulhas. - Não sei nem como agradecer a você, só acendendo velas, Sebastian! - A verdade, meu caro, é que você está cheirando muitíssimo a queimado! - Sebastian faz uma careta cômica. - Agora temos de dar o fora daqui, mas primeiro... Ele tira seu punhal e se ajoelha ao lado do guerreiro morto. Sem hesitar, enfia a lâmina no peito do cadáver. - Tenho de recuperar minha seta - explica. - É preciosa demais e temos muito pouca munição para desperdiçar. - Onde estão Remando e os outros? - pergunta Gabriel, evitando olhar para as mãos de Sebastian. - Na cancha do alto da grande praça. Aquela não queimou: dom Hernando postou escravos no teto para apagar os princípios de incêndio. Uma dúzia deles morreu por lá, mas, apesar disso, homens e cavalos, todos nos amontoamos lá dentro bem abrigados... Pronto, agora está feito! Sem nenhuma emoção, Sebastian enxuga a flecha curta na túnica do morto. - Vou levar você até lá - prossegue ele com uma risadinha. - Acho que vai ser uma pequena surpresa para eles rever você bem vivo! - Com esses trajes? A grande gargalhada de Sebastian soa mais alta que o alarido que continua a pairar sobre a cidade. - Mas claro que não, meu senhor! Tenho coisa muito melhor que isso! Para surpresa de Gabriel, Sebastian não toma o caminho mais curto em direção à grande praça. Em vez disso, ágil e silencioso como um gato, ele a contorna pelo lado oriental, onde alguns tetos ainda ardem soltando fumaça. Com um olhar, Gabriel se dá conta de que eles desembocaram exatamente na rua onde fica o palácio de Hatun Cancha. De repente, Sebastian empurra uma portinhola de pele de lhama, ainda não curtida, para ter resistido ao incêndio. - Um instante - diz baixinho depois de ter fechado a porta com cuidado. - Não saia daqui, eu já volto. Com algumas passadas largas, ele se afasta, tão pouco perceptível na escuridão que Gabriel o perde de vista. Ele não reconhece nada da cancha onde eles se encontram. Como por toda parte na cidade, os telhados desapareceram; a despeito disso, os prédios parecem em bom estado e até mesmo luxuosamente decorados "à moda espanhola". Novas construções com revestimento de argamassa de cor clara unem os prédios de forma alongada, tipicamente inca, formando uma única construção ao redor do pátio. Portas e janelas de verdade lhes dão uma feição familiar. - Está tudo bem! - sussurra Sebastian, que já voltou para junto dele. - Eu queria ter certeza de que não tínhamos visitantes indesejados. - Onde estamos? - pergunta Gabriel. A gargalhada de Sebastian é límpida como a de uma criança. - Ora! Onde você acha que estamos? Na minha casa, claro! - Na sua casa? - Será que você se esqueceu que sou rico? Um verdadeiro Creso! Gabriel sacode a cabeça, ensaia uma risadinha brincalhona. Qualquer um que o visse daquele jeito, quase nu e com a besta na mão, teria muita dificuldade em imaginá-lo como o proprietário. - É verdade! Eu tinha esquecido. E esquecido até que você era rico a esse ponto... Que casa! - Ela era bem mais bonita com o telhado e os móveis - resmunga Sebastian empurrando-o para a frente. - Venha, não devemos ficar aqui! O aposento onde eles entram cheira a fumaça fria, a fuligem e a cinzas. Dos móveis de madeira, só resta o couro rachado das cadeiras, as cantoneiras de metal de uma mesa ou o pé retorcido de um candelabro. - Que bagunça! - resmunga Sebastian. Ele afasta os escombros de uma cama bem como um tapete feito de mantas costuradas umas nas outras. As grandes lajes de pedra abaixo não revelam nada de excepcional. Mas, antes mesmo que Gabriel possa manifestar seu espanto, com a ajuda de uma haste de ferro Sebastian solta uma das lajes, depois levanta duas outras. Sob a luz fraca das estrelas e de uma lua crescente que finalmente começa a surgir em meio às nuvens de fumaça, aparece um sólido alçapão de madeira. - Ajude-me - pede Sebastian. - Isto é pesado como três asnos. O alçapão está sobre o que parece apenas um poço de escuridão. Mas Sebastian segue adiante. Tateando, ele encontra os corrimãos de uma escada de moleiro. Sua mão desaparece, apalpa e descobre uma vela e um fuzil de lume. - É melhor andarmos depressa. É melhor que não nos vejam. Um instante depois, Gabriel não consegue acreditar no que vê diante de si e sua estupefação muda encanta Sebastian. Eles estão numa caverna que oferece ao mesmo tempo todo o conforto e a fartura de um depósito de roupas e de armas. - Como você vê, sou de fato rico - diverte-se Sebastian. - Numa cidade como Cuzco, vive-se num estado um tanto ou quanto instável. Amanhã, quem sabe, eu serei pobre por causa dos índios ou do humor dos Pizarro ou de Almagro. Se há uma coisa que aprendi na vida é que sou negro e sempre serei. Isso é a mesma coisa que dizer que sempre serei um pouco escravo! Esta bendita prudência me aconselhou a nunca exibir à luz do dia todos os meus tesouros. Você é realmente a primeira pessoa a entrar aqui, e digamos que o que você vê aqui é a parcela que decidi arriscar. Esta caverna e o que ela contém não passam de uma miragem! Enquanto ele torna a subir a escada para fechar bem o alçapão, Gabriel observa boquiaberto os tesouros acumulados ao seu redor. Uma variedade de peças de vestuário novas enche algumas malas: camisas finas, gibões, calções plissados e até mesmo rolos de veludo, de cambraia e de linho esperando pelo alfaiate. Penduradas em estranhos pórticos, há cotas de malha de ferro reforçadas com couro e algodão. Atirados em cestos há morriões. Quatro selas de cavalo, ricamente trabalhadas com adornos de prata, descansam sobre cavaletes, uma grande caixa alongada contém espadas, adagas, duas bestas de manivela... Em lugar algum se vê ouro, mas Gabriel não duvida que, num esconderijo ainda mais discreto, alguns lingotes devam estar empilhados! - Não consigo acreditar em meus olhos - confessa com incredulidade. - Venha, ainda tenho uma coisa para mostrar a você - replica Sebastian. Com o auxílio da vela, eles se dirigem para o fundo da caverna. Uma passagem estreita desemboca numa outra câmara onde o ar é fresco. Gabriel escuta o barulho de água corrente antes mesmo de vê-la. - Olhe - mostra Sebastian, levantando o pequeno castiçal e revelando uma espécie de banheira natural escavada na pedra. - A água é gelada, mas vamos poder nos lavar, depois descansar até o amanhecer. Daqui, pelo menos, não se ouve mais a algazarra dos incas. Amanhã, você vai escolher uma bela roupa, uma espada que esteja à sua altura. Quero ver você no maior esplendor! - Sebastian... - Não, não e não! Nada de protestos, Gabriel! Para mim é um prazer indescritível poder lhe oferecer esses pecadilhos e um prazer multiplicado por dez pela surpresa de alguns de nossos amigos que descobrirão que você estará bem vivo amanhã! Ao alvorecer, muito bem vestido, com os pés calçados em botas novas, uma sólida túnica de couro e cota de malha cobrindo sua camisa, uma espada de Toledo ornada de madrepérola e incrustada de prata roçando nos calções de veludo púrpura, Gabriel sai da casa de Sebastian. A cidade ainda fumega. Cerca de metade dela já está nas mãos dos guerreiros de Manco. Em duas ocasiões eles são obrigados a recuar e correr debaixo da chuva de pedras de funda antes de conseguir se juntar aos espanhóis, entrincheirados na única cancha intacta da grande praça. Colchas grossas, sustentadas por cordame, semelhantes a enormes velas, foram estendidas sobre os pátios de modo a impedir a passagem de pedras e de flechas. Guardas, protegidos por portas ou postigos entreabertos, controlam as entradas e saídas, mas sem hesitação os deixam passar. Para Gabriel, todos os rostos são novos e, no recinto totalmente fechado, ninguém lhe dá atenção. Depois de ter passeado por alguns instantes entre os soldados cujos olhares revelam angústia, Gabriel de repente ouve a voz de dom Hernando. Ladeado por Juan e Gonzalo, de pé diante de cerca de uma dezena de cavaleiros, ele bate com o dedo indicador sobre um mapa da cidade desenhado às pressas que foi estendido sobre uma grande mesa. - De acordo com os cafíaris, todas as ruelas do norte da cidade agora já estão fechadas por barricadas de ramagens com altura de quatro, cinco ou até mesmo seis toesas. Altas demais para serem transpostas pelos cavalos, de qualquer maneira. E o mesmo acontece aqui, na parte leste e na parte sul. Eles não perderam tempo... - O cerco está se fechando, estou dizendo! Eles vão nos garrotear como se fôssemos coelhos! - geme um homem cujo gibão calcinado deixa entrever a camisa. - Não é o fato de termos o rabo queimado pelas chamas que já nos transforma em coelhos, Diego! - protesta Hernando. - As barricadas que mais nos prejudicam são as do norte - intervém Juan Pizarro. - Elas impedem qualquer ataque contra a fortaleza de Sacsayhuaman. E é de lá do alto, infelizmente, que os incas nos mantêm imobilizados dia e noite sob disparos de fundas e flechas. Eu detesto esta sensação. Parece que somos formigas debaixo dos olhos de gigantes! Irritado com o tom desiludido de Juan, Hernando o interrompe com um gesto. - Mas, meu irmão, isto não é hora para frases de efeito! Daqui em diante devemos ser prudentes com cada um de nossos movimentos: não podemos mais nem sequer pensar em sair desta cancha em pequenos grupos, pois se o fizermos seremos derrubados por uma saraivada de pedras, correndo o risco de ferir nossos cavalos. O melhor é transformar nossa raiva em paciência e tratar de nos preparar para conduzir uma carga maciça em direção à planície dentro de dois ou três dias. Vamos agir com um pouco de astúcia e também fazer uso dos nervos deles. Vamos deixar que acreditem que estamos enfraquecidos e apavorados e então destruiremos o cerco como se fosse uma argola de vidro. - Enfraquecidos e apavorados! Se estiverem ouvindo os gritos e gemidos que escapam desta cidade já há vários dias, posso lhe assegurar que não precisaremos fazer com que acreditem em coisa alguma: enfraquecidos nós já estamos e eles sabem disso. E depois, como pode estar tão seguro dessa sua tática, dom Remando? Eles são duzentos mil e nós somos apenas duzentos, com apenas cinqüenta ou sessenta cavalos ainda em bom estado! - Pois já somos cinqüenta a mais do que éramos em Cajamarca, com meu irmão, o Governador, Senhor del Barco! Nós já vencemos os cem mil guerreiros de Atahualpa em algumas horas. Deus quis que fosse assim e nos concedeu a vontade de fazê-lo. Não se esqueça nunca de que seu braço armado com uma boa espada pode cortar dez índios com um só golpe, enquanto eles precisam de cinqüenta flechas para penetrar nossos plastrões reforçados de couro e algodão! Ao contrário do que sugeria ainda há pouco o meu irmão Juan, não somos formigas, senhores. Estamos com medo? É bom que estejamos: isso nos dará mais colhões. Quando avança um pouco mais adiante no aposento que fede a fuligem, a suor e a medo, Gabriel encontra o olhar surpreendido e atento de Bartolomé. Com um sorriso de divertimento, pondo um dedo sobre os lábios, Gabriel recomenda que se mantenha em silêncio, enquanto um homem mais jovem, de olhos fundos pela falta de sono, protesta com veemência: - Dom Hernando, eu não compreendo! Por que esperar até amanhã ou depois de amanhã para conduzir esse ataque e não tentar agora, imediatamente, sair deste ninho de vespas? - Porque precisamos conseguir passar na primeira tentativa, Rojas. Diante do número deles, teremos somente uma oportunidade. Essas últimas horas foram duras para todos nós. Olhe ao seu redor, tanto cavaleiros quanto soldados de infantaria, todos nós precisamos de um pouco de descanso. E, mais do que todos, primeiro você, meu caro Rodrigo: você mal consegue se manter de pé. - Mas nos entrincheirarmos aqui, dom Hernando, é entregar-lhes a cidade! Entregar-lhes a cidade significa que morreremos como ratos, e o senhor sugere que devemos perder nosso tempo dormindo! - Não, Rojas, esse tempo não será inútil. Nossa imobilidade vai irritar os índios. Eles vão se cansar de gritar e de arremessar pedras! - Eo que vai impedi-los de vir aqui nos fazer arder em chamas, aqui mesmo, esta noite? Eles são dezenas de milhares, dom Hernando. Basta-lhes apenas querer e eles saltarão sobre este cercado como pulgas numa sotaina de padre! - Mas eles não querem, Senhor del Barco! - retruca Remando, rangendo os dentes, a tal ponto irritado que chega a empalidecer. - Não está vendo que se contentam em nos arremessar pedras lá do outro lado da praça? Se eles não tivessem medo de nós, de nossas espadas e de nossos cavalos, já estaríamos mortos. Eles têm medo de nós, dei Barco! Eles talvez sejam milhares, mas são milhares que têm medo! Ouçam o que estou dizendo: uma carga, uma única, unindo todas as nossas forças, e criaremos pânico entre as fileiras deles. - Não alimente ilusões, dom Remando - intervém Gabriel com a voz calma. - Não estamos em Cajamarca. O senhor estava lá, mas eu também. Estou vindo lá de fora e posso lhe assegurar que esse medo, que acredita que será capaz de lançar por terra os guerreiros incas, muito pelo contrário, lhes dá mais alento. A julgar pelos semblantes dos senhores aqui, e sem nenhum intuito de ofendê-los, parece-me que o terror está sobretudo aqui dentro! Bem posicionado Gabriel enfrenta os olhares estupefatos que se voltam para ele. - Santo Deus! - Gonzalo é o primeiro a reagir com um sussurro. - Quem o libertou? Ele dá dois passos na direção de Gabriel. Ainda não recuperado do confronto entre eles, Gonzalo manqueja. Juan o agarra pelo cotovelo para sustentá-lo e ao mesmo tempo segurá-lo. - Eu me contento apenas com o fato de estar vivo, uma vez que você também está. - Gabriel se diverte provocando-o, antes de saudá-lo com uma profunda reverência, tão cheia de ironia quanto de cerimônia. - Dom Hernando, tendo recuperado a liberdade por meus próprios meios, eu o perdôo por dela ter me privado e me ponho a seu serviço para os belos momentos de batalha que nos esperam. Gonzalo empurra Juan e cerra a mão sobre o punho da espada. Mas a de Gabriel já está desembainhada. - Posso lutar com o senhor seu irmão, dom Remando. Contudo, duvido que o momento seja bem escolhido. Os senhores precisam de braços sólidos e não nos faltarão oportunidades de morrer nos dias que temos pela frente. Até dom Gonzalo poderá se dedicar a isso à vontade! - Meu irmão! - protesta Gonzalo com a voz estridente. - Não pode aceitar um maldito canalha, espião mentiroso e assassino entre nós! Ele nos trairá a partir de amanhã! - Fecha esta sua gargaleira de idiotices, Gonzalo - replica Gabriel. - Não há mais nada a trair aqui, exceto a honra. Ainda lhe resta o suficiente para compreender isso? - Basta! - interrompe Hernando friamente. - Acertaremos nossas contas mais tarde. Não creia que vai escapar à justiça, Montelucar! - Não é de minha natureza fugir à justiça quando a encontro, dom Hernando, algo que não tem sido muito freqüente aqui nesta região. Parece-me que já lhe provei isso em algumas ocasiões. - Senhores! Dom Remando! Dom Gonzalo! - intervém Bartolomé, levantando sua estranha mão. - A ocasião não é apropriada para este tipo de palavras fúteis. Por mais graves que sejam suas diferenças para com dom Gabriel, ele já combateu os índios tantas vezes ou mais que qualquer um dentre os senhores aqui. Ele pode nos dar bons conselhos. Por que não escutá-lo? - Está certo - aprova Juan Pizarro, dirigindo-se a Gonzalo. - Frei Bartolomé tem razão no que diz. Deixemos de lado nossos rancores para unir nossas forças! Uma vez vencida esta batalha, se isso for possível, sempre haverá tempo para que nos recordemos das faltas cometidas por dom Gabriel. Com um gesto e um suspiro, Remando impede a resposta de Gonzalo e pergunta: - Já que você é tão erudito, esclareça-nos com seus conhecimentos: em sua opinião, como devemos avaliar o comportamento de seus amigos índios? - Eles nos observam há anos - declara Gabriel, sem demonstrar zombaria e dirigindo-se a todos. - A partir disso, conhecem nossos pontos fracos e sabem como imobilizar os cavalos. Acabou-se o tempo em que as cargas de cavalaria os aterrorizavam e eles se deixavam cortar em dois como cabideiros. Eles sabem manejar as pedras de funda de modo a nos arrebentar um braço ou as pernas dos cavalos. Quanto a combater corpo a corpo, isso há muito tempo é o ponto forte deles: são mais ágeis e mais eficazes que nós. - Que bela notícia! - zomba Gonzalo. - Não vejo nada aí que nós já não soubéssemos. - Eles estão esperando justamente nossa impaciência e nossa arrogância - prossegue Gabriel como se não tivesse ouvido. - Esperam que a fome e a sede nos atirem contra suas forças na planície. Esperam que mais uma vez, como sugeriu, dom Remando, decidamos lançar toda nossa cavalaria contra suas fileiras para tentar desamarrar a corda com que eles nos sufocam e fugir. Só que dessa vez eles estão prontos, em posição, senhores! Em todos os caminhos de que poderíamos nos servir com alguma facilidade, eu juro aos senhores, há fossas, estacas, paus ferrados, armadilhas, toda uma quantidade de obstáculos já está lá, escondida. Faça esse ataque, dom Hernando, e nossas montarias espatifarão os jarretes antes mesmo que possamos tocar a nuca de um inimigo com nossas espadas! O discurso de Gabriel faz efeito com facilidade, pois ele diz em voz alta tudo o que alguns já pensavam há algum tempo. O silêncio que se segue é pesado, carregado de desânimo. - Que alternativa propõe, dom Gabriel? - pergunta finalmente Juan Pizarro. - Tomar a fortaleza! - Você enlouqueceu! - exclama Gonzalo, com uma gargalhada de desprezo. - Isto é a última coisa possível! - É a única coisa útil e necessária. Vocês sabem muito bem - diz ele, virando-se para Hernando como se Gonzalo não existisse - que sem fortaleza não há mais cerco. - Ah, sim! E como pensa conseguir fazer isso? - zomba Gonzalo. - Com um pequeno salto, suponho? A torre e as paredes têm nada menos que quinze ou vinte toesas de altura. Isso sem contar as paliçadas que nos impedem de alcançá-las. - Nós podemos destruí-las esta noite. Um murmúrio percorre os homens. Gabriel vê olhos se desviarem, testas se abaixarem. Mesmo Bartolomé esboça uma careta pouco convencida. Gabriel levanta uma das mãos e a põe sobre o coração. - Senhores, eu não perdi a razão nem quero convencê-los a cometer um ato de loucura. Compreendo seus temores. Mas a verdade está diante dos senhores, mais do que nunca. A escolha é entre morrer com prudência ou morrer lutando. Não se trata apenas do fato de que a prudência seja a vergonha e o combate a glória... - Veja só, ele agora fala como meu irmão Francisco - ironiza Gonzalo no silêncio que se faz. - ... A questão é que a prudência - prossegue Gabriel, sem olhar para Gonzalo - é a morte certa para todos, enquanto o combate pode nos dar a vitória. E em todo caso, talvez alguns possam escapar com vida. Aproveitando-se do silêncio e da atenção que mais uma vez conseguiu capturar, Gabriel espicaça Gonzalo. - Para mim, graças a dom Gonzalo, morrer hoje me é indiferente. Além disso, vejam qual é minha sugestão. Esta noite, eu irei incendiar as barricadas, sozinho, se for necessário. E então veremos o que acontecerá. - Meu irmão - imediatamente retruca Gonzalo num rugido -, é um ardil! Ele quer pura e simplesmente fugir e ir se juntar aos selvagens. - Dom Gonzalo - replica Bartolomé, com humor -, mostre um pouco de bom senso! Se dom Gabriel tivesse a intenção de fugir, não teria sido realmente útil que, depois de conseguir escapar de sua prisão, ele viesse aqui avisá-lo! Antes mesmo que Bartolomé concluísse seu comentário, um sorriso divertido surge no rosto de Hernando, que põe a mão sobre o braço de Gonzalo. - Pois bem, estou perfeitamente de acordo, dom Gabriel! Se alguém aqui quiser lhe oferecer um cavalo, eu bem que gostaria de vê-lo realizar esta façanha. E se, entre estes senhores, houver alguns que queiram acompanhá-lo, apenas limitaremos o número deles a cinco, de modo a evitar um desastre de grandes proporções. - Fico contente, dom Remando, que a inteligência ilumine seu desejo feroz de me ver deixar esta terra - responde Gabriel em tom ameno. - Caro dom Gabriel, se finalmente deseja ser útil a seu Rei e honrar a glória de Nosso Senhor, quem seria eu para impedi-lo? - Eu vou com você - garante Sebastian um instante depois. - Não - sorri Gabriel. - Tive prazer em espicaçar o mau humor dos Pizarro, mas estou muito longe de ter tanta segurança de levar meu plano adiante quanto afirmei. - Enquanto isso, eles estão absolutamente seguros do plano deles, com aquele terrível Hernando no comando. Quando ele olha para você, é como se já estivesse com seus restos mortais nas mãos. - Deixe-o sonhar! - Eu vou com você - repete Sebastian com uma expressão severa. - Senão você não terá um cavalo; quem mais, além de mim, ousaria lhe oferecer um? Os dois amigos se entreolham em silêncio durante alguns segundos, depois, emocionado, Gabriel segura as mãos de Sebastian. - Vou ficar devendo muito a você. - Sua dívida já foi paga, adiantado, há muito tempo, amigo Gabriel. Que seja de meu conhecimento, nunca tive maior prazer, até o dia de hoje, do que espetar o rabo do diabo junto com você! Agora venha comigo, quero mostrar meus cavalos. O segundo pátio da cancha, cuidadosamente protegido por toldos de tela, foi transformado em estrebaria improvisada. O odor forte de urina e estrume traz náuseas à garganta, as moscas ziguezagueiam em enxames. A partir do momento em que Gabriel e Sebastian entram ali, alguns cavalos se afastam assustados e logo todos bufam e relincham, batem no solo com as patas, rolando os grandes olhos inquietos, e se esbarram uns nos outros com brutalidade. Amontoados ali, na verdade sem o espaço necessário, ainda assustados com o incêndio da cidade e com os berros que vêm das colinas, parece que o medo ainda acaricia seus dorsos trêmulos e malcuidados. Ao ouvir o som baixo de um apito que Sebastian faz soar, uma égua soberba, de pêlo branco como a neve, se aproxima um pouco hesitante, o pescoço estendido e a cabeça baixa, como se buscasse uma mão que a reconfortasse. - Quero lhe apresentar Itza - diz Sebastian, acariciando-lhe o lado da cabeça. - Está vendo? Eu não sou como você, dou nome a meus cavalos. - E que significa Itza? - Não tenho a menor idéia. Mas nos tempos em que eu era apenas um escravo que mal ousava levantar os olhos para os brancos, conheci no Panamá um velho conquistador que falava comigo como se fala com um homem e não com um animal. Ele repetia este nome a todo instante, Itza, Itza, como se fosse uma palavra mágica. Creio que combina muito bem com esta dama: cheia de vida, clara e franca como um relâmpago e ao mesmo tempo de temperamento doce. Veja, este aqui se chama Pongo. - Não vou nem perguntar por quê. Um cavalo castrado de pêlo malhado em cinza e branco se adianta, pondo-se à frente das outras montarias, mas sem se aproximar mais, observando com desconfiança as carícias que Sebastian oferece à égua. - O "cavalheiro" perdeu os colhões, mas conservou seu mau gênio; contudo, nós nos entendemos bem. Você montará Itza; tenho certeza de que ela gostará de você. E isso parece ser verdade, pois, inesperadamente a égua abandona a mão de Sebastian que a acaricia e vem encostar as narinas no peito de Gabriel. - Que foi que eu disse? - diverte-se Sebastian. - Você acredita que outros cavaleiros venham conosco? - pergunta Gabriel em tom sério, depois de ter retribuído as atenções de Itza. - O mais importante não é termos cavaleiros, e sim alguns índios aliados. São eles que mais poderão nos ajudar. - Isso não é o mais importante - retruca Gabriel com um sorriso. - Então me pergunto o que pode ser, meu caro senhor... - É ter como amigo um negro como você. A noite, depois de intensas discussões, cerca de cinqüenta índios caíaris e três cavaleiros se apresentaram como voluntários para acompanhar Gabriel e Sebastian. Diante da porta da cancha que se abre, todos os espanhóis formam uma fileira silenciosa. Ouve-se apenas o bater dos cascos e o murmúrio da oração de Bartolomé, enquanto do lado de fora o pandemônio vindo das colinas não cessa. Dom Hernando está bem perto da porta. Com um meio sorriso, inclina a fronte. - Boa noite, dom Gabriel. - Não tenha receio - replica Gabriel no mesmo tom. - A noite será boa. E se não estiver com muito sono, eu o aconselho a dar uma olhadela por sobre as paredes. O espetáculo poderá lhe agradar. Aproveitando-se da escuridão e da surpresa do ataque, eles alcançam sem muita dificuldade uma primeira paliçada. Ela bloqueia a maior das ruelas conduzindo à fortaleza de Sacsayhuaman. Comprimidos sobre uma estrutura de troncos de madeira, feixes de galhos de espinheiros constituem uma barreira onde com facilidade se feririam homens e cavalos. Os clamores dos guerreiros sobre as colinas encobrem os ruídos das espadas e dos arreios. Os pescoços e as cabeças dos cavalos foram cuidadosamente cobertos com tecidos grossos de modo a protegê-los das pedras, enquanto tiras de couro recobrem-lhes o peito, envolvem os jarretes e as articulações acima das ranilhas. Esse aparelhamento dificulta o movimento das montarias, tornando-as mais lentas. Quando eles estão bem próximos, o chamado lúgubre de um pututu ecoa subitamente. Um vigia avistou o avanço deles e dá o alerta. Num instante, guerreiros incas surgem sobre as paredes calcinadas das canchas vizinhas. Gabriel tem apenas o tempo exato de levantar seu escudo para se proteger da primeira salva de pedras. Por sua vez, reagindo com gritos, com a cabeça enterrada entre os ombros, ele impele sua égua para a frente num passo de trote irregular, passando rente às paredes, com a espada levantada bem alto para cortar pernas e pés dos combatentes incas. Atrás dele vêm os caaris, que com uma agilidade espantosa saltam sobre as paredes, com o cassetete ou o machado de bronze erguido. Imediatamente a chuva de pedras cessa e um assustador combate corpo a corpo começa sobre as paredes, cheio de ganidos e gritos de dor. - O azeite, o azeite! - urra Gabriel para Sebastian. Enquanto ele faz Itza girar perto da paliçada, a espada golpeando o ar como uma foice, Sebastian e dois dos espanhóis quebram uma grande bilha de azeite contra as ramagens da barricada. Uma centelha basta para incendiá-la. Uma luz amarelada irrompe, ofuscante, ao mesmo tempo que um grito de alegria se eleva: - Santiago! Santiago!... À luz da pira ardente, o impiedoso combate corpo a corpo que se trava bruscamente sobre as paredes se assemelha a uma dança demoníaca. Com um júbilo enlouquecido, com grandes golpes de machado, os guerreiros cafíaris cortam os corpos dos soldados incas como se estivessem destroçando apenas espantalhos. As pedras enegrecidas ficam pegajosas, cobertas de sangue e de tripas, os mortos se amontoam uns sobre os outros. Desviando os olhos do horror, Gabriel urra a ordem de retirada. - Vamos a uma outra barricada! - vocifera. - Precisamos queimar uma outra imediatamente, antes que eles estejam lá nos esperando! Com uma simples pressão dos joelhos, ele impele a bela Itza a partir a galope, levando atrás de si cavaleiros e cafíaris. E assim se passa a noite inteira. As barricadas ardem numa ruela, depois numa outra e depois numa outra. Quatro vezes, cinco vezes, a mesma matança desgastante se reproduz. De paliçada em paliçada, a tarefa vai se tornando cada vez mais difícil. Mas eles conseguiram se aproximar o bastante da fortaleza para distinguir seus paredões altos e sombrios acima deles. A despeito do cansaço dos homens e da tropa de cafíaris que se reduziu à metade, Gabriel quer destruir uma última barricada. Se conseguirem aniquilá-la, no dia seguinte estará livre o caminho conduzindo diretamente à fortaleza! Mas ali nada acontece como antes. Os guerreiros incas foram alertados e esperam o ataque. A chuva de pedras e de flechas é mais densa, mais difícil de fazer recuar. Os cafíaris, movendo-se mais devagar por causa da fadiga e não contando mais com o efeito da surpresa, têm dificuldade para saltar sobre as paredes. As pedras os acertam no rosto e nas pernas, partindo-lhes os ossos e destruindo-lhes o ímpeto. Acelerando sua égua veloz, Gabriel miraculosamente salta uma vala escavada bem diante da paliçada e escondida sob uma cobertura de galhos e de terra. Mas os dois cavaleiros que o seguem não têm a mesma sorte. Seus cavalos fraturam as pernas. Gabriel ouve seus gritos e faz Itza girar bem a tempo de ver seus companheiros serem apedrejados. - Sebastian! - berra. - Estou aqui! - urra o gigante negro, lutando para repelir uma matilha de guerreiros incas. - Eles são muito numerosos, Gabriel, temos de recuar... Mas já é tarde demais. Os incas afluem às dezenas, urrando. Abandonando qualquer intenção de alcançar a barricada de perto o suficiente para incendiá-la, Gabriel parte para o ataque a fim de liberar os dois cavaleiros que os cafíaris não conseguem mais proteger. Quando sua espada se tinge de sangue, um novo grito de Sebastian o surpreende. - Cuidado! Cuidado! Cuidado com o fogo do alto, Gabriel! Do alto da fortaleza, as flechas em chamas caem em cima deles como estrelas despencando sobre o solo. Os cafíaris, de repente petrificados, se imobilizam e depois irrompem em gemidos de dor. Os homens gesticulam, com o peito ou os ombros em chamas. Pelo canto do olho, Gabriel vê os incas recuarem, enquanto uma nova salva se prepara na fortaleza. - Maldito diabo, eles nos pegaram numa armadilha! - berra Sebastian. - Estamos encurralados entre a barricada e... Ele não conclui a frase, pois uma flecha de fogo vem se enfiar em seu plastrão de algodão que, imediatamente, se incendeia. Com a palma da mão, mas atrapalhado pelo escudo circular, Sebastian tenta abafar as chamas. Seu cavalo, apavorado, dispara num galope, correndo em círculos e atiçando o fogo do plastrão, enquanto outras flechas batem quicando contra seus flancos. Gabriel finalmente consegue chegar perto dele e, com golpes de estilete, corta o plastrão e afasta as partes em chamas. É então que a coisa mais estranha acontece. Todos vêem, os espanhóis, os cafíarjse os incas. Uma nova revoada de flechas incendiárias chega ao solo. Contudo, nenhuma toca em Gabriel e em Sebastian. Eles não têm nem sequer necessidade de levantar o escudo para se protegerem delas. Como se tivessem sido afastadas por uma força invisível, as flechas caem a alguns passos deles, batem e quicam nas lajes ou se despedaçam contra as paredes. Pondo de novo a galope sua égua branca, tão infatigável quanto ele, Gabriel se lança sobre a fileira de guerreiros inimigos. Muitos recuam, os mais corajosos fazem estalar as fundas. Mas, como as flechas, as pedras se perdem na noite sem atingir Gabriel e Itza. No centro do círculo onde estão reunidos, espanhóis e caniarís vêem Gabriel galopar apontando sua espada para as fileiras incas sem nem sequer tocar nos guerreiros. Como um anjo salvador, transportado pela força imaculada de sua égua, Gabriel abre passagem, sem que nenhuma gota de sangue seja derramada. Petrificados pela surpresa ou pelo temor, ninguém lhe oferece resistência e logo a passagem pela ruela está desimpedida. - Sigam-me! - grita ele para os companheiros. - Sigam-me, não há nenhum risco! É de fato, quando, despertando de seu espanto, os companheiros correm atrás dele gritando "Santiago! Santiago!", nenhum inca tenta impedir sua passagem, nenhuma flecha ou pedra de funda os acerta. Todo esse tempo e durante a noite inteira não é mais o medo, o ódio, nem a violência que se agitam nas entranhas de Gabriel: é uma estranha, intensa e irresistível vontade de rir. O heroísmo dessa noite desesperada é apagado pelo dia seguinte. Por volta do meio-dia, depois de adormecer exausto, a despeito do barulho incessante dos tambores e da fome que o atormenta, Gabriel é despertado por gritos e por uma grande agitação. De má vontade, prepara-se para abandonar o recanto de sombra perto dos cavalos onde encontrou refúgio, quando Sebastian, com o braço e o ombro cobertos por um curativo, aparece diante dele acompanhado por Bartolomé, com a expressão sombria. - Como está se sentindo? - preocupa-se Gabriel imediatamente. - Como uma jovem esposa no dia seguinte à sua noite de núpcias - resmunga Sebastian. - A queimadura dele é grave? - pergunta Gabriel a Bartolomé. - Grave o suficiente para fazê-lo sofrer por bastante tempo - suspira Bartolomé com resignação. - Receio sobretudo que os ferimentos infeccionem. Eu precisaria de um ungüento de azeite de oliva, mas aqui... - Não sou nenhuma mocinha, e meu ferimento terá paciência como eu até que cheguem tempos melhores - protesta Sebastian em tom bem-humorado, empurrando Gabriel de volta para seu canto na sombra. - Mas você, meu amigo, é inútil aparecer em público... - E por quê? O que está acontecendo? - Nós não temos mais água - anuncia Bartolomé -, exceto por algumas barricas para prioridades. Esta manhã os incas destruíram as canalizações de pedra que serviam os reservatórios da grande praça. - E de que maneira isto me impede de me mostrar em público? espanta-se Gabriel. Os olhos de Sebastian procuram os de Bartolomé. Neles também, a fome e o medo já deixaram suas marcas. A febre embaça o olhar de Sebastian, habitualmente tão vivo. Um tique nervoso agita o braço ferido. Quanto a Bartolomé, a pele de seu rosto parece ter adquirido a mesma cor cinzenta de seu hábito de lã grossa e desbotada. Sobre as têmporas e sobre as mãos ela está tão esticada que parece revelar as irregularidades dos ossos logo abaixo! E tanto um quanto o outro parecem tão embaraçados que Gabriel pergunta mais uma vez: - E então, o que houve? Alguns consideram que nossa expedição da noite passada contra as barricadas enfureceu os incas - murmura Sebastian -, e que se ela não tivesse ocorrido, eles não teriam pensado em destruir as canalizações. - Quem pode acreditar numa coisa dessas? - rosna Gabriel. - Todos aqueles que Gonzalo conseguiu convencer. E com muita facilidade, porque os caíaris fizeram um reconhecimento de terreno ainda há pouco: as barricadas já foram reconstruídas. Todo o esforço da última noite foi inútil, continua sendo tão impossível alcançar a fortaleza hoje quanto era ontem... - E daí? Mas é claro que eles iam reconstruir as barricadas! - Gabriel o interrompe brutalmente. - Mas nós as queimaremos outra vez e depois mais outra! Não somos nós que estamos cercados, sitiados? Que podemos fazer senão combater? Ou então vamos fazer a paz com os incas. A mim isso não vai entristecer... - Não se trata somente das barricadas. - Hã? - Também há a questão... do que aconteceu. - E o que aconteceu? Um breve silêncio se faz. Afinal, Gabriel toma consciência do constrangimento de seus amigos. - Santo Deus, vocês não vão falar? - Você sabe muito bem - murmura Sebastian, virando-se para os cavalos. - Não sei de nada. - Andam contando um bocado de coisas estranhas a respeito dessa noite - diz Bartolomé baixinho. - O que eu vi, eu vi - acrescenta Sebastian. - E o que foi? - Você montado em Itza, sem que as flechas nem as pedras o atingissem, enquanto elas nos massacravam. - Uma sorte enorme a que eu tive, só isso! - Não, havia outra coisa! - Sebastian, você estava ferido! Sentiu medo e deixou que sua imaginação abrisse as asas. Isso é natural. - Negue quantas vezes quiser, amigo Gabriel, eu sei o que vi. Aquilo não tinha nada de natural. Parecia que havia alguma coisa protegendo você. Itza voltou sem ter sofrido nem um arranhão, enquanto acabei de passar uma hora cuidando dos ferimentos de Pongo! - Você quer saber quais são os rumores que estão circulando esta manhã? - intervém Bartolomé. - Gonzalo anda dizendo que o diabo e os incas são seus aliados. Aqueles que estavam com vocês na noite passada juram que viram São Tiago em pessoa ressuscitar em você! Alguns chegam ao ponto de afirmar que a Virgem Maria abria o caminho para você. - Eu, em todo caso, não vi ninguém - diz Gabriel em tom bem- humorado. - E agora estou ouvindo essas frivolidades... Houve combates e houve mortos demais, isto foi tudo o que aconteceu. - Não. Até mesmo os guerreiros incas viram - discorda Sebastian. - Foi por isso que eles nos deixaram partir. Aliás, você sabe muito bem disso: conseguiu fazê-los recuar com sua espada sem nem sequer tocá-los. - Sebastian não foi o único a ver isso, Gabriel - insiste Bartolomé mais uma vez. - Falei com todos os cavaleiros que você salvou e com os caaris. Todos dizem a mesma coisa: as flechas incendiárias e as pedras poupavam você como que por milagre! Será que é Deus que o protege? Serão... aqueles de quem você é amigo entre os incas? - Frei Bartolomé, com todo o respeito que lhe devo, está se entregando a fantasias! Eu sei em que medida os guerreiros incas são sensíveis à magia durante seus combates. Tirei partido disso, e só! Agi como se não temesse nem suas pedras nem o fogo, e isso os impressionou. E depois... Falta naturalidade ao tom de Gabriel. Nos olhos de seus amigos, ele percebe tanto dúvida quanto incompreensão. - E depois, eu tive sorte. Muita sorte, isso é tudo... Na verdade, ele não tem certeza de ser capaz de convencer a si mesmo. Sebastian tem razão: ele sentiu que alguma coisa estranha lhe acontecia durante os combates. Como se sua força repentina não tivesse limites. Mas como confessar algo semelhante sem parecer estar louco? - É preciso que acreditem em mim - repete numa voz obstinada. - Também é verdade que pouco me importa o fato de morrer. Mas nisso não há nada de miraculoso ou de mágico. - Para você talvez, mas para aqueles que estão aqui e que sofrem temendo a morte, as coisas não são assim tão simples - retruca Bartolomé. - Eles não têm o orgulho de pensar que o encontro com a morte seja assim um momento tão belo, Gabriel Montelucar. - Que quer que eu faça para convencê-lo, frei Bartolomé? Que eu saia pelas ruelas sem nenhuma arma para mostrar que os incas podem me matar como a todo mundo? Mal ele se cala, Bartolomé levanta e aproxima de seu rosto a mão direita com os dedos colados. Com um gesto provocador, ele traça o sinal-da-cruz, murmurando: - Não pediríamos tanto de você. Deixemos, portanto, que Deus escolha o caminho que Ele sabe que você precisa percorrer! Daqui até lá, tenha a humildade de viver como todos os outros entre nós e fique tranqüilo. Dom Hernando proibiu qualquer outra incursão de ataque e isto também vale para você. Entregue a seus próprios pensamentos, Gabriel fica prostrado. Seu olhar voou para o alto das pedras maciças da fortaleza inexpugnável e mais acima até as montanhas. Ele zomba de sua sorte ou da proteção dos deuses. "Onde ela está?", murmura incansavelmente. "Onde ela está?" Mas os deuses que lhe pouparam a vida se recusam a lhe permitir ouvir a resposta que lhe devolveria a vontade de viver. Durante os cinco dias e as cinco noites seguintes, Cuzco se resume a pandemônio, morte e sofrimento. Depois da lição dos ataques da primeira noite, os guerreiros incas não somente reconstruíram as paliçadas impedindo as cargas de cavalaria como também as fortificaram com valas dissimuladas e vigias observando qualquer aproximação em todas as horas do dia e da noite. Também, de maneira a aterrorizar ainda mais os espanhóis e impedir que possam ter qualquer repouso, não se passa uma hora sem que os clamores dos guerreiros se sucedam ao rufar dos tambores e aos lamentos sinistros das trompas. Dia e noite, sem cessar, os arqueiros e os lançadores de pedras se revezam sobre o alto das muralhas da fortaleza de Sacsayhuaman mantendo um bombardeio permanente sobre a grande praça e a última cancha, onde se amontoam os espanhóis sitiados. A fome e a sede, aliadas à impossibilidade de repouso, ao sono constantemente interrompido pelo alarido, levam os homens à loucura. Alguns gritam fechando os olhos, outros choram como crianças. Outros ainda rezam sem parar com tanta violência que Bartolomé não ousa acompanhar seu fervor. Alguns se recordam de antigas campanhas com o Governador dom Francisco Pizarro e põem para assar vermes tirados da terra ou bebem a própria urina, quando não vão pedir a dos outros! No quarto dia, prevendo que não conseguirá conter por muito mais tempo a demência desses homens privados de combates, dom Hernando Pizarro concede a seus irmãos Juan e Gonzalo, bem como a cerca de vinte soldados de artilharia, o direito de fazerem uma incursão de ataque para retomar a casa de Gonzalo situada do outro lado da grande praça, onde se espera ainda encontrar alguns dos porcos vindos de Cajamarca, favas e até mesmo um pouco de farinha de milho. Como Gonzalo proibiu a presença de Gabriel a seu lado, com alguns outros ele forma pelotões para vigiar a retaguarda dos combatentes e protegê-los de uma manobra que lhes corte a possibilidade de retirada. Os combates se prolongam durante quatro horas antes que os cavalos de Juan e Gonzalo, pateando sobre os corpos dos guerreiros incas, finalmente consigam entrar no recinto. Dos porcos, restam apenas os cadáveres apodrecidos e infestados de moscas e vermes. Nos porões, um único barril de farinha foi esquecido pelos sitiantes. Enquanto isso, como na casa de Sebastian, o descobrimento de um reservatório de água fresca, bem cheio, abastecido por uma fonte invisível, provoca gritos de alegria. À noite, essa magra vitória traz um pouco de esperança aos espanhóis. Contudo, a grande praça de Aucaypata não está mais inteiramente submetida aos bombardeios de pedras dos incas. É dada a ordem de retirar da casa de Gonzalo todos os tecidos, lençóis, toalhas e tapetes. A casa transborda como um armazém de Cadiz. Por toda a noite, uma atividade febril faz com que o alarido vindo das colinas, a fome e o medo sejam esquecidos. Enquanto os cavaleiros se revezam para conservar a grande praça fora do alcance das tropas de Manco, soldados de artilharia, de dedos grossos e mais habituados à espada ou à lança, reúnem esses tecidos variados, enquanto outros trançam cordas, levantam estacas, e retiram vigas ainda em bom estado em meio aos tetos calcinados. Ao raiar do dia, um gigantesco toldo com cores variadas cobre a grande praça, desde a casa de Hernando até a de Gonzalo, finalmente protegendo os sitiados da saraiva de pedras lançadas de Sacsayhuaman. Entusiasmado com esse sucesso, Eernando tenta romper o cerco que os asfixia. Ele lança seus cavaleiros em escaramuças que avançam cada vez mais longe ao redor da praça. Mas, muito rapidamente, esses combates se revelam mais perigosos que eficazes, ameaçando até enfraquecer o pouco de força que lhes resta. A cada escaramuça, a aventura é a mesma. Os cavalos caem e se machucam nas valas escavadas até nos terraços que contornam o lado oeste da praça. Os cavaleiros são projetados no solo e imediatamente atacados por dezenas de guerreiros incas ou literalmente enterrados sob um dilúvio de pedras. É assim que, na noite do quinto dia, Juan Pizarro é estendido sobre um dos catres preparados por Bartolomé para tratar dos feridos como é possível. Uma pedra de funda esmagou-lhe o maxilar e, a despeito de toda sua coragem, ele geme de dor enquanto lhe fazem um curativo. Bartolomé solicitou a ajuda de Gabriel para mantê-lo imóvel enquanto puxa o queixo do ferido de modo que os ossos fraturados não se encavalem. Apressadamente, talas e bandagens são confeccionadas. Quando dom Hernando e Gonzalo acorrem, Juan desmaiou. Com espanto, Gabriel vê Gonzalo se ajoelhar ao lado do ferido e acariciar-lhe a fronte como se faria com uma criança. Seus olhos brilham cheios de lágrimas, e balbuciantes palavras de consolo morrem em seus lábios trêmulos. - Não precisa se preocupar tanto, dom Gonzalo - murmura Bartolomé -, o ferimento é doloroso, mas não é mortal. Seu irmão é tão forte quanto corajoso. Amanhã, terá um pouco de febre, mas estará de pé. - E de pé para fazer o quê, por Deus! - exclama Hernando cerrando o punho. Seu olhar cruza com o de Gabriel. Pela primeira vez, ele parece pedir ajuda. Juntos, eles se voltam em direção ao pequeno espaço deixado pelo toldo acima da parede da cancha. A fortaleza de Sacsayhuaman já está pronta para a noite e iluminada por centenas de tochas. Sob a luz hesitante do crepúsculo, suas torres desenham a cabeça de um dragão com pele de fogo. - É lá para cima que precisamos ir - murmura Gabriel. - Lá para cima! Você sabe que é impossível. - Precisamos atacar e tomar a fortaleza - repete Gabriel. - O resto não adianta nada. - Como insiste nisso! Nada está mais bem protegido que essas torres. Todos os caminhos até lá são de ladeiras tão íngremes que os cavalos escorregam ou ficam lentos demais. Não conseguiríamos dar nem cem passos sem ser massacrados! As paredes das torres são tão altas que o comprimento de uma escada não será suficiente para alcançá-las. Seria preciso tomar a fortaleza por trás, mas para isso ainda teríamos primeiro de sair inteiros da cidade! - Dom Hernando, sabe tão bem quanto eu: não há outra solução. Devemos nos tornar os senhores de Sacsayhuaman, custe o que custar. - É mais uma de suas loucuras, como a idéia de destruir as paliçadas! - Se conseguirmos chegar lá em cima - prossegue Gabriel sem dar-lhe ouvidos -, teremos em nossas mãos as luvas com que eles nos apertam a garganta! Olhe para seu irmão, dom Hernando: de que nos serve seu ferimento? Agora, não somos mais que cinqüenta cavaleiros. É nossa última chance. O olhar de Hernando torna-se penetrante. Nele, a dúvida e o desafio lutam contra a esperança. - Vamos primeiro cuidar de meu irmão - diz entre dentes. - Depois pensaremos nisso. - Cuide de seu irmão - diz Gabriel. - Precisamos de todos os homens corajosos. Pela primeira vez, Gabriel percebe no olhar rápido que Hernando lhe lança, algo diferente da raiva e desprezo habituais: uma espécie de começo de respeito. Depois ele avista os olhos vermelhos e cheios de lágrimas de Gonzalo e tem outra surpresa, antes que o irmão caçula, de rosto de anjo, lhe diga na cara: - Era você que devia estar ferido, você! Mas Gabriel percebe tanto sofrimento no mais jovem dos irmãos Pizarro que se mantém de boca fechada.
Capítulo 5 Ollantaytambo, maio de 1536.
O disco do sol está imenso. Ele se posicionou sobre o ar que ainda separa as montanhas do oeste como uma magnífica esfera de ouro e que poderia se abrir para acolher em si Este Mundo como um pai que abraça seu filho que retorna de uma viagem. De pé sobre os degraus em declive da cidade real de Ollantaytambo, Anamaya está de frente para ele, os olhos muito abertos. Ela sente o calor vibrar contra seu rosto, seu peito e seu ventre. Sente a respiração do sol que vem até onde ela está. - O, Inti! Inti, clareia nossa noite. Quanto mais se aproxima das montanhas do outro lado do vale, mais o sol cresce. Às suas costas, Anamaya ouve os sacerdotes de pé sobre os estreitos terraços cortados na encosta, tão escarpados que parecem fixados verticalmente uns sobre os Outros. Entre as hastes das grandes espigas de milho da cerimônia, ainda verdes e espalhando pontas douradas, eles encaram o sol e recitam em tom compassado:
Ó Inti, Ó Pai Poderoso, Percorreste o Universo queimando o dia, Ó Inti, Ó Pai compassivo, Quando te tornas vermelho, transformas-te em sangue, Ó lnti, Que Quilla possa regenerar teu sangue, Te abraçar e te aliviar da fadiga Na obscuridade do Outro Mundo! E nós que vamos cerrar nossas pálpebras, Tremeremos como as estrelas até o amanhecer, Ó Inti, Na escuridão, tremeremos e gemeremos, Para que teu repouso se complete, A fim de que a alvorada retorne no fogo de teu ouro. Ó Inti.
Como eles, Anamaya repete a prece enquanto o sol, mais pesado, se apóia sobre as montanhas, mergulha para além do visível, carmesim como um coração cortado pelo tumi. O calor que vibrava contra o peito de Anamaya se apaga brutalmente. Um vento fraco, mas frio, desce das montanhas. As pedras dos prédios se avermelham por sua vez, e por um instante parecem tornar-se macias e delicadas como a pele de uma criança. E então uma sombra enorme escava o fundo do Vale Sagrado. Ali o rio deixa de refletir a luz entre os terraços de verde suave. Torna-se negro como o corpo de uma serpente. Torna-se frio como o céu de leste já escuro entre os picos das altas montanhas. O vale que vem a seguir, estreito e recortado, se abre como uma boca sobre a sombra silenciosa que avança até as ruas de traçado regular do centro da cidade, marcado tão rigidamente como o desenho de uma manta. Os telhados das canchas já estão cinzentos. A fumaça dos pátios sobe mais reta, também cinzenta. O silêncio das ruelas é cinzento, os terraços cortados nas encostas tiue conduzem aos rios, os flancos das montanhas se apagam no cinza. Não resta mais nada, somente o pico do recinto sagrado conserva ainda um último raio dourado, e sobre as pedras brilha delicadamente a luz vermelha de lnti. Por alguns segundos, Anamaya se sente alçar vôo, como se asas a sustentassem acima de todos. Seus olhos vêem, como os olhos de um pássaro, o vale obscurecido, as encostas das montanhas pálidas e diminuídas, as casas de Oliantaytambo como brinquedos de madeira entalhados para crianças. E, de repente, o sol não está mais visível e até o céu torna-se cinzento e sem vida. - Ó, Inti - murmura ela -, não nos abandone. O silêncio se prolonga ainda por um breve instante, como se todas as coisas do mundo fossem tomadas pela tristeza da noite. Um ruído de voz na parte inferior das escadas finalmente ressoa e atrai sua atenção. Com o primeiro olhar ela reconhece o homem que fala com os guardas da área fechada para obter permissão de passar. Seu coração dispara. Ela hesita em descer os degraus íngremes para ir se juntar a eles, depois se controla. Obrigando-se a assumir uma postura inflexível para esconder suas preocupações, usando uma força um pouco excessiva para puxar a manta que cobre seus ombros, ela espera que o homem venha ao seu encontro. Éo jovem oficial que numa outra ocasião já a havia acompanhado ao encontro de Manco em Rimac Tambo e que viera em seu auxílio antes da batalha de Villaconga, permitindo-lhe salvar Gabriel. Ele ganhou segurança. Seus traços, bem como seu corpo, tornaram-se mais pesados com os combates. Mas antes mesmo que esteja próximo, somente de vê-lo subir com esforço os degraus íngremes como uma trilha num penhasco, a boca ligeiramente entreaberta e os ombros cansados, ela compreende que ele é portador de uma má notícia. Quando ele ainda está a cinco degraus de onde ela espera, dobra os joelhos na escada e inclina a nuca. - Coya Cama quen, estou às suas ordens - diz arquejante. - Levante-se, Titu Cuyuchi - responde ela com algum nervosismo. O que ela vê em seu semblante confirma seus temores. - Espero que possa me perdoar este fracasso, Coya Cama quen, mas não conseguimos. Ela se obriga a respirar para acalmar as batidas disparadas de seu coração. - Pelo menos sabe se ele está vivo? - Estava quando o vimos. Mas isso foi há cinco dias. - Por que não conseguiu, Titu Cuyuchi? O oficial esboça um gesto de abatimento. - Eu tinha dois homens comigo. Depois que os telhados de Cuzco pararam de arder, esperei que a noite estivesse bem escura e corri com eles por sobre as paredes até a cancha que você havia me mostrado. Você tinha razão. O estrangeiro estava lá. Nós reconhecemos sua túnica de camponês de Titicaca. Uma corrente o prendia à parede... - Uma corrente? - Sim. Foi isso que nos fez falhar. Por um instante nos perguntamos como libertá-lo. Um de nossos soldados foi acertado por uma flecha, morreu. Vimos apenas uma sombra negra. A situação estava muito confusa... - E ele disse alguma coisa? - Disse que era seu amigo, Coya Cama quen, que não deveríamos matá-lo. Ele não compreendeu que vínhamos libertá-lo! Anamaya se cala, desvia o rosto do horizonte ligeiramente avermelhado do oeste. - Fomos obrigados a fugir - prossegue Titu Cuyuchi. - Não conseguíamos discernir nem mesmo a presença daqueles que nos atacavam. - Você não tentou mais uma vez? - Não, Coya Cama quen... Há uma reticência na voz de Titu Cuyuchi. Anamaya o observa com atenção. - Fale, fale sem receio - ordena com a voz fraca. - A partir da noite seguinte os estrangeiros começaram a pôr fogo em nossas paliçadas, com a ajuda dos cafiaris. Mataram muitos dos nossos. Combati na última barricada, onde conseguimos repelir o ataque. Eu o reconheci. Estava montado a cavalo, vestido como os estrangeiros e... - E? Mas Titu Cuyuchi hesita mais uma vez antes de responder. Seu olhar desliza por sobre o ombro de Anamaya e segue um pouco mais para o alto. Ela se vira ao mesmo tempo em que ouve as passadas suaves do Mestre das Pedras que vem se juntar a eles. Está quase aliviada por ele estar ali. Repete, em tom duro e com a voz alta de modo que Katari possa ouvi-la. - Fale, Titu Cuyuchi. - Ele combatia montado num animal branco, como um poderoso do Mundo de Baixo! Cortava nossos soldados como se mais nada tivesse importância para ele, nem os mortos entre seus companheiros nem sua própria morte. E então uma coisa estranha aconteceu: nós havíamos cercado os estrangeiros diante da barricada, enquanto os guerreiros que estavam na grande torre de Sacsayhuaman disparavam sobre eles flechas incendiárias. As flechas se desviavam dele e as pedras de funda também. Vi com meus próprios olhos, Coya Cama quen! Isso impressionou tanto nossos soldados que eles pararam de combater e deixaram que ele passasse. Anamaya estremece, fechando os olhos. - Você tem certeza de que era ele? -Tenho, Coya Cama quen. Eu o vi como a vejo agora e ele tentou enfiar a espada em minha barriga! Estava em liberdade e bem vivo! O oficial hesita, depois um sorriso se abre em seu semblante severo. Olhando Anamaya diretamente, acrescenta: - Mas ele queimou as paliçadas inutilmente, Caya Camaquen. Nós as reconstruímos. Os estrangeiros não ousam mais sair da área cercada. Brevemente serão vencidos e o Único Senhor poderá voltar a entrar em Cuzco. - Agradeço muito, Titu Cuyuchi. Sei que você fez tudo o que era possível. Agora vá descansar e comer... Quando o oficial desce a escada, parece que a noite já alcançou as ruelas de Ollantaytambo. Anamaya está paralisada. Não ousa olhar para Katari, pois ele veria as lágrimas em seus olhos. É ele quem se aproxima para tocá-la e dizer baixinho: - Seu puma está em liberdade, Coya Camaquen. - Em liberdade ou morto, quem sabe? Será que fiz mal, Katari? Quando soube que os estrangeiros o mantinham prisioneiro, quis que Titu Cuyuchi o libertasse. - Mas o puma se libertou sozinho - replica Katari com um sorriso. - Você acredita como eu que ele seja o puma que o Único Senhor Huayna Capac me anunciou? - Quando tratei dele na margem do Titicaca, vi a marca em seu ombro. - Coloquei minha mão sobre ela, Coya Cama quen, e, como você, senti. Mais uma vez, Anamaya estremece. A noite já cresceu sobre as montanhas. - Eu me enganei, Katari. Não sei mais tomar uma decisão correta porque meu coração deixa meu espírito confuso. Sofro por estar longe dele e receio estar perto demais! Aceitei me afastar de Gabriel porque Vilia Oma me exigiu isso: ele o odeia... Mas quanto mais se passam os dias, eu tenho mais medo de perdê-lo. Ah, Katari, será que tenho medo porque ele é o puma ou somente porque amo um estrangeiro? - Não posso responder, Coya Cama quen. - Você pensa como Vilia Oma, não é? - Não. Vila Oma não é mais o Sábio que formou você, tornou-se um louco apaixonado pela guerra. Não vê nada além da violência que está diante de si. - Ajude-me, Katari. Como posso saber onde está o que é certo e o que é errado? - Você deve ouvir os Anciãos do Outro Mundo. - Eu ouço apenas o silêncio. A luz derradeira desaparece no prédio mais alto da área fechada do templo sagrado e das pontas rochosas que pendem sobre ela. As primeiras estrelas brilham, enquanto as tochas iluminam as ruelas de Ollantaytambo. Anamaya sente a palma quente da mão de Katari tocar seu ombro. - Se confiar em mim, talvez conheça um meio para que seu esposo o Irmão Duplo possa lhe permitir fazer uma viagem até o Único Senhor Huayna Capac - sussurra. Na escuridão da noite, Anamaya não consegue mais distinguir o que brilha nas pupilas do Mestre das Pedras. Mas o eco de sua voz ressoa dentro dela por muito tempo (mesmo mais tarde, quando o sono a tomou e a fez mergulhar numa noite de sonhos agitados) e, pela primeira vez depois de várias luas, ela sente uma esperança que não é destruída pela angústia. - Espero por você - murmura durante a noite. E parece-lhe que é ouvida.
Capítulo 6 Cuzco, maio de 1536.
- Inicialmente, Gabriel não reconhece o homem que vê se aproximar na noite do décimo dia de sítio. Na penumbra acentuada pelos toldos de proteção estendidos sobre o pátio é apenas uma silhueta que parece ter uma cabeça de tamanho anormalmente grande. O vulto avança com precaução, mantendo-se à distância dos escra vo do Panamá que cochilam no solo cheio de detritos. Tudo ali está sujo e fedorento, até o hálito dos que estão em jejum exala um mau cheiro de morte. É que a cada instante a fome endurece os ventres e os corações. Gabriel, como todos os outros, amaldiçoa o ardor lancinante de suas entranhas, que o recorda a todo instante que em cinco dias não comeu nada exceto um pedaço de carne tirada de um cavalo abatido. Quando o homem está bastante próximo, Gabriel distingue o penacho escarlate do morrião que ele segura debaixo do braço, bem como as grandes manchas de sangue que marcam seu gibão. Quanto ao estranho volume da cabeça, deve-se às bandagens que a envolvem, permitindo que se vislumbre de seu rosto apenas os olhos febris, um nariz arrebitado e lábios que se movem com dificuldade. - Dom Gabriel! A voz é tão baixa, as palavras tão mal pronunciadas que mal são compreensíveis. Sem descer da barrica vazia que lhe serve de poltrona, Gabriel o saúda com uma inclinação de cabeça que fica no limite da polidez. - Dom Juan! Ora, vejam só, está novamente de pé. Frei Bartolomé acolchoou bem sua cabeça para poder suportar outros lançamentos de funda. A zombaria faz Juan Pizarro se retesar e o incêndio em seus olhos se intensifica. Por um instante eles se encaram medindo forças, Gabriel não pestaneja. É a mão direita de Juan que se levanta em sinal de paz. - Dom Gabriel, vim aqui para fazer as pazes com o senhor - murmura ele com sua voz estranha, gutural. Como Gabriel o observa sem responder, ele acrescenta, parando para tomar fôlego a cada frase: - Eu conheço os motivos que o levaram a agredir Gonzalo... Não posso censurá-lo... O amor por uma mulher não é algo que eu desconheça, dom Gabriel... Minha esposa foi escolhida para mim pela sorte de maneira curiosa, como sabe... Contudo, a amo como se Deus em pessoa a tivesse destinado a mim... A minha doce Inguili com freqüência me falou de sua amiga... de sua... daquela que meu irmão atacou... Gonzalo à vezes faz as coisas sem refletir muito. Gabriel acaba com o constrangimento de Juan com um pequeno gesto: - Não me compreenda mal, senhor - diz com a voz carregada de tristeza -, não me recuperei do gesto de seu irmão. Se me for dada a oportunidade, receio muito que meu coração e minha honra me obriguem a repetir a tentativa... - Nesse caso, vai me encontrar em seu caminho e pelos mesmos motivos, uma vez que creio ter também honra e coração. Por piores que sejam seus defeitos, Gonzalo é meu irmão e eu o amo... E mesmo que isto possa surpreendê-lo, ele também me ama com um sentimento absoluto e devorador, que por vezes me inquieta, como se eu fosse o único a impedi-lo de se entregar a seus demônios. - Felizmente, hoje ele é guiado pelos anjos! Juan faz menção de responder, mas um sofrimento repentino deforma seu semblante, e é com uma ironia amarga que declara: - Muito bem, assim seja, dom Gabriel: o senhor o matará e eu o defenderei. Será que há algo melhor a fazer enquanto esperamos? Gabriel se contenta em responder com um sinal de desilusão. E desta vez a careta que se desenha na boca comprimida de Juan parece muito querer ser um sorriso. -Vamos pensar no presente - prossegue, aproximando-se para se fazer entender melhor em vista da dificuldade que tem para falar. - Vim fazer as pazes com o senhor de modo que possamos combater juntos. Dom Hernando nos reuniu, foi tomada a decisão de atacar a fortaleza. A idéia foi sua... Apesar de estar ferido, Hernando também me nomeou comandante de todos os oficiais no ataque... Essa batalha será conduzida por mim! - Muito bem - aprova Gabriel em tom sério. - Mas não cometa o mesmo erro que nosso Vice-Governador: não subestime os incas. Eu conheço o chefe deles, se chama Villa Oma. É inteligente e tenaz. Sobretudo, seu único sonho é destruir todos nós, até o último homem, isso lhe dá uma força enorme. Não espere nenhuma fraqueza da parte dele, dom Juan. Corte-lhe os braços e ele lutará com os cotos! À medida que seu maxilar e a bandagem permitem, Juan dá suas opiniões. A despeito de a noite estar fresca, Gabriel repara que o suor lhe banha a fronte. - Eu não ignoro isso, dom Gabriel... É por isso que quero o senhor perto de mim. O senhor terá a energia que talvez me falte... Se eu por ventura fraquejar, saberá ocupar meu lugar. Como que para tornar concretas essas palavras, com um gesto brutal ele enfia seu morrião entre as mãos de Gabriel. - Quero que ele esteja em sua cabeça... Não posso usá-lo por causa de meu ferimento. Com o senhor usando este penacho, todo mundo saberá para onde deverá ir. - É uma grande honra esta que me oferece, dom Juan! Não estou nada habituado a isso. Seus irmãos compartilham de sua opinião? Juan levanta a cabeça ferida, enfrentando o olhar malicioso de Gabriel. As frases que saem de sua boca quase não são audíveis. - Eu já lhe disse, vim aqui fazer as pazes... E cabe a mim escolher quem serão meus comandantes... Ele faz uma pequena pausa, depois acrescenta: - Nossos companheiros querem tê-lo entre nós, dom Gabriel! Alguns afirmam que o dedo de Deus está apontado para o senhor, que a Virgem Maria o acompanha... Outros dizem que não é Deus coisa alguma, mas que é uma magia que lhe foi dada por causa de suas relações com os índios... Sua façanha da outra noite impressionou os espíritos... - Por todos os santos, como se pode ter fé nessas superstições? - Eu também vi, vi coisas com meus próprios olhos... E não foi a partir de ontem como essa gente daqui... Isso começou na praia de Tumbez, bem na ocasião de nossa chegada... O senhor deveria ter morrido naquele dia. A risada de escárnio de Gabriel soa como um queixume. - Sou indiferente demais a Deus para que ele aponte até mesmo um cílio em minha direção... Quanto à pessoa em quem está pensando, ela não me ensinou nada de muito especial, exceto o fato de que os incas são homens como o senhor e como eu, grandes e pequenos, sofrendo muito de corpo e alma por nossa causa. - Que interessa se é Deus ou o demônio que o protege? - irrita-se Juan, respirando profunda e rapidamente. - A verdade é que nossos companheiros, ao mesmo tempo que o temem, lhe atribuem o valor de um talismã... Eles agora pensam que sem você não teremos nenhuma chance de vitória! - E ontem eles pensavam que por minha causa tudo estava perdido! - Aceita minha proposta, dom Gabriel? - Se eu recusar, a prisão estará de novo me esperando, não é? - Eu vim fazer as pazes e não ameaçá-lo. Gabriel coloca o morrião sobre a barrica com cuidado. Distraidamente acaricia a pluma escarlate e pergunta: - De que maneira está planejando o ataque para entrar na fortaleza? Um rosnado estranho escapa da garganta de Juan e seus olhos se franzem. Gabriel compreende com algum atraso que se trata de uma gargalhada. - Da maneira que lhe parecer melhor! Gabriel sorri, quase com cumplicidade, e risca com o bico da bota um desenho vago na poeira. - Na minha opinião, devemos tentar enganá-los. Fazer com que Villa Oma e seus comandantes acreditem que estamos fugindo... A bota descreve um círculo em torno da massa que representa a fortaleza. - Aqui está a garganta de Carrnenga. Ela nos conduz para fora da cidade pelo noroeste, distanciando-se da fortaleza. Vai ser um trabalho brutal alcançála e depois fazer a escalada, pois é um verdadeiro barranco. Os incas farão a morte chover sobre nós. Mas, se conseguirmos, escaparemos à vigilância deles fazendo um longo desvio para retornar pela parte de trás da fortaleza. Lá, existem várias portas e pode ser que estejam acessíveis. - Assim faremos... - Dom Juan, nada de ilusões! De minhas mãos não sai nenhum milagre. Nossas possibilidades de obter êxito são tão magras quanto andam nossas barrigas! - O fato é que não há nenhum banquete previsto para esta noite... Isso nos dará muito tempo para rezar! Observando Juan Pizarro se afastar com seu passo pesado e irregular, Gabriel é dominado por uma profunda inquietação. Ele acaba de aceitar, sem uma palavra de discussão verdadeira (pois, no fundo de seu coração, está tão assustado quanto os outros por sua invulnerabilidade no combate), servir lealmente seus piores inimigos. Ele não se arrepende disso. Na verdade, sente-se bastante feliz. Quando desponta a alvorada, como em todas as noites anteriores, enquanto os guerreiros incas não cessaram seu pandemônio horripilante, cinqüenta cavaleiros estão ajoelhados, sob os olhos impressionados de uma centena de guerreiros chachapoyas e cauiaris. Bartolomé passa entre suas fileiras cerradas e, com a mão de dedos colados, abençoa cada fronte. Com a cabeça envolta em curativos limpos, uma verdadeira couraça ajaezando-lhe o busto e as coxas, Juan recebe a bênção com fervor. A seu lado, com a soberba cabeleira recaindo sobre as ombreiras de aço ornadas por cinzeladuras em ouro, dom Gonzalo arvora uma expressão contraída de descontentamento. Seus lábios mal se movem para deixar passar as palavras da oração. Um pouco recuado, de pé diante dos soldados de infantaria que brevemente suportarão sozinhos o cerco, Hernando acompanha com o olhar a cerimônia, murmurando maquinalmente. Ele éo primeiro a descobrir Gabriel, na entrada do pátio, com a égua branca vindo atrás silenciosamente. Seu braço esquerdo já está enfiado num escudo redondo, enquanto, com o outro, aperta contra a longa cota de malha reforçada com couro o capacete com o penacho escarlate. Se o semblante de Hernando se mantém impassível, o de Gonzalo, que imediatamente interrompe sua oração, empalidece. Suas pupilas se arregalam e a boca se cerra em meio ao padre-nosso. Gabriel acredita que ele vai se levantar. Mas o olhar imperioso de Hernando se faz pesado sobre o irmão caçula. É então que a oração acaba e os cavalos são trazidos. Os cavaleiros lançam olhares na direção de Gabriel. A cabeça de alguns se inclina em saudação, outros se persignam mais uma vez, mas nenhum ousa se aproximar, já agarrando as rédeas de seus cavalos para montar. Apanhado em meio ao movimento, Gonzalo é como que apagado, enquanto Hernando ajuda Juan a montar em seu cavalo castrado. Por sua vez, Gabriel enfia o morrião na cabeça, ajustando com firmeza a correia sob o queixo. - Você estava em minha oração, meu amigo! E você, eu vi quando rezava ainda há pouco, quando pensou que ninguém estivesse observando. - Espero que não me denuncie. Isso traria prejuízo à minha reputação! Até que enfim, frei Bartolomé, deve estar contente comigo. Não foi você quem me explicou que não era necessário crer para se ajoelhar? - Você tem mais fé do que pensa. Bartolomé põe a cruz de madeira sobre o peito de Gabriel. Com os olhos muito fundos no rosto, a exaustão faz com que suas feições magras pareçam ter envelhecido dez anos. - Seja prudente, não só com o que terá pela frente, bem como com o que terá pelas costas - acrescenta em voz mais baixa. - Gonzalo está louco de raiva por Juan ter imposto a sua presença. Evite provocá-lo. - Não precisa se preocupar, agora já é oficial que eu sou protegido de tudo, e por Deus em pessoa. - Não blasfeme! É inútil. - Frei Bartolomé, se Deus existe - diz Gabriel com grande seriedade e olhando-o bem nos olhos -, é hoje que ele poderá me convencer de Sua presença. Não ao me salvar a vida, isso pouco me importa, e sabe por que... - ... Mas purificando a Terra da presença de todo o mal de uma só vez, de preferência, a começar pela pessoa de Gonzalo Pizarro, não acha? - Palavra de honra, frei Bartolomé, eu às vezes me pergunto se não é inspirado pessoalmente por Deus. - O meu Deus - retruca Bartolomé, em tom sério - não é o Deus da vingança que castiga através da espada, mas o Deus do amor e da caridade. E se quiser acreditar em mim, você faria muito bem se também o ouvisse. Sem esquecer de empunhar a espada quando necessário! Gabriel já está abrindo a boca para replicar com sarcasmo, mas Juan Pizarro aproxima-se deles. Gabriel lê mais do que ouve as palavras em seus lábios ressequidos. - Está na hora, dom Gabriel... Dividi nossa cavalaria em dois grupos. Meu irmão Gonzalo comandará o segundo. Seus olhos buscam uma aprovação, que Gabriel concede meneando a cabeça. É em meio a um silêncio curioso, como para ouvir melhor a balbúrdia das colinas e o ulular das trompas da fortaleza, que eles se aproximam da porta da cancha reforçada por uma barricada de barrotes. Até os cauíaris, geralmente tão barulhentos, se calam. Gabriel sorri para Sebastian, que está entre os homens que se ocupam de desimpedir a passagem, com o ombro e o braço ainda cobertos por curativos. Pela primeira vez, o grande Negro não sorri de volta. Sua expressão grave está tomada pela tristeza de um verdadeiro adeus. Ele se aproxima para acariciar o pescoço da égua, que responde batendo-lhe de leve com a cabeça. - Cuide de Itza e cuide de si mesmo, amigo. - Vou trazer de volta a pomada para que você possa vir comigo da próxima vez - diz Gabriel em tom de brincadeira. Um ligeiro sorriso estica os lábios de Sebastian. - Boa idéia. Então, Gabriel se levanta sobre os estribos e grita com todas as suas forças: - Por São Tiago, esta noite comeremos na fortaleza! E, às suas costas, cinqüenta gargantas entoam por sua vez: - Santiago! Santiago! Eles ainda estão gritando quando os cavalos entram aos saltos na grande praça, levantando uma poeira que os caíaris atravessam urrando como uma matilha de animais selvagens. Eles mal ultrapassaram as últimas paredes das canchas e os primeiros terraços que desenham a base da garganta quando uma salva de flechas passa assobiando no alto. Disparadas de muito longe para serem eficazes, elas batem e quicam, como um marulho seco, sobre os grandes escudos redondos e as costelas cobertas de acolchoados dos cavalos. Enquanto isso, adiante, no caminho que atravessa os terraços cortados na montanha que cercam o oeste da cidade, a linha tripla ou quádrupla de guerreiros incas já forma uma barreira que impede a passagem. Juan vira-se para Gabriel. Seus olhos dizem claramente o que sua boca não pode ordenar. Com a espada já desembainhada, Gabriel grita a ordem de galope. Itza salta à frente e acelera seu passo como se estivesse apenas esperando por isso. Com a crina esvoaçando, ela parece dançar em direção ao obstáculo, sem tocar. - Então, que Deus nos acompanhe! a terra e, no mesmo movimento, leva consigo a massa compacta de carne e ferro dos cavaleiros e, um pouco mais atrás, de machados empunhados no alto e escudos levantados, os caía ris, que berram a plenos pulmões e correm com uma agilidade prodigiosa. Um segundo, dois talvez, e os guerreiros incas cerram fileiras, uns contra os outros, a lança apontada para a frente, o cassetete em punho. Mas tudo acontece depressa demais. Mais depressa que as pedras de funda que ricocheteiam sobre as cotas de malha e as couraças. De olhos arregalados, os incas vêem os cavalos se arremessarem sobre eles. A terra treme, o martelar das patas penetra em seus peitos como uma fumaça de medo. O sol parece recortado em duros clarões pelas lâminas das espadas que giram à esquerda e à direita. Bocas se abrem de dor, o ferro se abate e penetra cortando-lhes a carne, as patas moem ventres, esmagam peitos, os rostos não têm mais formas nem soltam mais gritos, os animais pisoteiam um tapete de carne e ossos girando em círculos. E então os cauiaris se juntam ao combate, aumentando a confusão. A ferocidade aumenta, os mortos abrem passagem enquanto as espadas ainda os trespassam. As linhas incas recuam, alguns guerreiros lançam seus cassetetes sobre os cavaleiros antes de bater em retirada, outros se suicidam na tentativa de espetar a barriga dos cavalos ou as pernas dos espanhóis. Mas tudo em vão. Com o peito e os jarretes manchados de sangue, os cavalos saltam fora daquele caldeirão mortal galopando em direção à primeira curva do ziguezagueante caminho da garganta. saindo do alcance dos disparos das fundas. Com o rosto coberto de suor e de sangue, o corpo dolorido de tanto golpear, a respiração arquejando no peito como um fogo rugindo, Gabriel não pára de gritar para que os combatentes o sigam. Sua exaltação é profunda e, sob a indiferença, sob o desgosto de viver, eleva-se um sentimento de poder sem limites. - Santiago! - grita, uma vez mais, com a voz esgarçada. E nos gritos dos espanhóis que lhe respondem nos assobios e choques, em meio aos gemidos de agonia ou de triunfo, ao estrépito e ao pisotear, parece-lhe que todas as encostas das montanhas, as pedras e a própria terra aceitam que ele empunhe a espada da vitória. Mas apenas o mais fácil foi feito. Como Gabriel temia, a encosta de Carmenga é uma provação que esgota grande parte das forças de que dispõem. Durante duas horas eles sobem penosamente, de curva em curva, pelo caminho íngreme em ziguezague. Vinte vezes o terreno friável da trilha, que mal comporta a passagem de um cavalo, se reduz a um monte de entulho ou de fendas. Então, no tempo necessário para que os caaris, agachados sob seus pequenos escudos quadrados e acabando por se assemelhar a um estranho formigueiro, preencham as fendas ou desimpeçam o caminho, é preciso esperar sob o dilúvio de pedras lançadas do alto da encosta. Gabriel sente o fedor do medo crescer novamente entre os espanhóis. A impaciência e a angústia, aguçadas pela fome, minam a bravura mesmo dos mais duros. Um cavalo, ferido por uma pedra que o acerta bem nas ventas, empina de dor. Ele lança as patas anteriores contra o cavalo que está à sua frente, enquanto seu cavaleiro é arremessado para trás, deixando de despencar pelo barranco apenas por causa da intervenção rápida de dois guerreiros canaris. Ao mesmo tempo, o pânico se apodera dos animais mais próximos, os encontrões que se seguem por pouco não arrastam uma meia dúzia de cavaleiros e montarias para o precipício. - Todos a pé! - grita Gabriel. - Todos a pé e segurem suas montarias pela brida. Obriguem os cavalos a baixar o nariz! Mas, como os protestos se elevam, ele muda de tom e afirma com segurança: - Nós conseguiremos passar, e passaremos porque é necessário! A despeito disso, a dúvida permanece até nos olhos de Juan. Na verdade, o mesmo pensamento atormenta os dois - que a garganta de Carmenga não venha a repetir o mesmo cenário que viram em Vilcaconga, onde anos antes e pela primeira vez os espanhóis se viram em tão má situação que Gabriel, quase agonizante, tivera a vida salva somente graças à obstinação e ao amor de Anamaya. - É a mesma situação! - murmura Juan, fechando os olhos como se diante de um pesadelo. - Eles no alto e nós embaixo... obstruídos por nossas montarias. - Não - rebate Gabriel à meia voz, para que somente Juan o escute-, não há ninguém lá no alto. O grosso das tropas de Villa Oma está atrás de nós. - Que Deus o ouça! - Eu me recordo de um platô, antes do cume da garganta. Lá poderemos tornar a montar e seguir pelos terraços em direção ao noroeste. Daremos a impressão de estar nos afastando da fortaleza. Eles acreditarão que estamos apenas tentando fugir. A única resposta de Juan é fazer o sinal-da-cruz sobre sua fronte coberta de bandagens. - Cuidado com as pedras! - ruge uma voz. - Cuidado com as pedras. Instintivamente, Gabriel levanta o escudo sobre a cabeça de Juan que está desprotegida, sem capacete uma vez que por causa do ferimento ele tem dificuldade de levantar seu escudo. - Proteja-se, dom Gabriel! - ordena Juan num murmúrio. Dessa vez a saraivada de pedras é tão intensa que parece que a montanha inteira se transforma em avalanche desabando sobre eles. Os braços se dobram sob escudos que se despedaçam, os homens gritam, os cavalos relincham queixosamente. Enquanto isso, em meio ao pânico, todos, até mesmo Gonzalo, vêem a mesma coisa: Gabriel bem como sua égua branca são poupados daquele dilúvio de pedras, enquanto eles têm as coxas, os rins e os ombros massacrados a despeito da proteção dos escudos e das cotas reforçadas! E sob seu escudo, Juan está tão bem abrigado como se estivesse sob um teto. Mas ninguém ousa dizer nada, mantendo os lábios cerrados e rezando do fundo do coração. Quando afinal, como prometeu Gabriel, a chuva de pedras cessa e eles alcançam o platô, descobrem que os guerreiros incas, que tanto os atormentavam até aquele momento, mal chegam a um total de cinqüenta! Estes não ousam se aproximar muito mais senão para fazer um lançamento de funda e basta um curto galope dos cavalos excitados para lhes tomar o terreno. Gabriel ouve os gritos que acompanham a fuga. - Eles acham que vamos voltar para Castilha! - anuncia, rindo alto. Tão violento quanto o terror de pouco antes, o alívio enche o peito de todos com uma grande gargalhada e por um instante a fadiga desaparece. - Santiago! Santiago! - gritam os cavaleiros se persignando de olhos baixos, como se preferissem não conhecer o motivo daquele sucesso. Gabriel, nesse instante, tem o coração gelado. Ele pensa no que virá a seguir, e cada imagem está impregnada nele como se já a tivesse vivido. Somente perto do meio da tarde, depois de fazerem uma quantidade de desvios, eles finalmente alcançam uma espécie de planalto irregular salpicado de imensas rochas negras e que desce, em inclinação suave, em direção à fortaleza de Sacsayhuaman. Lá se erguem as muralhas, blocos enormes e, ao mesmo tempo, encaixados com tanta precisão que se poderia duvidar que seres humanos tivessem podido colocá-los uns sobre os outros. Mas, estranhamente, nenhum guerreiro parece observá-los. Juan ordena uma parada para repouso próximo a uma nascente. Para completar o prazer, vários guerreiros caaris aproveitaram o tempo durante o caminho para caçar ratos silvestres e mesmo duas lhamas perdidas de um rebanho que a guerra dispersou. Como é proibido acender fogueiras, os animais são cortados em pedaços e comidos crus. Passa-se um longo instante, um estranho silêncio reina sobre o acampamento improvisado. Mas as poucas mordidas de carne, a insipidez do sangue bebido muito rapidamente restabelecem o nervosismo e a energia mesmo dos mais alquebrados. Gonzalo é o primeiro a reclamar o ataque. - Está na hora, meu irmão, não devemos esperar que chegue a noite. Os caaris fizeram um reconhecimento do terreno. As passagens entre os muros de defesa da fortaleza estão fechadas por barricadas, mas, como pensávamos, os incas estão tão despreparados para um ataque nosso que ninguém guarda esta parte da fortaleza. Sugiro que nosso amigo dom Gabriel aproveite seus recursos incomuns para acompanhar os cafiaris e abrir um caminho para nós. Ele fará sinal para nos avisar quando pudermos conduzir um ataque bem ordenado. E como você não está em condições de comandá-lo, meu irmão, sugiro que fique aqui com uma dezena de cavaleiros para nos apoiar a retaguarda em caso de necessidade. A ironia de Gonzalo arranca apenas um sorriso de Gabriel. Seu olhar se cruza com o de Juan e ele se pronuncia enquanto torna a enfiar o morrião de penacho vermelho na cabeça. - Não é uma má idéia. Depois captura de surpresa o olhar de Gonzalo e o que vê ali o enche de uma satisfação que vale como princípio de vingança: o belo e cruel Gonzalo tem medo dele. É a pé e bem no meio dos soldados cafíaris que ele se aproxima da primeira barricada. Não precisam de muito tempo para conseguir abrir uma brecha, pois ninguém os espera ali. Quando os cajiaris, sem fazer nenhum ruído, sem dizer uma palavra, acabam de desmontar as paredes de pedra, Gabriel salta para a sela de sua montaria. Sempre em silêncio, ele impele Itza a penetrar no labirinto de rochas naturais e de paredes fortes que protegem as grandes muralhas e as torres da fortaleza. A cada segundo, espera ouvir os gritos de alerta dos incas. Mas isso não acontece. Ninguém o vê nem escuta o trote de sua égua. Ele contorna a pequena colina que ainda lhe esconde a formidável muralha. Agora, já avista a esplanada e é seguindo mais devagar, em marcha normal, que ele alcança o limite da vasta extensão de relva baixa que se estende até a base da fortaleza. Os gigantescos blocos de pedra estão lá. O coração de Gabriel salta em seu peito. Nenhum guerreiro inca o aponta. Nenhuma pedra, nenhum dardo o ameaça. Um pouco mais adiante, à esquerda, numa espécie de ziguezague da muralha principal, ele avista uma grande porta em formato de trapézio sumariamente fechada por pedras e escudos. Alcançá-la é penetrar no coração de Sacsayhuaman! Sem esperar mais e certo da vitória próxima, ele puxa as rédeas de sua égua e retorna em um galope rápido para chamar seus companheiros. - Montem todos! - ordena quando sua voz está ao alcance do ouvido de Gonzalo. - O caminho está livre! Dom Hernando está mantendo todo mundo ocupado do lado da cidade e eles nos ignoram por completo. Como havia sido combinado, somente dom Juan Pizarro e um punhado de cavaleiros permanecem na retaguarda. A galope e mantendo o máximo de silêncio possível, Gonzalo e seus cavaleiros seguem a égua branca de Gabriel. Eles saltam sobre a barricada, ultrapassam os guerreiros caíaris e avançam para a grande porta em forma de trapézio. É então que tudo se modifica. O som de uma trompa de concha ecoa vindo do alto da torre redonda. Um clamor furioso ribomba no alto da muralha. Com assombro, quando estava pronto para penetrar nos terraços, vazios um instante antes, Gabriel descobre diante de si cem, duzentos, talvez mil soldados incas. Antes mesmo que possa refrear o galope aéreo de Itza, o estalar das fundas vibra no ar com o poderio de uma bateria de bombardas. Uma chuva de pedras rasga o ar e passa zunindo acima dele. As suas costas, ainda a descoberto, os cavaleiros urram de dor sob os impactos. Os cavalos escoiceiam contra as pedras que caem e quicam, lançam seus cavaleiros de pernas para o ar, fazendo-os cair de ponta- cabeça, enquanto os guerreiros incas já se põem em posição para agarrá-los. Com um berro de fúria, a espada girando, Gabriel arremete com sua égua para resgatá-los. Sua irrupção aterroriza os defensores de Sacsayhuaman o bastante para que eles se dispersem enquanto os cavaleiros desmontados tentam tornar a montar em seus cavalos ou saltam na garupa de companheiros que já puxam as rédeas e fogem. Mas a confusão permanece grande. Os guerreiros cafíaris, surpreendidos pela aparição repentina dos incas, se defendem mal e seu corpo-a-corpo atrapalha a retirada dos cavaleiros. O solo está tão juncado de pedras que os cavalos só conseguem avançar com muito cuidado. Logo, há apenas a égua branca de Gabriel mantendo seu galope em investidas inúteis. Quanto tempo dura esta loucura, ninguém sabe... De maneira lastimável, com a frustração roncando nas barrigas vazias, os espanhóis recuam para o outro lado da primeira barricada onde Gabriel, cinco ou seis vezes, vem tentar convencê-los a retomar o ataque. Mas, a cada vez, a chuva de pedras despedaça o entusiasmo deles muito antes que consigam chegar à monstruosa muralha. Incapazes de seguir a égua branca, a cada vez eles refreiam seus cavalos por temer que quebrem as pernas. Mais de uma hora se passou, esgotando-lhes a coragem, e o céu já começa a escurecer, quando Gabriel vem encorajá-los a fazer um último esforço. Mas ele mal parou quando um berro explode em seus ouvidos. Num reflexo de defesa que o salva, levanta o escudo diante da espada de Gonzalo, que tenta fazer seu peito em pedaços. - Traidor! Rato maldito! - urra Gonzalo com os olhos enlouquecidos. - Finalmente vemos sua verdadeira cara! Maldito seja você por ter nos trazido para esta armadilha! - Dom Gonzalo! - Cale a boca, excremento de bode! Eu vi, todos nós vimos: os incas poupam sua vida. Você aprendeu a evitar as pedras deles e quer nos levar para perto deles para que possam nos massacrar como quiserem! Gabriel não tem tempo de replicar, pois Gonzalo está de pé nos estribos e continua berrando ainda agitando a espada. - Companheiros! Companheiros! Este homem não é nosso são Tiago, e sim um traidor e um demônio! Não o sigam mais! Não o escutem mais, ele quer conduzi-los à morte! Com os olhos esgazeados pelo cansaço e por tanta desventura, os cavaleiros observam os dois homens sem conseguir distinguir a verdade da loucura. Alguns se persignam, outros põem ataduras nas panturrilhas feridas pelas pedras, outros ainda arrancam uns dos outros as flechas partidas presas em suas cotas de malha ou nos plastrões dos cavalos. Mas nesse instante o ruído de cavalos a galope os surpreende, poupando-os de uma decisão. Juan e seus cavaleiros de reserva vêm se juntar a eles rapidamente. - Juan! - exclama Gonzalo, sem controlar sua fúria. - Meu irmão, você estendeu a mão para uma serpente e ela morde! Montelucar nos assassina. É o demônio em pessoa! Os incas nos esperam, talvez ele os tenha avisado... Nunca conseguiremos forçar a passagem até o centro da fortaleza. É mais sensato descer de volta para Cuzco antes que chegue a escuridão total da noite! - Dom Juan - grita Gabriel -, não acredite nessas besteiras! Ainda nos resta uma chance: os guerreiros incas estão tão cansados de lançar pedras quanto nós de recebê-las e logo não agüentarão mais! Mesmo que eu seja obrigado a conduzi-lo sozinho, conceda-me a autorização para fazer um último ataque. Juan não se permite nem o tempo de hesitar. Com a ponta da espada, ele indica a fortaleza antes de bater na garupa do cavalo. Com algum tempo de atraso, a tropa inteira o segue, a despeito dos protestos de Gonzalo. Dessa vez, ultrapassada a primeira barricada, Gabriel lança Itza em direção à encosta da colina, onde avistou algumas rochas formando degraus sobre os quais a égua salta com facilidade. Apanhando por trás a primeira fileira de guerreiros incas, ele os obriga a retroceder antes que consigam girar suas fundas. De baixo, esta vitória solitária arranca gritos de entusiasmo dos cavaleiros que recuperam as esperanças. Por um instante ainda, Itza, a égua branca, e o penacho vermelho de Gabriel parecem estar por toda parte na confusão mais acima e continuam progredindo em direção à muralha de maneira fantástica. Os espanhóis retomam seus gritos de vitória. Mas, do alto da muralha, uma pavorosa salva de flechas e de pedras se abate sobre todos eles. Gabriel, como todos os outros, levanta seu escudo para se proteger e escuta o crepitar mortal que golpeia as couraças e as cotas de malha reforçadas. Um breve e curioso silêncio se segue. Depois um lamento atroz rasga o ar. - Juan! Ah, Juan! Ah, meu irmão... A cem passos de Gabriel, Juan Pizarro escorregou de sua sela, caindo sobre o leito de pedras que recobre a relva. O grande curativo voou longe e todo o alto de seu crânio é apenas uma mistura de sangue, ossos e massa cerebral. No entusiasmo da batalha, ele baixou seu escudo, oferecendo a cabeça nua à violência de uma pedra. Gonzalo já está de joelhos diante dele, a boca aberta emitindo gritos estridentes. Ele o aperta contra o peito como se fosse uma criança e o embala inutilmente. Gabriel sente uma lâmina gelada penetrar em seu peito e bloquear sua respiração. Maquinalmente, ele incita Itza a se aproximar enquanto os cavaleiros cerram fileiras ao redor dos irmãos Pizarro para protegê-los. Depois, enquanto eles rapidamente retiram o corpo de Juan, Gonzalo o encara, o rosto de belas feições deformado pela dor e pelo ódio. - Você o matou, Gabriel Montelucar, você matou meu irmão tão querido! Gabriel se cala, todo o ódio e todo o sarcasmo esvaziados apagando-se em seu íntimo. E logo, dominado pela dor, Gonzalo dá as costas a seu inimigo e soluça como uma criança. - Eu não atirei a pedra que destroçou o crânio de seu irmão, dom Hernando, mas de fato fui eu que insisti para que fizéssemos mais um ataque, que foi tão inútil quanto os anteriores. Dom Gonzalo tem o direito de me acusar da morte dele. Hernando não responde. Seu rosto emaciado e endurecido está apenas ligeiramente iluminado por um coto de vela. Do aposento vizinho vêm os soluços e as lamentações em que se reconhecem a voz de Gonzalo e o murmúrio das orações de Bartolomé. Eles levaram quatro horas para tornar a descer da esplanada da fortaleza e alcançar o refúgio da grande praça de Aucaypata, transportando o corpo de Juan sob a perseguição dos incas. Gabriel está tão cansado que não sente mais nem os braços nem as pernas. Nem fome ele sente mais. Seus dedos estão dormentes e a mão inchada de tanto empunhar a espada. Seus olhos têm dificuldade em discernir o que o cerca. - Mas não é verdade que tenha desejado nem que tenha trabalhado visando à nossa derrota - acrescenta. Mais uma vez, Hernando não responde. Ele parece escutar os lamentos, o canto fúnebre das mulheres acompanhando as orações. De repente, comenta em voz baixa: - Juan era a única pessoa no mundo que Gonzalo algum dia amou. Desde sempre e com paixão. É estranho, não é? É a vez de Gabriel se manter calado. Contudo, ele se recorda das palavras de Juan, ainda naquela manhã. - Gonzalo nunca amou nem respeitou ninguém, exceto Juan - prossegue Hernando. - Nem mulher nem homem. Ele mal respeita minha autoridade. E agora, a morte de Juan vai torná-lo ainda mais louco que antes. - Os demônios estarão livres - murmura Gabriel. Hernando o observa por um instante com surpresa e murmura por sua vez: - Os demônios, sim... No aposento ao lado, a oração fúnebre cessou, mas os cânticos continuam. Hernando faz um pequeno gesto com a mão, como para afastar os pensamentos que vêm preocupá-lo. Um leve sorriso aflora a seus lábios. - Há sempre mortos em batalhas, dom Gabriel - continua, num tom mais irônico. - As batalhas também são feitas para isso. Sobretudo quando as perdemos. Sou um bom cristão e a morte de meu irmão me aflige. Mas o que me aflige ainda mais é que, a despeito de todas as suas garantias e de sua magia, ainda não estejamos dentro daquela maldita fortaleza! Parece que as pedras e as flechas o pouparam mais uma vez, mas nunca um milagre me pareceu tão inútil! - Vamos descobrir logo, com certeza, se há magia ou não! - diz Gabriel por entre dentes, passando a mão no rosto. - Ah, sim? - Nosso ataque teve pelo menos um efeito positivo, dom Hernando. Enquanto mantínhamos as tropas incas ocupadas na parte de trás da fortaleza, vocês finalmente conseguiram alcançar a muralha deste lado. Ainda há pouco vi que nossos companheiros acampavam por lá... - Amanhã os incas farão de tudo para nos desalojar daquele lugar. E eles conseguirão, pois estamos cansados demais para resistir aos ataques por muito tempo. - Não. Ao raiar do dia eu subirei sozinho até o topo da torre e abrirei uma passagem. - Isso é loucura, Gabriel! Hernando e Gabriel viram-se para ver de quem partiu essa exclamação. Bartolomé passa pelo umbral da porta e exclama ainda: - Você nunca conseguirá fazer isso! - No alto, no meio da primeira muralha, há uma janela. Com uma boa escada ela pode ser acessível. Depois, eu sei que há uma escada que vai até a base da torre. Os incas certamente possuem um meio de subir na torre e eu o encontrarei! - Você está delirando! Por todos os santos, este dia deixou você completamente louco! - Dom Hernando, mande construir essa escada. Preciso dormir um pouco. Mas cuide para que esteja pronta ao raiar do dia. - Dom Gabriel, será morto por uma avalanche de pedras antes mesmo de alcançar a metade da escada - observa Hernando com fria circunspecção. - Minha morte não lhe trará maiores embaraços e, se eu conseguir, não terá motivos para descontentamento. A oportunidade que ofereço só lhe traz vantagens, dom Hernando. Hernando faz um pequeno movimento de surpresa, depois um estranho sorriso se desenha em seus lábios ressequidos. - O senhor, de fato, é um personagem curioso, dom Gabriel. Sempre querendo morrer e ressuscitar! Sempre querendo se mostrar melhor que nós. Vamos acabar compartilhando a opinião de meu irmão, o Governador, e reconhecer que tem algumas qualidades. Gabriel ignora o comentário e o olhar astuto do outro. Ele pega a mão deformada de Bartolomé e a aperta com força. - Está na hora de saber, amigo Bartolomé. Eu preciso saber! E, desta vez, ninguém deverá me seguir. Durante a noite, Gabriel não fecha os olhos. Se adormece por alguns breves instantes, é para, involuntariamente, entrar numa espécie de sonho desperto. E sempre, sem cessar, as imagens que se apoderam de seu espírito o perseguem e não o deixam em paz. Flutuando suavemente na brisa, ele vê uma corda amarrada nas muralhas denteadas da torre redonda, a mais imponente. E, no instante em que suas mãos feridas se fecham sobre ela, mais nada pode impedi-lo de chegar até o topo. O raiar do dia é frio. O solo está quase congelado, o céu branco como um abóbada de linho. De torso nu, Gabriel está enrolado em um cobertor imundo. É a carícia suave de uma mão sobre sua testa e seu ombro que o desperta. Uma palma de mão macia, de dedos finos. A mão de uma mulher, uma doçura esquecida. Quando Gabriel abre os olhos e emerge das profundezas de um sono sem fundo, com o corpo dolorido, vê o rosto da jovem mulher sem reconhecê-lo. As lágrimas brilham em seus olhos e suas faces estão borradas de poeira. - Você não se lembra de mim - sussurra ela com uma sombra de sorriso. - Eu me chamo Inguili. Nós nos encontramos há muito tempo, antes da morte do Único Senhor Atahualpa. Eu era uma mocinha a serviço da Coya Cama quen. Ela muitas vezes me falou de você. Gabriel se levanta apoiado nos cotovelos, agora completamente desperto. - Foi ela quem enviou você? Anamaya enviou você? Ela sacode a cabeça, quase sorrindo: - Não. Eu sou a esposa do senhor dom Juan. Sua voz fica embargada, mas logo ela se controla: - Era, ainda ontem. - Eu sei. Sinto muito. Ele me falou de você... No olhar de Inguili, a dor e o orgulho se mesclam. - Ele me havia escolhido para escrava, contudo me amou como a uma esposa. Eu também o amei. Ele era gentil comigo. Seus Ancestrais do Outro Mundo não quiseram que sofresse muito. Isso é bom. Com um movimento rápido, ela tira uma pequena jarra do unku e a oferece a Gabriel. - Ainda temos um pouco de leite de cabra para nossas crianças e eu trouxe para você. Deve tomar o leite antes de subir à torre. Precisará ter forças. Gabriel agarra-lhe o punho. - Por que está fazendo isso? Inguill o observa por um instante. Com a mão livre, ela esboça uma carícia sobre o ombro de Gabriel. Seus dedos deslizam sobre a omoplata e tocam muito de leve na mancha escura desenhada ali. - A Coya Cama quen o protege, os Poderosos Ancestrais também - sussurra. - Você vai nos salvar, todos sabemos disso. Os dedos de Gabriel se fecham com mais força em torno do braço de Inguill. - Como sabe disso? Por que me defender contra o seu povo? Isto não faz sentido! - Beba o leite, vai lhe fazer bem - diz ela com simplicidade antes de se afastar, fugindo. Somente então é que ele descobre Sebastian, alguns passos mais atrás, que o observa com um olhar duro. - Esta mulher diz coisas sem sentido! - resmunga. - Subir no raio da escada deles e no raio da torre é a pior idéia que você já teve, Gabriel. Gabriel se levanta com um sorriso. - Você não acredita mais que eu seja são Tiago? - Ah, mas claro que sim! O suficiente para saber que um de vocês dois é um impostor! E sabe, eu de boa vontade apostaria que o impostor é são Tiago! - Blasfemo! Rindo francamente, Gabriel vai abraçar seu amigo. - Cuide bem de Itza. É uma bela égua e eu gostaria de tê-la para sempre, como presente seu, mais tarde, quando esta batalha estiver acabada. - Eu lhe darei a égua e mais ainda, Vossa Graça, mas tem de me prometer uma coisa, por são Tiago e pela Virgem, pelo Sol e pela Lua, e por meus dentes, minha barba e pela sua... - O que, diga? - Viva, seu cretino. A escada tem pelo menos quatro toesas de comprimento, mas apenas a altura exata para alcançar a borda da estreita janela cortada na muralha. São necessários vinte homens para levantá-la e colocá-la no lugar preciso. É feita de vigas de teto e de grossas toras de madeira das barricadas emendadas e montadas da melhor forma possível. Faltaram cordas para amarrar os barrotes de ferro ou de madeira que servem de degraus, que por vezes são apenas pedaços de lanças partidas, de modo que são bem espaçados e Gabriel tem de usar os braços e puxar com força para avançar na subida. Depois de ele ultrapassar a primeira toesa, a escada começa a oscilar e Gabriel se esforça para fazer movimentos menos bruscos. Ele sobe mais dois barrotes e então ouve chamados. Quando baixa os olhos, vê que Sebastian, Bartolomé, Hernando e todos os outros se afastaram precipitadamente das vigas que seguravam. Antes mesmo de olhar Gabriel, já compreendeu. Enfiando a cabeça entre os ombros e firmando bem os pés contra as vigas laterais, ele levanta o escudo sobre a cabeça. É quase com prazer que escuta o choque natural das pedras sobre o couro do escudo redondo. Algumas, bastante pesadas, batem também na escada e a fazem vibrar sob seu corpo. Não deve se demorar muito parado ali. Com um trabalho de lenhador, ignorando os projéteis, ele se lança ao assalto dos barrotes superiores. A escada se enverga e range horrivelmente. Ela se curva como uma barriga se enchendo demais de ar. Gabriel mantém os olhos cravados na muralha. Esquece o que está em cima e o que está embaixo, as pedras que assobiam e que passam por ele raspando por vezes ricocheteiam e batem em seu quadril, sobre a madeira, tão perto de seus dedos que poderiam esmagar. Com o impulso dos pés e dos joelhos ele escala. Gritos e clamores se elevam por toda parte ao seu redor, mas ele não os ouve mais. Ultrapassa a metade da escada. Ali o balanço é tão forte que Gabriel a sente se mover e se deslocar a despeito de seu peso. Pensa nos homens que lá do alto poderiam agarrá-la e empurrá-la fazendo-o cair, depois esquece. Seus companheiros levaram em conta seu cansaço, pois os últimos barrotes são mais próximos uns dos outros e mais fáceis de subir. Parece-lhe que poderia até correr ali, e é sem nem sequer olhar para o interior que ele se alça sobre a grande verga da janela. A luz ainda pálida do amanhecer pouco ilumina o interior, mas ele vislumbra uma escada e rostos, habitualmente impassíveis, que estão deformados pelo espanto. Apenas o barulho de sua espada saindo da bainha faz recuar os guerreiros que estão diante dele, de funda e maça na mão. Idiotamente, dominados tanto pelo espanto quanto pela curiosidade, eles olham uns para os outros sem fazer um gesto. Depois Gabriel grita em quíchua: - Para trás, para trás! Não quero lhes fazer mal! Agitando a espada como se fosse de madeira, ele avança três degraus enquanto os outros, recuando, sobem na mesma medida. E em seguida isso se repete mais uma vez. Depois um dos incas diz: - É o estrangeiro do animal branco! Novamente eles se entreolham, incrédulos, e Gabriel, da mesma forma que eles, não sabe mais o que fazer. Então, sem uma palavra, os soldados fazem meia- volta e com uma agilidade espantosa sobem a escada muito íngreme. Respirando fundo, Gabriel os segue, com prudência e mantendo a lâmina à sua frente. Quando finalmente chega à luz do dia, é para descobrir que a fortificação na base da torre está vazia. Os guerreiros fugiram e correm amotinando os oficiais. Então, das torres vizinhas, ele é avistado. De novo, os gritos e as pedras Jorram. Contudo, nenhuma é dirigida contra ele, apenas contra os espanhóis que permaneceram na base da muralha. Entusiasmado com toda essa facilidade, Gabriel contorna a torre. Levantando os olhos, tomado de exaltação, ele sabe que Inguili estava certa. Que todos estavam certos. Embora nenhuma porta nem janela se abra para o interior da torre, nem permita que se possa alcançar o alto, uma corda de fios de fibra de agave e de ichu, semelhante à que é usada nas pontes, grossa como um braço de homem, se estende ao longo de todo o comprimento da construção como o mais maravilhoso dos convites. Ele vê com uma extraordinária exatidão aquilo que viu em sonho. O cansaço, os músculos doloridos e a prudência desaparecem. Não podendo mais se conter, Gabriel se aproxima da muralha, agita o escudo e a espada gritando: - Santiago! Santiago! Lá embaixo, sob os escudos colados uns nos outros, seus companheiros parecem reduzidos ao tamanho de pequenos animais de carapaças sujas. Gabriel ri como um louco e continua berrando: Santiago! Depois, num só movimento ele encosta o escudo redondo na parede, embainha a espada e despe a pesada cota de malha. Sem nem se preocupar se lá no alto alguém poderia cortar aquela corda, tão miraculosa quanto a escada de Jacó, ele a agarra firme com as duas mãos e começa sua ascensão. Na verdade, basta-lhe subir duas toesas, com as pernas e o busto em esquadro, as solas das botas raspando nas pedras e os braços penando no esforço para mantê-lo acima do vazio, para que seu frenesi se acalme. Duas vezes, com as pernas pesadas, seu pé escorrega sobre um ponto de apoio mal escolhido. Imediatamente ele é projetado com todo o peso de seu corpo contra a muralha. Bate violentamente com os joelhos e o peito, por pouco não largando a corda por causa da dor. Com a respiração de novo ofegante, os músculos retesados, retoma a subida. Uma toesa, duas toesas. Faltam seis, talvez mais. Ele se recorda das palavras de Sebastian: "Daqui a pouco, você vai voar do céu à terra como um anjo de verdade e com um lastro de pedregulhos!" Uma gargalhada desagradável o faz parar, mas o peso de seu corpo torna-se tão grande que ele prefere retomar o esforço. Mal conseguiu chegar à metade do caminho quando um choque o faz levantar a cabeça. Bem acima dele, uma pedra do tamanho de um tamborete bate e quica contra a parede com um choque surdo. Ele não tem nem sequer tempo de se proteger, apenas de fechar os olhos. Nada o atinge. Exceto o deslocamento de ar da rocha passando bem perto de seu ombro. Ele reabre os olhos no instante em que a pedra se espatifa em mil pedaços nas lajes na base da muralha. - Eu sou protegido - murmura, com o peito em fogo. - Anamaya me protege! Ela me ama e me protege! Então, a estranha loucura se apodera dele novamente. Não vê mais a muralha da torre diante de si, e sim o olhar azul de Anamaya. Não sente mais seus pulmões queimando, os braços que não suportam mais o esforço, as coxas que não querem mais se dobrar. Ele escala como se fosse carregado. Escala como um demônio ou um macaco. E, lá embaixo, é assim que todos o vêem escalar os últimos metros e gritam quando ele agarra o parapeito da mureta que contorna o alto da torre. - Santiago! Ele conseguiu, Santiago! Ele descansa por um instante esticando todo o corpo, com dificuldade para respirar. Não tem força para se levantar. Procura ouvir os soldados incas que vão capturá-lo. Mas os ruídos vêm de muito longe. Ele se levanta e descobre que está sozinho. O alto da torre está vazio. Há uma espécie de torrezinha construída em seu centro e ela se abre para uma escada de vários patamares, com degraus tão estreitos que é preciso se posicionar neles de lado. Não há mais ninguém ali e, lá de baixo, Gabriel escuta vozes e chamados. Então ele retorna para o parapeito; por sua vez, berra e urra gritos de vitória e avisa que a primeira torre está tomada e que todos podem subir! Ao meio-dia, os combates ainda não cessaram e uma segunda torre é tomada. Gabriel não deixou a sua e ninguém veio juntar-se a ele ali no alto. Com horror e incansavelmente, assistiu ao grande espetáculo da guerra. Agora os cadáveres se amontoam no interior das muralhas da fortaleza de Sacsayhuaman. Mil, talvez dois mil cadáveres. Gabriel descansou as mãos doloridas sobre a mureta de pedra e percebe que estão trêmulas. Ele não sente mais nada. Pergunta a si mesmo que loucura o dominou, pois sente-se como um homem bêbado que acaba de despertar. Não ousa mais nem sonhar com Anamaya, nem acreditar, sem incorrer na obscenidade que ela tenha podido protegê-lo para que ocorresse uma carnificina tão imensa. O odor pestilento da morte devora suas narinas. As palavras afetuosas de Sebastian lhe parecem ter sido dirigidas a uma outra pessoa, não a ele. Sim, ele espera de novo que a morte venha levá-lo embora e que não tenha de pular da torre para esquecer o prazer que sentiu por ser seu instrumento. "Eu acreditava ser o senhor", escarnece de si mesmo, "e não passava de um escravo miserável!" Mas seus olhos não abandonam - nem por um instante - o movimento incessante dos homens que morrem. À noite, Hermando Pizarro conduz o ataque à última torre da fortaleza, que é a maior, mas foi construída apressadamente em alvenaria. Quando os homens estão a meio caminho das escadas, o general inca que comandava a defesa de Sacsayhuaman até aquele momento se levanta, sozinho, sobre o parapeito. Os grandes brincos de ouro brilham em suas orelhas e indicam sua linhagem nobre. Com espanto, Gabriel vê que ele esfrega as faces com terra até que a pele se esfole. Depois o inca apanha mais terra entre as pedras da torre e continua a se esfregar e esfregar suas feridas até estar completamente desfigurado. Nenhum dos espanhóis se move, todos estão com os olhos cravados nele. Os soldados incas também estão silenciosos e um vento gelado parece envolver todo mundo. Então, o general enche a boca de terra, enrola-se inteiro até a cabeça na capa longa e se lança no vazio. Não se ouve nenhum ruído até que o impacto de seu corpo se espatifando contra um monte de pedras de funda se eleva. Só nesse instante Gabriel percebe uma exclamação às suas costas. Quando se vira, dez guerreiros incas estão diante dele. Percebe hesitação em seus olhos e vê os cordões em suas mãos. Um deles levanta uma maça de bronze, já pronto para golpear. Gabriel sacode a cabeça. - Não - diz ele em quíchua. - Não vale a pena. Lentamente, tira a espada da bainha e a joga longe por sobre a mureta. - Eu não lutarei mais - diz ele. - Acabou. E, enquanto os guerreiros o carregam amarrado pela noite adentro, Gabriel escuta se perderem no vento os gritos de bebedeira e de vitória de seus companheiros espanhóis. Ele quis morrer. Ele quis viver. Agora ele não quer mais nada.
SEGUNDA PARTE
Capítulo 7 Ollantaytambo, junho de 1536. Nas canchas da planície, entre os dois rios, sobre as encostas onde os terraços e os templos são dispostos em degraus, centenas de fogueiras estão acesas. Mas não se ouvem cantos, nem tambores, nem trompas, nem gritos de alegria e de bebedeira. Só se ouve o rugido das águas. Anamaya permite que esse som encha seus ouvidos: é um ruído lancinante de perda, carregado de tristeza. Os combatentes cruzam a ponte com um passo derrotado. Eles seguem, um por um, sem dizer uma palavra, o semblante impassível, mas a cabeça baixa. Sob a luz branca da lua cheia, seus rostos parecem ser de prata embaçada. As rugas de fadiga sulcam profundamente suas frontes e faces como se fossem feridas. Os unkus estão rasgados, cobertos de lama e de sangue. O cansaço torna seus membros pesados e as armas pendem de seus braços como se fossem inúteis brinquedos de criança. Mesmo aqueles que empunham espadas tomadas dos espanhóis, mesmo aqueles que conservam alguns raros cavalos estão massacrados pela vergonha. Eles perderam. Quando avistam Manco e Villa Oma do outro lado da ponte, seus ombros se curvarn mais um pouco, como se o peso se tornasse impossível de sustentar. Mas, quando passam diante dele, Manco os estimula com um gesto ou uma palavra de orgulho. Eles desaparecem na noite: a exaustão não lhes trará repouso. Anamaya observa Villa Oma. O olhar penetrante daquele que ela chamava de o Sábio está perdido na distância, acompanhando a extensão do Vale Sagrado, fugindo em direção às colinas acima de Cuzco e refazendo o caminho dessa batalha que deveria ter sido vencida, mas não foi. Seu semblante está crispado por uma raiva silenciosa. Nem uma vez Manco o encara. Seu perfil altivo demonstra apenas ternura e encorajamento para com seus combatentes. Anamaya se espanta e se comove com essa ternura que se esconde dentro dele, bem no centro de toda a violência que o atormenta - depois das humilhações que sofreu, talvez para sempre. Desde o dia em que Titu Cuyuchi retornou com a notícia do desaparecimento de Gabriel, Anamaya perdeu a capacidade de dormir. Quando pensa que vai adormecer, o puma passa acima de seu rosto; a todo instante do dia ela acredita ver sua sombra. Na aparência e nas palavras, continua a viver o papel da Coya Cama quen, para quem todos se voltam, a quem mesmo os adivinhos e os sacerdotes aprenderam a respeitar; mas no segredo de seu coração ela é uma mulher torturada pela preocupação com o homem a quem ama. Na hora da derrota - uma derrota tão cruel porque a vitória pareceu tão próxima- este sentimento é mais forte em seu íntimo do que qualquer outro e ela quase tem vergonha disso. -Venha. A voz de Katari é quase um sussurro, um bater de asas de morcego na noite, e Anamaya nem sequer tem certeza de tê-la ouvido. Ela se vira em sua direção; o homem, com um imperceptível movimento de cabeça, faz esvoaçar os longos cabelos que lhe descem quase até os ombros. Sem mover os lábios, ele faz sinal para que o siga. Anamaya não se preocupa mais com Manco nem com Villa Oma. Os dois jovens seguem a margem do rio que ruge, as águas borbulhando logo abaixo da mureta, cujas pedras cuidadosamente encaixadas indicam sua natureza sagrada. A luz da lua clareia o caminho que agora sobe em direção à cidade. As fogueiras nas casas bem como as dos templos reluzem como se fossem estrelas distantes, vindas de um outro mundo. O bater agitado de seu coração se acalma. Através das encostas das montanhas, como se músicas com notas mais agudas se sobrepusessem ao bater de tambor do Willkamayo, ela escuta o jorrar das águas que fluem, desviadas por canais, para desembocar nos chafarizes. De repente, Katari se imobiliza. Anamaya pára por um instante com os olhos fixos em seus ombros largos antes de voltar o olhar, como ele, na direção das Montanhas do Oeste, sobre as quais Quilla colocou seu disco perfeitamente redondo. A sombra negra do condor se destaca na noite. É um pássaro gigantesco, um pássaro-montanha que observa. O rochedo delineia em uma extremidade seu bico e sua cabeça, onde o olho está aberto, a reentrância pregueada entre as duas asas poderosas. Imóvel, dir-se-ia que parece se estender na direção do Vale Sagrado, protegendo-o, ameaçando aqueles que se sentiriam tentados a violá-lo. Afinal, Katari vira-se para Anamaya. - Chegou a hora - diz ele com simplicidade. Anamaya admira mais uma vez a calma desse homem jovem e a sabedoria luminosa que dele emana, de seu corpo grande e musculoso, de seus olhos puxados, como intermináveis fendas numa huaca. Ela não percebeu imediatamente, mas o rochedo é trabalhado aqui e ali: há regueiras abrindo o caminho para a água correr, entalhes marcam sua base, mostrando que há mil luas os homens reconheceram ali a presença dos deuses. Eles penetram na sombra do condor e a lua se esconde. A despeito da escuridão, Anamaya segue Katari com confiança, seus passos acompanhando os dele sem hesitar. Eles contornaram um enorme losango de calcário cravado no solo, cuja forma lhe parece familiar. Há ali um pequeno espaço em cujo centro as brasas de uma fogueira ainda estão incandescentes, tingidas de vermelho, e Katari não tem dificuldade para reavivá-las. Mais uma vez levantando o olhar, escrutando os quatro pequenos nichos escavados na mesma rocha, ela tem a mesma impressão de reconhecer um outro lugar. Enquanto recupera o fôlego, Anamaya é tomada por um sentimento estranho. Sem falar, Katari transmite-lhe o que quer. Ela fica quase assustada com esse sentimento de abandono que, instintivamente, a domina. - Não há nada a recear - diz ele baixinho. - Você me ouviu? A ligeira risada de Katari ressoa na noite. - Você devia saber que escuto você mesmo quando não estou com você... A recordação de Gabriel perdido no deserto de Salar a trespassa. Seu malestar desaparece e ela também sorri. - Você disse que podia me ajudar... - É verdade. Mas preciso que você esteja completamente livre do medo. E também que... Katari já desdobrou e estendeu a manta diante de si. - E também? - Na viagem que vamos fazer, é preciso que só um vá... - Mas ao mesmo tempo eu preciso de você para partir. Que significa isso, Katari? Eu não compreendo. - Aqui temos a água e a pedra - diz Katari. - Este Mundo aqui e o Mundo de Baixo, o Willkamayo e a Via das Estrelas, Inti e Quilla, o ouro e a prata... Tudo no nosso universo é duplo... Mas o uno, a união dos opostos, se esconde no coração das coisas se soubermos procurá-lo... O coração de Anamaya deu um salto quando ele começou a falar. Silenciosamente, ela completa suas palavras: existem os incas e os estrangeiros. Mas ela não ousa dizê-lo. - Continuo não compreendendo - murmura. Katari lhe lança um olhar rápido. - Você compreende melhor do que imagina... Não posso explicar agora. Mas você deve saber que nada do que você descobrir me será escondido. Você confia em mim o suficiente para isso? Ela o observa tirar da manta um galho coberto de folhas. É uma planta da floresta e não das montanhas. Sem hesitar, ele o atira no braseiro. Quase que imediatamente, uma fumaça acre e aromática se eleva. - Se você confia em mim o suficiente para me levar... - diz Anamaya. - Deixe que eu dê a você o que tenho... - Eu guiarei você, Anamaya, contudo é você quem vai me levar. Ela fixa os quatro nichos e o recorte tão particular do rochedo em que estão engastados. Ela sorri: sabe de que viagem ele está falando. Katari já não olha mais para ela. Balançando a cabeça de um lado para o outro, ele usa sua farta cabeleira como se fosse um abano para fazer descer a fumaça em direção ao rosto de Anamaya. Ao mesmo tempo, com os olhos fechados, canta uma melopéia lancinante, numa língua que Anamaya não reconhece. O odor da fumaça sobe em suas narinas e invade-lhe a cabeça e o corpo inteiro, a música faz seu efeito. Ela se sente ao mesmo tempo pesada de sono e desperta, quase incapaz de se mexer e tomada por uma leveza total. Ela o vê se levantar. Quando ele retorna para sentar ao lado dela, tem entre as mãos um esplêndido kéro, um vaso de madeira entalhado com mil desenhos geométricos cuja precisão singular ela distingue com uma clareza sobrenatural. No fundo do vaso, descansa um líquido verde-escuro. Depois Katari faz surgir dois outros kéros menores, sem nenhuma decoração. São de madeira em estado bruto, que conservou a forma do galho. Somente a cavidade revela que passaram pela mão do homem. Ele enche os dois pequenos vasos de madeira e estende um para Anamaya. Eles bebem lentamente, deixando que o palato e a garganta fiquem impregnados pelo sabor suave, semelhante ao do milho ainda jovem. O canto de Katari começou como o rumor distante de uma torrente na montanha; ele agora se avolumou e quase encobre o ruído da água dos chafarizes. O zumbido nos ouvidos, o palpitar surdo de seu coração - o corpo inteiro de Anamaya acompanha o ritmo desse canto, cuja origem lhe parece não estar mais no peito de Katari, mas nas pedras, na água, em toda a montanha. Sobrepondo-se à sua melodia lancinante vem uma voz mais aguda. Com dificuldade ela se dá conta de que é um sibilar, um gemido que escapa de seus próprios lábios. Sua cabeça se balança no mesmo movimento que a de Katari e pouco a pouco ela se entrega. Sua consciência do tempo se apaga, sua percepção do espaço... Subitamente, um espasmo a sacode da cabeça aos pés. É uma descarga violenta como um raio, que parece nascer de sua nuca e se propagar como rios de tremores descendo ao longo de suas costas para irrigar cada um de seus membros. Anamaya é agitada e sacudida dessa maneira várias vezes: a cada vez, ela se abre para receber a sensação como num encontro amoroso. O prazer é uma explosão deliciosa, e a onda de sensações se derrama dentro dela e ferve. Seu ventre está quente, queimando. É uma felicidade tão completa, tão intensa, que ela nem tem tempo de medir sua brevidade. O silêncio retornou. Manchas de cores intensas, luminosas, brilhantes dançam diante de suas pálpebras. O canto cessou. Resta apenas o ruído de água: o da água do chafariz, o da água do canal ao longo da huaca do Condor, o da água do rio que corre mais abaixo. Mas, nessa fração de calma em que a natureza fica em suspenso, sua percepção se aguça bruscamente e com uma clareza absoluta, mesmo nas profundezas da noite ela se torna capaz de ver tudo e de ouvir tudo, de sentir tudo e de saborear tudo... Ela percebe as ondulações do vento, cujas variações, cada uma delas, da brisa à borrasca, chegam a seus ouvidos; sente sua carícia sobre sua pele e deixa bem abertas as narinas e a boca para se inebriar com ela. De repente, éo grito de um pássaro que enche o horizonte - o pássaro que ela não ouviu mais desde os anos em que vivia, ainda menina, no meio da floresta. Ela respira os escondidos perfumes da terra, o húmus, as pesadas ramagens carregadas de umidade noturna... O ruído de um roçar na pedra a faz abrir os olhos e Anamaya vê Katari. Ele olha fixamente para os quatro nichos situados bem diante deles e cujo fundo ela não consegue distinguir. Ele toma sua mão e Anamaya permite que ele a conduza sem medo. À medida que eles se aproximam da parede, um dos nichos parece se animar com uma luz fugidia, cor de leite, proveniente da própria pedra. O movimento deles, que se iniciou de joelhos, se transforma num imperceptível andar de rastos em que eles esposam o corpo do rochedo, se confundindo com a pedra. Na entrada do nicho, a luz branca os envolve inteiramente e, na vibração de toda a massa rochosa, ela não consegue distinguir se foi o nicho que se dilatou para recebê-los ou se o tamanho deles repentinamente diminuiu. E isso não tem nenhuma importância. Num determinado momento, sem que ela possa dizer quando, o contato com a pedra, de roçar, se transformou em doce carícia e em todos os roçares de pele, todo o temor e o peso do corpo desapareceram numa espécie de envolvimento e absorção muito suaves, como se a matéria e a carne entrassem em contato e imediatamente se fundissem. Uma voz ressoou dentro dela, com palavras indistintas que lhe diziam que era assim, outrora, que os homens nasciam. Mas ela está tão tomada que não tem tempo de ouvir: membro após membro, seu corpo é aspirado pela montanha e sua última sensação humana é a da palma da mão de Katari na qual sua mão estava abrigada. De muito longe ela vê seu terror, bola de fogo na noite, bola de sofrimento na cabeça, enquanto seu corpo se torna leve por causa de seu extremo peso, como uma massa enorme sendo detida por uma massa maior ainda e que a absorve, pedaço por pedaço, fibra por fibra. Ela é a pedra. Ela é a própria montanha. O mais estranho é que conserva uma consciência absoluta de si mesma. Ela é Anamaya, mas uma Anamaya que subitamente teria se enriquecido de um universo inteiro de sensações onde todas as formas, todas as substâncias, todos os aspectos da natureza se misturam. Ela não tem tempo de gozar de novo pois tudo começa a se dilatar em seu ser, como se mil tambores, mil trompas, mil rios e mil estrelas pulsassem todos juntos até a explosão. No meio dessa sensação feita do excesso de todas as sensações, todo o seu ser se contrai transformando-se numa minúscula bola cujo único esforço, intenso, é se arrancar fora da pedra - como se, na imobilidade absoluta, ela quisesse com todas as suas forças evitar se dissolver e se perder. Vinda de dentro dela, muito baixa, porém perfeitamente nítida, em meio ao caos, ela ouve a voz de Katari: "Venha, Anamaya, está na hora." Ela está do outro lado. Não há mais nada além dessa vibração que percorre seu corpo e o sustenta, esse deslizar, essa leveza. Ela voa. Por um instante, não há nada além dessa delícia que mescla a sensação de poder com uma liberdade absoluta, infinita. Parece-lhe não ter mais olhos para ver, nem orelhas para ouvir, e seu corpo transformou-se numa montagem frágil, como uma balsa derivando sob o rio do vento. Você é o condor. Por um breve instante, quando esse pensamento lhe ocorre, sua estranheza lhe causa um calafrio. Depois ela compreende que Katari não segura mais sua mão, não está mais a seu lado, mas que está com ela nesse vôo - que se tornou o condor com ela e por ela. Ela se entrega à sua transformação sem temor nem reservas. Então compreende que atravessou a noite e vê o sol raiar; imediatamente, as correntes de ar a levam às alturas no céu. Sob suas asas, o esplendor se desdobra: a fita do rio, no fundo do vale, tem as escamas de prata da serpente Amaru, o símbolo da sabedoria, que com freqüência se manteve a seu lado. Ela rodeia aquele lugar, se enrosca em torno dele, oferecendo-lhe o cofre precioso de esmeraldas da floresta. Seu olhar varre as cadeias das montanhas distantes na altura das quais ela se encontra; o cume nevado de Salcantay, toda a majestade dos Apus dos Andes se oferece a ela sob os primeiros raios do astro solar. Dentro dela, a voz de Katari ressoa e canta sortilégios de felicidade: "Hamp 'u!Hamp 'u!' e parece-lhe que as montanhas respondem, uma a uma, reluzindo. E depois, é claro, ela as reconhece: o jovem e o velho pico, protegendo a Cidade-cujo-nome-não-se-pronuncia, aquela onde a mocinha que ela havia sido fora admitida tantos anos antes. Ela plana sobre os terraços plantados onde o milho está carregado de frutos, plana sobre os prédios de onde as silhuetas minúsculas dos sacerdotes e dos astrônomos, dos adivinhos e dos arquitetos começam a sair para saudar a chegada de Inti. Ela sente os olhares dos homens voltados para o condor lá no alto, no céu, e o temor e o respeito deles lhe dão prazer. "É aqui", diz ela a Katari, "que se esconde o mais secreto dos segredos do Império - aqui é o lugar que deve existir para além do tempo." Katari mantém-se em silêncio, mas percebe a felicidade que se apodera dela e que a impulsiona, batendo as asas com grande força, a voar cada vez mais alto no céu. "Villa Oma me trouxe aqui, quando ainda o chamávamos de Sábio e ele falava com os Deuses; mas ele se desencaminhou, perdeu o caminho e nunca mais o encontrará." "Veja o triunfo do Sol", diz Katari. No coração da cidade secreta, eles sobrevoam uma pedra sobre a qual os raios do sol se prendem, se refletem e de onde eles tornam a partir para iluminar o mundo, para dividir o tempo. É uma pedra que foi cortada - nos tempos antigos - para responder ao eterno arrebatamento do Jovem Pico, o Huayna Picchu. Eles planam por um longo tempo acima da pedra, dominados pela harmonia que dela se desprende. Estão emocionados com a unidade que reina aqui, entre a sabedoria dos homens e a ordem da natureza. A pedra parece ter sido recortada para receber a luz; a divisão que ela faz da luz com a sombra é uma prece que ressoa silenciosamente através das montanhas. Sua fragilidade é inatingível. Sua beleza é a própria memória. Anamaya sente que Katari absorve e se enche de todas as sensações ao mesmo tempo, que ele as bebe como se fossem um líquido inebriante - cada templo, cada terraço, cada pedra faz vibrar nele uma lenda que abraça as origens do mundo, a água, a pedra e os homens. O ar repleto de umidade pouco a pouco vai assimilando o calor do sol; os ruídos perfeitos da vida, os pilões no fundo dos almofarizes, o crepitar do fogo reanimado pelas mulheres, a corrida louca dos esquilos, as flores de sangue das orquídeas - tudo contribui para essa perfeição. Anamaya volta a subir acompanhando a extensão dos terraços e vislumbra a veia invisível que atravessa o Velho Pico: o caminho que ela percorreu tantos anos atrás, quando um condor interrompeu o gesto dos sacerdotes que iam sacrificar uma menina. Uma piedade infinita faz com que ela estremeça da cabeça aos pés. Ela se recorda de seu olhar, da mão pequenina aninhada na sua com a confiança e o abandono absolutos da infância. Pouco a pouco, à medida que ela se aproxima do pico, o vôo perde velocidade, torna-se mais pesado. Suas asas já não a sustentam tão bem, como se uma fadiga repentina se apoderasse dela. Ela pousa logo acima da huaca. Não ouve nada além do sopro: o sopro de sua respiração, da respiração de Katari, o sopro do vento. Observe , diz Katari, observe com o que ha de mais profundo em seu coração. Sem refletir, ela alça vôo seguindo em direção ao Huayna Picchu, cuja silhueta impetuosa se eleva bem à sua frente. Seu olhar mergulha no vazio e fica como que suspenso diante da montanha, adivinhando cada aspereza, cada veio de rocha. E, dentro da montanha, surge uma forma terrível e familiar: o puma. A montanha se transformou em puma ou o puma em montanha, da mesma maneira que ela e Katari se transformaram em condor. O espetáculo a inflama em sua magia e faz jorrar em seu íntimo um rio de sentimentos e de emoções muito humanos. "Gabriel", pensa, de início timidamente, depois com uma força crescente: "Gabriel!" "É ele mesmo, ele está diante de você e a espera", diz a voz tranqüilizadora de Katari. Sem dar a si mesma tempo para compreender e para refletir, ela é transportada pela alegria: ele está aqui, bem diante dela, e todos os seus temores desaparecem na manhã! Por muito tempo ela fica ali, diante da montanha-puma, sentindo-se protegida por sua força. Agora compreende o sentido profundo da intuição de Katari: nada pode acontecer a Gabriel, ele é protegido pelos Apus. Quando o sol chega ao meio-dia, ela retoma o vôo. Com apenas um bater de asas eles descem em direção à esplanada dos templos e permanecem acima do vazio, apreciando a vertigem se apoderar dos homens perdidos entre o leito do Willkamayo, cujo rugido se eleva lá de baixo, e as neves da Cordilheira de Vilcabamba, ao longe. Um único pequenino rochedo se eleva num canto da esplanada. Foi talhado com precisão e indica as Quatro Direções. E esse rochedo fala. A esplanada está inteiramente vazia e qualquer um que se aproximasse veria o estranho espetáculo de um condor pousado diante do rochedo se aquecendo ao sol. Isto seria para os que não soubessem ver. Somente Katari sabe que Anamaya tornou-se de novo a menininha inocente, pura e abençoada que esteve ao lado do grande Huayna Capac, no anoitecer de sua vida. Ele a vê vestindo um afiaco branco com uma simples faixa vermelha na cintura, ajoelhada junto do velho rei-rochedo, cuja pele acinzentada vibra, sacudida por tremores, seu perfil de montanha voltado para as neves, para o Mundo de Baixo. Katari a vê inclinada sobre ele, absolutamente silenciosa, ouvindo suas palavras. Você está comigo, Menina Anamaya, dos olhos de lago, E eu não a abandonarei enquanto proteger meu Irmão Duplo, Depois tudo desaparecerá e ele desaparecerá também. O puma é aquele que você verá saltar por sobre o Oceano. Quando ele partir é que ele voltará para você. Ainda que separados vocês estarão unidos, E quando todos tiverem partido, você permanecerá e a seu lado permanecerá o puma. Juntos, como seus ancestrais Manco Capac e Mama Occlo, Vocês engendrarão a nova vida desta terra. Haverá guerras como sempre houve guerras, Separações como sempre houve separações, Os estrangeiros conhecerão a miséria em seu triunfo, E nós, os incas, será necessário que sejamos humilhados, escravos da vergonha, para que compreendamos o longo caminho que percorremos e que nossos panacas, dominados somente pelo espírito da guerra e não inspirados por Inti, esqueceram em sua loucura de destruição. Mas nós não morreremos. Anamaya está no hálito do velho Rei. Ela o escuta contar de novo como foi o passado, a criação do mundo, a confiança dos Incas nascida no berço das montanhas de Cuzco; ela o escuta glorificar suas conquistas e chorar a guerra entre seus filhos. Ele fala da bola de fogo que designa Atahualpa e ela se recorda; ele evoca Manco, o primeiro nó dos tempos futuros, e ela se recorda. Eu quis me tornar pedra, como os Velhos de minha raça, pousado na relva flexível e macia de uma montanha de Cuzco. A guerra me obrigou a ir-me embora e encontrei abrigo na Cidade Secreta. Minha pedra se abre para as Quatro Direções exatamente como estendi o Império das Quatro Direções; contudo é apenas uma pedra, pois no fim isso é tudo o que restará do Império: uma pedra sobre a qual o Sol se prenderá e será refletido. As Quatro Direções estarão no coração do homem puro. Hoje eles ainda não sabem, mas já existe uma guerra entre os irmãos. E guerra haverá de novo. Guerra entre os Filhos do Sol e guerra entre os estrangeiros: este é o sinal. O sangue do irmão, o sangue do amigo são derramados mais generosamente que o do inimigo: este é o sinal. A pedra e a água desaparecem na floresta: este é o sinal. O estrangeiro que roga a uma mulher e não a seu Poderoso Ancestral está morto: este é o sinal. Nenhum adivinho o vê, os sacerdotes estão conflísos, o Sol escurece para os astrônomos, a traição é amiga do povo, o Oceano vomita estrangeiros em número cada vez maior, logo chegará para você também a hora defugirpara salvar o que sempre foi e sempre será. Mas você esperará os sinais e permanecerá ao lado dos nossos até que Inti tenha consumido o ódio entre nós e que restem apenas as mulheres chorando pelo sangue derramado. Você não cometerá nenhum erro. Você reencontrará aquele cuja pedra faz parar o tempo e ele estará diante de mim como você, mas ele irá para o lugar das origens, enquanto você irá para a Cidade cujo nome não se pronuncia. Você saberá o que deve ser guardado em silêncio e se calará. Dirá apenas o que deve ser e será, e quando isso acontecer, dois dedos de uma só mão, dois dedos de uma só mão unirão vocês. Você estará livre. Você conduzirá meu Irmão Duplo até ofim de seu caminho e ele, igualmente, estará livre. Um único segredo permanecerá oculto para você e terá de viver com ele. E durante todo esse tempo, não duvide de mim. Permaneça em meu hálito e confie no puma. O silêncio retorna, quase intocado pelo diálogo eterno entre o vento e o rio. O sol está encoberto, e o ar se enche de nuvens negras e úmidas. A silhueta de Anamaya está tão imóvel quanto a de Huayna Capac. Apenas sua mão está pousada sobre o corpo do velho soberano que morre. A dor antiga torna-se novamente jovem, e a solidão abolida retorna para apertar-lhe o coração. Ela mantém os olhos fechados. Ela estremece. Sente a presença que foge sem se mover, como que seguindo em direção a uma outra margem, e sofre por não poder ir junto com ela e viver com ela. Katari vem pousar a mão sobre seu ombro e contém seu sofrimento. O vale inteiro se encheu de bruma e os picos desaparecem diante deles, o dourado do milho nos terraços se apaga, a quinua em flor torna-se cinzenta, e os templos parecem feitos de pedra de água. Filamentos de nuvens os envolvem, dançando ao redor deles. Anamaya levanta a mão que estava pousada sobre o corpo de Huayna Capac. Ela vê apenas a pedra, mas não se surpreende. Sobre seu ombro, a grande palma da mão de Katari ainda descansa pesadamente. Ela continua triste, mas sente que seu amigo a impediu de se entregar a uma viagem perigosa. Os dois olham para o oeste, lá onde, no horizonte ainda escuro, um halo de luz ainda se filtra através das nuvens. Eles não percebem a chuva que os trespassa até os ossos, permanecem indiferentes ao frio que sobe da terra. E depois, tão brutalmente como escureceu, o céu parece se rasgar. Lá no alto, na abertura central do templo dos três nichos, um arco-íris se ergue como um pilar. "Venha", diz Katari. E os dois se lançam para o céu. A noite caiu sobre Ollantaytambo. Anamaya e Katari estão deitados sobre o muro baixo que acompanha o curso do Willkamayo e não ousam falar. O céu está claro e o rochedo do condor, sob a lua cheia, se destaca, como sempre, com muita clareza. - Tive um sonho em que você estava presente - diz Anamaya finalmente, se levantando. Katari não se move, os olhos muito abertos voltados para a imensidão do céu e das estrelas. - Eu tive o mesmo sonho - replica sem olhar para ela. - Como sabe? Katari não responde, mas Anamaya escuta o eco da voz dele em seu íntimo e, numa revelação súbita, compreende a realidade dessa viagem que eles fizeram juntos. Katari tem razão. Ela gostaria de perguntar a ele se retornaram ao ponto de partida ou se passaram um dia fora... Observando a lua, quase perfeitamente cheia, ela não encontra resposta. "Você saberá o que deve ser guardado em silêncio e se calará." Anamaya deixou as palavras explodirem dentro de si e toda a força das palavras de Huayna Capac a invade subitamente. Não, na verdade, ela não é mais a menininha aterrorizada que esquecia o passado, o presente e o futuro; ela não é mais a Coya Cama quen que precisava lutar para compreender o mistério. O mundo está em seu lugar: o que foi revelado assim permanece, o que é segredo também assim permanece. Um rugido surdo se faz ouvir vindo do norte. Katari se levanta. De início, eles se perguntam se não será uma convulsão que agita a terra e que vai levantar o rio, fazê-lo sair de seu leito. Mas o estrondo ribombante aumenta e eles percebem, simultaneamente, de onde se origina: é da montanha situada diante deles, a que fica aprumada bem no meio, entre os dois rios, a montanha que guarda o Vale Sagrado. A montanha ruge como um homem dominado por uma dor violenta. Pode-se senti-la tremer, se dilatar retesada ao ponto da ruptura com o esforço, antes que um enorme bloco se desprenda em meio a um gigantesco estrondo, deixando na encosta escarpada uma órbita escancarada. Pouco a pouco, uma espessa nuvem de poeira negra se eleva e invade a noite, enquanto a montanha ainda é sacudida, esporadicamente, por tremores. Depois vem o som de uma outra rachadura e o afundamento de uma face inteira, que eles vislumbram por trás da nuvem opaca. Duas vezes ainda, a montanha geme sob as contusões que inflige a si mesma. Eles vivem o espetáculo, fascinados, esquecendo qualquer temor. Aquela rebelião da natureza não é uma cólera dirigida contra os homens. Aquilo vem de mais longe; o simples fato de presenciá-lo faz parte do segredo. A poeira vem, entrando-lhes nos olhos, deixando-os meio cegos. Têm de ir até o chafariz para lavá-los e impedir que se queimem com a poeira ardente. Eles esperam. Quando o ruído cessa por completo, eles se viram. A nuvem vem baixando muito suavemente e eles distinguem de novo a forma familiar da montanha. Anamaya deixa escapar um grito. O que ela vê, claramente delineado pela luz do luar, é o próprio rosto de Huayna Capac, seu perfil exatamente como o viu diante de si nas horas que precederam sua morte, tantos anos antes, e, mais uma vez, em seu sonho - durante a viagem - quando ela era condor. Foi traçado no próprio flanco da montanha, como se um escultor miraculoso o tivesse talhado com grandes golpes de cinzel: é o homem-pedra, de um tamanho cem vezes, mil vezes maior que os homens de carne e osso. Seu olho está fundo na órbita e o nariz poderoso prolonga-lhe a testa numa linha reta que acentua sua vontade. Uma falha abre-lhe a boca e seu queixo está coberto por uma longa barba de rochedos. Ele está virado para o norte, para o coração do vale, acima da floresta, na direção da Cidade Sagrada. Então, Anamaya sabe que, agora, o conhecimento está depositado nela.
Capítulo 8 Ollantaytambo, barreira de Choquana, 16 de junho de 1536. Com as mãos amarradas nas costas, os pés presos por peias de laços de espessas cordas de agave que limitam a amplitude de seu passo, rodeado por uma dezena de combatentes que se revezam dia e noite para vigiá-lo, Gabriel caminha há três dias. Depois de sua captura, foi conduzido a um vilarejo com umas poucas miseráveis casas de barro, no coração de uma montanha árida, onde ficou detido durante um mês. Uma velha o alimentava e nem ela nem seus guardiões respondiam às suas perguntas. Com o passar dos dias, as tentativas de Gabriel foram se tornando cada vez mais raras e pouco a pouco, depois da exaltação louca dos combates, ele foi mergulhando numa espécie de apatia. Como antes, seu destino não lhe pertencia mais e ele foi se deixando levar, sem sentir nenhuma raiva, rumo a uma sorte que, sem dúvida, só poderia ser a morte. Muitas vezes fora perseguido pelo pensamento de que eles deveriam tê-lo matado imediatamente, mas o afugentara considerando-o importuno. Três dias antes, ao amanhecer, os homens vieram buscá-lo e lhe indicaram que estava na hora de seguir caminho. Gabriel não disse nada e foi a muito custo se, desde então, trocou três palavras com seus guardiões, que o observam com aquela indiferença aparente que agora sabe ser curiosidade dissimulada e, sem dúvida, temor. Na hora do crepúsculo, ele escuta seus conciliábulos, mas a exaustão o impede de se esforçar para tentar compreendê-los. Gabriel desperta como de um sonho. Durante todas aquelas semanas, viveu como se fosse um possuído: sobreviver à vingança de Gonzalo, depois ao incêndio da prisão, escapar das flechas e das pedras de funda, conseguir tomar a torre... Ele se revê, de fato, realizando esses feitos que arrebataram a admiração de seus companheiros, mas tem mais a impressão de assistir em sua imaginação a uma representação num palco de teatro ou ao desempenho de um ator, usando uma máscara, que representava seu papel. Ele, Gabriel, parece ter estado desmaiado aquele tempo todo, ter- se eclipsado. Encontrar-se preso por pegas de corda, impotente, caminhar toda a extensão daquele vale fechado pela barreira das montanhas o fazem retornar à vida com sensações desagradáveis. Diante dele, se não estivesse vendo as pernas nuas de panturrilhas musculosas, nodosas como madeira, não distinguiria nem sequer a silhueta dos carregadores que desaparecem sob a massa de enormes feixes de quinua. Toda a largura do caminho inca parece ter-se transformado num campo agitado por um vento caprichoso. Gabriel exala o ar de seus pulmões, os feixes sobem e descem, ele sopra de novo; ondulam mais uma vez. De maneira repentina e absurda, ele tem vontade de rir. "Sou o senhor da quinua!", exclama em castelhano. "O senhor do milho." E ele sopra à sua frente, sopra como se seus pulmões contivessem o maior dos ventos, Os soldados índios o observam, estreitam suas lanças, franzem o cenho: será que o prisioneiro ficou louco? Gabriel ri com violência, até tossir, antes de parar bruscamente. O vale aberto pelo leito do rio progressivamente se estreitou. É dominado, à esquerda e à direita, por encostas íngremes na base das quais foram edificadas fortificações. Formando meandros, o rio se dirige de uma encosta para a outra, de um forte para outro forte. Centenas, talvez milhares de homens vestidos apenas com o huara estão trabalhando para reforçá-los, algumas fileiras dentre eles carregando impressionantes blocos de pedra, enquanto outras equipes, visivelmente muito bem organizadas, levantam as paredes e os vigamentos. Mas é no momento em que os soldados o empurram para dentro do rio para atravessá-lo a vau que Gabriel percebe o alinhamento majestoso dos terraços. E, dominando-os com toda sua imponência, um prédio que pelo fato de estar inacabado não deixa de ser fascinante. Templo, fortaleza, ele não saberia dizer o que é - já sabe, contudo, que entre os incas essa distinção não existe. Ele está com a respiração entrecortada. E, no mesmo instante, vinda de lugar nenhum, Gabriel tem a certeza exaltadora e dolorosa de que vai revê-la. Ao entardecer, eleva-se um vento que refresca o ar. Percorrendo as ruas retilíneas, perfeitamente pavimentadas, onde portas altas e estreitas de acesso às canchas se abrem sob os telhados de colmo muito inclinados, Gabriel se impressiona com a animação que reina ali. É uma cidade em construção, fervilhando com uma animação incessante, onde se fala o quíchua que ele já domina, mas também o jaki aru e o pukina, línguas de Kollasuyu que conhece apenas o bastante para identificar de ouvido. Muitos dentre os índios nunca viram um estrangeiro e têm dificuldade em esconder seu espanto quando o descobrem, com seus cabelos louros desalinhados e a barba que, depois de semanas de detenção e de combates, lhe engole o rosto. Depois que os soldados entraram na cidade, mantêm as fileiras mais cerradas do que nunca, como se ele tivesse alguma minúscula chance de escapar em meio à multidão. A cancha diante da qual eles param é guardada por dois orejones - foi assim que os espanhóis se habituaram a chamar os nobres incas cujas orelhas são adornadas por discos, que outrora eram de ouro e que, desde a conquista, quase sempre são de madeira. Ele é empurrado de qualquer maneira para o interior do prédio de forma familiar. O pátio está cheio de soldados e as mulheres se mantêm mais para trás, algumas ocupadas em preparar a comida e outras agrupadas timidamente junto à parede no fundo do pátio e até mesmo na escada que leva ao andar intermediário da cancha vizinha. No centro do pátio, imediatamente reconhece Manco, sentado em sua tiana real, e, a seu lado, sobre um banco ligeiramente mais baixo, a silhueta alta e descarnada, de lábios finos, de Villa Oma. Ainda que o cenário seja mais modesto, o jovem soberano transmite uma majestade e uma dignidade muito distintas das de sua coroação na praça da Alcaypata, em Cuzco. Gabriel não consegue deixar de ficar impressionado com a vontade sombria, mas inflexível, que agora emana dele. Aquele rei marionete instalado no trono por dom Francisco está morto. O que ele tem diante de si é o combatente que por pouco não os venceu em Sacsayhuaman e cujas tropas continuam a cercar e sitiar Cuzco. Ele não vê Anamaya. Um silêncio pesado se estabelece. O olhar de Gabriel vai do Sábio para o Inca e do Inca para o Sábio. Ele também aprendeu a não falar depressa demais e a ler a escultura dos semblantes antes de se precipitar. É Villa Oma quem primeiro quebra o silêncio. - O estrangeiro deve morrer! - declara, levantando-se de sua tiana. Ele cuspiu as palavras com uma tranqüilidade furiosa. A platéia fica imóvel. - Foi ele quem comandou o ataque à torre de Sacsayhuarnan e é por causa dele que muitos de nossos combatentes estão mortos. Foi por causa dele que o nobre Cusi Huallpa se sacrificou. Os estrangeiros afirmam que ele possui uma magia superior a todas as de nossos adivinhos e que é protegido pelos deuses deles... Lendas ridículas! Vamos cortá-lo em pedaços e enviar-lhes seu crânio e sua pele esticada como um tambor, de maneira a mostrar que nossos combatentes são mais poderosos que aqueles seus deuses falsos! Deveríamos têlo matado há muito tempo e somente nossa fraqueza nos impediu de fazê-lo naquela ocasião... Villa Oma vira-se para Manco e prossegue com uma exasperação visivelmente contida por tempo demais: - . . .Essa mesma fraqueza que nos privou de uma vitória completa sobre os cães estrangeiros! Nunca ninguém ousou atacar Manco tão direta e violentamente, daquela forma, em público. Gabriel está consciente do insulto e, estranhamente, embora sua vida seja o objeto da disputa, sente crescer em seu íntimo uma espécie de distanciamento que o transforma em espectador de seu destino. É com uma voz calma, os olhos cravados profundamente nos de Manco, ignorando o Sábio, que ele responde. - Minha vida, para mim, é mais indiferente que para o senhor. Os meus compatriotas tentaram tomá-la de mim e Deus ou a sorte a pouparam... - O senhor quer me matar por ter feito o que fazem os soldados? Mate-me. Não cabe a mim dizer se é uma decisão justa ou uma crueldade inútil que ofenderá seus deuses e o de meus compatriotas. Manco ainda não abriu a boca. Ele parece perdido em seus pensamentos, quase inerte. Villa Oma se exaspera: - Acabemos com ele, irmão Manco! Este será o sinal que o povo e os deuses esperam para nos dar uma vitória estrondosa! - Este homem não morrerá. Manco pronunciou as palavras sem olhar para ninguém. Villa Oma parece imobilizado pela fúria. Seu braço começa a se levantar e ele aponta na direção de Manco. Mas, antes que tenha tempo de censurar o Inca, uma confusão explode na entrada da cancha. Dois chaskis banhados em suor atravessam o pátio e se prosternam no chão diante de Manco. - Falem - ordena o Inca. Sem levantar a cabeça, o mais velho dos dois começa. - Único Senhor, viemos para anunciar uma vitória estrondosa. Nossas tropas destruíram um exército de estrangeiros que o kapitu deles tinha enviado para auxiliar aqueles que mantemos sitiados em Cuzco. Destruímos muitos homens e tomamos armas e cavalos. Estão vindo para cá, Único Senhor, como oferenda e para sua glória! Manco permanece tão impassível quanto esteve desde a entrada de Gabriel na cancha. - O Sábio Villa Oma - diz afinal, lentamente - agora deve saber que não é necessário cometer a injustiça para obter grandes vitórias. O rosto de Villa Oma está tão esverdeado quanto o suco de coca que lhe escorre pelos cantos dos lábios, mas não diz uma palavra. Sem se despedir ou pedir licença, ele atravessa o grupo de soldados estupefatos, empurra as mulheres e se mete pela escada. No momento em que vai desaparecer no andar do prédio vizinho, enrola-se em sua manta e se vira. - Manco, eu não me esqueço que nós somos filhos do mesmo pai, o grande Huayna Capac. Não me esqueço de que você é o Filho do Sol. Mas Inti, ele faz o que é necessário para brilhar cada dia. Você está querendo estender a noite sobre todos nós? Diante da violência do insulto, os soldados ensaiam um movimento em sua direção. Mas Manco os detém com um gesto. - Deixem-no - ordena. - O Sábio não é mais o Sábio. A cólera e o ódio se apoderaram dele e suas palavras são apenas ruídos que ele faz com a boca! Também eu - diz ele, fixando Gabriel - fui submetido a humilhações pelos estrangeiros, que quiseram roubar minha mulher, me trataram pior do que se trata a um escravo, pior do que se fosse um cão... Mas mantive-me em silêncio e no segredo de nossas montanhas, com a ajuda de nossos deuses, preparei esta guerra que nós venceremos... A voz de Manco assumiu um tom orgulhoso ao longo de seu discurso e um rumor, logo transformado num clamor, ressoa por toda a cancha. - Agora - diz Manco quando a agitação se acalma -, quero ficar sozinho com o estrangeiro. Ele se levanta subtamente, empurrando as mulheres que se apressam para varrer o solo diante dele. Manco se aproxima de Gabriel e o toma pelo braço. Os presentes não conseguem conter um grito de surpresa; o Inca permanece indiferente. Ele puxa Gabriel para dentro de um aposento, o maior e mais ricamente decorado do lugar. Exceto por essa abertura, nenhuma luz do dia penetra ali. As paredes são escavadas com nichos onde repousam vasos de ouro ou de prata e estatuetas de animais. - Você sabe muito bem qual é o motivo de minha demência, não? - pergunta Manco secamente. Gabriel não consegue esconder sua surpresa. - Não, Senhor Manco. - Ela tem um nome que lhe é muito querido. Na penumbra, Gabriel vê o olhar de Manco se inflamar... Há apenas um instante o Inca parecia cheio de uma serenidade de sábio; e agora é sua vez de ser dominado pelo furor, uma cólera que cintila em seus olhos. - Anamaya é a sua vida - declara Manco. - Se eu não soubesse o que você representa para ela, você não teria sequer sido trazido a mim e a poeira de seu corpo estaria alimentando nossos campos férteis... - Compreendo nobre Manco, mas no entanto sei que o que disse a Villa Oma era de coração! Pode me odiar, mas não pode me impedir de admirá-lo. - Eu sou o Inca, estrangeiro! Lembre-se de que se você põe os olhos em mim é só porque eu quero isso... Nem seus sentimentos lhe pertencem! Gabriel domina o tremor que se apoderou dele. - Então permitirá que eu guarde para mim a única coisa que não me pode tomar: o silêncio. Manco não responde. Depois ele gira nos calcanhares para sair do aposento. No momento em que vai passar pela tapeçaria sobre a porta, observa Gabriel uma última vez. - O puma! - exclama num tom que Gabriel interpreta como desprezo. - Eis aqui o puma!
Capítulo 9 Ollantaytambo, noite de 18 de junho de 1536. Gabriel avança no frio da noite. Ele cochilava em seu leito duro, escutando o ruído da água que jamais cessa naquela cidade, quando o índio entrou silenciosamente no aposento da cancha que Manco lhe havia destinado. Ninguém disse que era prisioneiro, ninguém disse que ele estava livre: simplesmente seus pulsos foram desamarrados e as cordas das pegas que prendiam seus tornozelos foram retiradas. Duas mulheres estão a seu serviço e também dois índios, dois kollas silenciosos que devem protegê-lo - ou vigiá-lo. Quando Katari entrou em seu quarto, Gabriel o reconheceu imediatamente e seu coração se alegrou: é ele o amigo de Bartolomé, foi ele, sobretudo, que o salvou nas margens do Titicaca. - Bem-vindo, Mestre das Pedras! Está aqui para me trazer de volta ao mundo novamente? Para sua grande surpresa, Katari não diz nada, não esboça nem sequer um sorriso de compreensão ou de amizade. Seu rosto de maçãs salientes permanece inexpressivo, enquanto seus longos cabelos esvoaçam na penumbra. - Siga-me - é só o que diz a Gabriel. Gabriel teve tempo de se lavar e de jogar fora as roupas imundas que usava desde o dia do ataque à torre. Agora está vestido com uma ampla túnica de lã de alpaca. Seus músculos estão doloridos, todo seu corpo está enrijecido como se tivesse levado uma surra... Ele não faz nenhuma pergunta a Katari, se levanta e passa pela tapeçaria de lã grossa que cobre a entrada e segue seus passos. Katari diz algumas palavras em voz baixa aos dois guardas que se afastam. Eles percorrem as canchas silenciosas; suas sandálias deslizam sobre as lajes de pedra. Sem reduzir a velocidade e sem dizer uma palavra, Katari atravessa uma vasta praça antes de passar por uma porta monumental. Seguindo um atrás do outro, sobem, sucessivamente, seis plataformas através de alguns lances de escadas. Depois, a despeito da luz fraca da lua que se põe, Gabriel vislumbra que diante deles se abre uma escadaria que traça uma linha reta, quase vertiginosa, sobre a encosta íngreme da colina. Foi nessa encosta que viu, ao chegar naquela tarde, os terraços cortados como grandes degraus e as estruturas maciças do templo. Passo a passo, ele vai deixando para trás o peso de sua fadiga e também da estranha atitude de Katari; na penumbra, vê, acima dos terraços solidamente calçados de pedras, uma construção com vários nichos que imagina ser um templo tendo em vista a qualidade de suas paredes; mas o silêncio persistente de Katari e a crescente dificuldade para respirar o impedem de interrogar o rapaz. Mesmo quando chegam ao pé dos muros maciços do Grande Templo que se pode avistar desde o vale, Katari não pára, nem reduz a velocidade de seus passos. Apenas a inclinação da encosta diminui um pouco, permitindo-lhe algum alívio. Quando, afinal, eles chegam a um paredão maciço que impede a passagem para a colina, Katari se detém. Gabriel põe as mãos sobre as coxas para respirar, ofegando pesadamente. Depois de recuperar o fôlego, levanta os olhos para o Mestre das Pedras: - Agora você vai falar comigo? Katari ainda permanece em silêncio, mas pelo menos seu semblante perdeu aquela expressão neutra que Gabriel havia interpretado como hostilidade. - Quem falará com você é ela. Gabriel perde o fôlego novamente, mas dessa vez não é por causa do esforço. Ela! Desde que descobriu Ollantaytambo, afugentou para um recanto de seu espírito o pensamento que lhe rasgou o coração como um raio: revê-la, tomá-la nos braços... É tão magnífico e tão doloroso ao mesmo tempo que ele é obrigado a segurar a cabeça entre as mãos. Com a mão, Katari lhe indica o caminho, para além do paredão, que serpenteia sobre a inclinação suave e que leva até o cume da colina. - Vá - diz simplesmente. Ele desaparece sem dizer um adeus, sem dar mais nenhuma explicação. Gabriel observa o caminho, avança; cada um de seus passos é pesado e ele treme como não tremeu em combate. Depois do crepúsculo, Anamaya ficou sozinha no pequeno templo no topo da colina. Ele não é visível do vale e foi por este motivo que ela o escolheu com Katari; quando eles comunicaram suas intenções a Manco, o Inca os ouviu sem qualquer manifestação antes de aceitar com um suspiro: "Vocês sabem de coisas que eu desconheço." Foi Katari quem dirigiu sua construção com alguns de seus irmãos kollas, para que o segredo fosse mais bem guardado. Foi concluída em apenas um dia: uma simples parede de pedras ao redor, um pequeno prédio no qual se abrem quatro nichos do tamanho de um homem. Há três noites, eles trouxeram o Irmão Duplo para lá, embrulhado em mantas para que nenhum dos soldados ou dos sacerdotes - na verdade, para que mais ninguém, exceto Manco - e sobretudo Villa Oma tomassem conhecimento disso. No primeiro nicho, voltado para o sul, o Irmão Duplo agora está instalado. Desde a Grande Viagem, Anamaya não olha mais para o Irmão Duplo da mesma maneira; é como se o conhecimento que foi depositado nela tivesse estancado sua sede e sua inquietação. Não é mais tanto ele quem detém aquilo de que ela precisa, é ela que deve guardá-lo e protegê-lo a despeito das circunstâncias da guerra. Contudo, quando os últimos raios do sol desapareceram nas montanhas atrás dela, depois, quando o frescor e os ventos da noite chegaram para fazer- lhe companhia, ela não conseguiu impedir a invasão da expectativa da espera... Rever Gabriel, finalmente revê-lo.., ela se levanta e vasculha a escuridão, aguça a orelha tentando adivinhar seus passos... Ela recorda o olhar simples que lançou para Katari quando o chaski chegou com a notícia de que o prisioneiro estava a caminho... Ela impede sua imaginação de correr em sua direção para se jogar em seus braços e abraçá-lo, para dizer-lhe as palavras que conteve durante todas aquelas luas. Palavras em quíchua e em espanhol que lhe sobem desordenadamente aos lábios, e as lágrimas, e o riso. Depois ela observa o Irmão Duplo, imóvel, eterno, e uma aparência de calma torna a se apoderar dela. Anamaya dá alguns passos fora do prédio. O sussurrar da brisa se tornou tão distante quanto o dos dois rios. "Quando ele partir é que ele voltará para você. Ainda que separados, vocês estarão unidos..." Essas foram as palavras do grande Huayna Capac: será que dizem o que já aconteceu ou o que acontecerá? O sangue de Anamaya ferve com mais perguntas para as quais a profecia não lhe deu respostas. Do outro lado da porta do conhecimento encontra-se uma outra porta e assim por diante, até o fim da vida neste Mundo, e nas escadas que nos conduzem ao Mundo de Baixo. Uma nuvem esconde a lua que se torna quase negra. O vento sopra de novo e é então que ela ouve o passo de Gabriel e, quase ao mesmo tempo, vê aparecer sua silhueta. Ela corre, mas não em direção a ele e sim para o interior do templo. E é deitada no chão, abraçada ao Irmão Duplo, que ele a encontra. Ele desliza para o chão pondo-se ao lado dela. Nenhum dos dois consegue dizer uma palavra, fazer um gesto. Eles não se olham. Apenas a brisa faz com que se misturem as mechas dos |
posted by iSygrun Woelundr @ 1:14 PM   |
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